Ralph Gatti/AFP
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Stanley Donen, o cineasta que ajudou Gene Kelly a dançar na chuva e Fred Astaire, nas paredes

Diretor de 'Cantando na Chuva' e de outros clássicos do cinema, Stanley Donen morreu aos 94 anos

Ubiratan Brasil, O Estado de S. Paulo

25 de fevereiro de 2019 | 03h00

Cenas que pareceriam grosseiras – como Gene Kelly bailando na rua debaixo de um temporal (Cantando na Chuva, de 1952) ou Fred Astaire sapateando pelas paredes até atingir o teto (Núpcias Reais, 1951) – ganharam charme, delicadeza e se tornaram clássicas no cinema nas mãos de Stanley Donen. Diretor de grandes musicais, o cineasta americano morreu na quinta-feira, aos 94 anos, mas sua morte só foi noticiada no sábado, 23, pelo filho Mark. A causa não foi divulgada.

Donen trouxe charme e elegância para o cinema dos anos 1950, época em que o glamour e a suntuosidade dominava, especialmente os famosos musicais da Metro. “Por um tempo, Donen sintetizou o estilo de Hollywood”, escreveu o crítico Tad Friend em The New Yorker, em 2003. Donen, observou ele, “fez o mundo das fontes de champanhe e dos pillbox hats (chapeuzinhos pequenos e sem abas, usados por mulheres) parecerem encantadores, o que é muito mais difícil do que parece”.

Autor de filmes de aventura que unia ação com bom gosto, como Charada (1966), Donen se notabilizou, no entanto, pelos musicais – muitos se tornaram clássicos. Nascido em 1924, ele começou sua carreira como coreógrafo, em 1943, na Metro, em Rainha dos Corações. E, no ano seguinte, faria sua primeira parceria com Gene Kelly, em Modelos. Kelly foi seu grande parceiro – já nesse primeiro encontro, Donen criou uma sequência em que Kelly dança consigo mesmo, em uma rua escura de Manhattan.

O primeiro filme em que assinou a direção foi Um Dia em Nova York (1949), codirigido com Kelly. Trata-se da história sobre marujos que passam seu dia de folga em Nova York. O longa tornou-se histórico por ter sido o primeiro musical a ser filmado em locação.

Mas foi em 1952 que a parceria de Donen com Kelly atingiu o auge da criatividade, bom gosto e talento com Cantando na Chuva, até hoje considerado o maior musical de todos os tempos, imbatível na trama e, principalmente, nos grandes números de coreografia.

Para comprovar que seu talento não dependia da parceria com Kelly, Stanley Donen dirigiu outros longas que também se tornaram clássicos como o já lembrado Núpcias Reais, ou ainda Sete Noivas para Sete Irmãos (1954), marcante por apresentar uma das mais vigorosas coreografias que se tem notícia. Seu inestimável toque de elegância pode ser visto em Cinderela em Paris (1957), com Audrey Hepburn e novamente Astaire, com canções de George e Ira Gershwin.

Como ninguém é perfeito, Donen também cometeu pecados como dirigir Feitiço no Rio (1984), rodado no Brasil e que nem o grande Michael Caine conseguiu salvar. 

Homem culto, grande profissional do cinema, Donen comprovou isso em Um Caminho para Dois (1965), com Audrey Hepburn e Albert Finney – sempre atraído pelo tema da dupla amorosa e pelos comprometimentos daí decorrentes, Donen mostra, nesse filme, que estava atento às transformações do cinema europeu da época e incorpora, à produção de Hollywood, conceitos de linguagem (e de utilização do tempo e do espaço) que o francês Alain Resnais vinha desenvolvendo por meio de clássicos como Hiroshima, Meu Amor e O Ano Passado em Marienbad

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