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Star Trek, a franquia que se reinventa sempre

Um grande vilão pode ser atração em 'Além da Escuridão', mas a beleza do filme de J.J. Abrams é a história de amizade

Luiz Carlos Merten - O Estado de S. Paulo,

14 de junho de 2013 | 16h37

Há um momento de Star Trek – Além da Escuridão em que o vilão interpretado por Benedict Cumberbatch vai para o primeiro plano e contorce a boca e revira os olhos, num exagero evidente, mas que expressa o ódio que o consome. Um bom vilão é sempre uma ferramenta indispensável na ficção. Um grande vilão está sempre na origem de um grande suspense, dizia Alfred Hitchcock, mas ele fazia a ressalva importante. Por mais terrível que seja o vilão, por mais lograda que seja a sua construção, não é com ele que o espectador se identifica. O vilão existe sempre para realçar o herói, e o de Além da Escuridão não é apenas um. São dois. Na abertura, o jovem Kirk rompe o protocolo e arrisca sua nave e a tripulação numa manobra arriscada para salvar a vida de Spock. No desfecho, Spock, que não é um homem de ação, mas de reflexão, arrisca tudo para retirar Kirk de entre os mortos e devolver-lhe a vida.

J.J. Abrams tem feito coisas extraordinárias, ao longo de sua carreira. Na TV, criou a série Lost, que virou cult. No cinema, fez talvez o melhor episódio de Missão Impossível, o 3, e também criou o melhor vilão da série, interpretado por Philip Seymour Hoffman, mas é pouco provável que o espectador retenha do filme outra coisa que não o ataque com o míssil, na ponte, e a corrida de Ethan Hunt (Tom Cruise) para salvar a mulher. J.J, reinventou a série Star Trek, voltando às origens. Criou uma estrutura mais dramática e humana para a ligação de Kirk e Spock, baseada na amizade e no respeito, mas fundada sobre uma rivalidade. Kirk brigou naquele bar, no filme anterior, por Uhura, mas ela escolheu Spock.

A obra-prima de J.J. talvez seja o único fracasso de sua carreira – fracasso, em termos. Super-8 foi feito para arrebentar nas bilheterias, porque o desafio de J.J., trabalhando com códigos de gêneros e mídias populares é sempre, na linhagem de Stanley Kubrick e Arthur C. Clarke, testar os limites do possível, rumo ao impossível. O garoto de Super-8 participa de uma filmagem amadora. Disputa com o amigo, o diretor, a atenção da garota. Será preciso descobrir porque os triângulos atraem tanto o diretor. O menino é órfão e, numa cena, ele olha com tristeza uma foto da mãe. Seu olhar é pura bondade, e o garoto se sente incompreendido pelo pai, que o ama mas tem dificuldade para expressar o afeto. Há um alienígena, um monstro, que só quer voltar para seu planeta de origem, como ET. Transformado em experimento humano – como o vilão de Além da Escuridão –, ele se rebela e vira agente de destruição. O mistério de Super-8 é a cena em que o menino e o ET se defrontam (e confrontam). Estabelecem um diálogo íntimo, além das palavras. Nesta cena, J.J. superpôs os olhos da mãe (na foto) aos do monstro. O público pode nem perceber, mas sente a eficiência da cena e ela é certamente genial.

Ao retomar a série Star Trek, J.J. Abrams não apenas cria uma nova história, uma nova relação para seus heróis míticos. Há gente que desdenha esses fenômenos da cultura popular, o fato de que, na TV e, depois, no cinema, Star Trek tenha criado uma legião de seguidores. Desde o começo, na televisão, nos anos 1960, já foram, quantas?, três gerações, por aí. E Star Trek fez história propondo, na ficção, uma integração que os EUA ainda não conheciam na realidade. Na ponte da nave Enterprise, criada por Gene Roddenberry, havia um piloto japonês, um navegador russo, uma oficial de comunicações negra, um engenheiro escocês e um primeiro oficial alienígena. Controvertido, na época, foi o primeiro beijo inter-racial da TV norte-americana, entre Kirk e Uhura no episódio Plato’s Stepchildren.

E J.J. agora consegue agregar novos trekkies, ou trekkers, como se chamam os aficionados da série. O filme é grandioso – tem ação, suspense, humor, romance e muitos (muitos!) efeitos. Tem um vilão com real motivação e, assim como Kirk e Spock são reinvenções, há uma cena com os dois que inverte situação similar no segundo filme da série original – A Ira de Khan, de Nicholas Meyer. Não custa lembrar que Khan, interpretado por Ricardo Montalbán, é simplesmente o melhor de todos os vilões de Star Trek – incluído Benedict Cumberbatch – e surgiu na TV, num episódio de 1967, Space Seed.

Como produtor e diretor de cinema e TV, J.J. Abrams tem sido responsável pelo lançamento ou consolidação de muitas carreiras. Chris Pine, o seu Kirk, veio da televisão, mas ganha cada vez mais espaço nos filmes. Agora mesmo, faz o novo filme do agente Jack Ryan, uma criação do escritor Tom Clancy que, no cinema, já foi interpretado por Alec Baldwin, Harrison Ford e Ben Affleck. O filme é dirigido por Kenneth Branagh. Zachary Quinto, o Spock, também veio da TV. É curioso como Kirk e Spock se completam, e o segundo encarna o lado racional do primeiro. (McCoy seria o lado emocional, mas o personagem ainda não teve, na nova série, a mesma importância de Spock – quem sabe no terceiro filme?).

Zachary Quinto não faz segredo de que é gay. Chegou a avisar aos produtores que o mundo do cinema e o público teriam de aceitá-lo como é. Zoe Saldana, a Uhura, é a beleza encarnada. Depois de Missão Impossível e Star Trek, J.J. Abrams se prepara para dar contribuição a outra série cult – Star Wars. Até que ponto conseguirá mudar alguma coisa no universo de fantasia montado por George Lucas? Depois da Terra, outra fantasia científica em cartaz, possui elementos de filme de verão, pelo padrão de Hollywood. Além da Escuridão é o próprio filme de verão. Em ambos, os diretores são autores empenhados em dizer alguma coisa sobre o planeta e a humanidade. O gênero espetacular, ao contrário do que muitos pensam – você sabe quem –, não é fácil e, menos ainda, quando, em meio à parafernália de efeitos, o que diretores como M. Night Shyamalan e J.J. buscam é o intimismo. Por desgastada que seja a palavra, há que utilizá-la. Por esse tipo particular de gênio, o espectador só tem a agradecer.

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