"Spirit", um desenho para fãs de western

Demorou, mas Hollywood colocou naanimação um solo sagrado do western: Monument Valley, onde omestre John Ford fez suas obras-primas. Monument Valley foi umdos cenários visitados pela equipe pela DreamWorks, em busca dereferências visuais para Spirit - O Corcel Indomável. O belodesenho que estréia neste sábado é o terceiro do estúdio e usaanimação convencional, embora não prescinda de soluçõesespaciais que só o computador pode fornecer. No Festival deCannes, em maio, Spirit passou fora de concurso, numa sessãoàs 8 da manhã. Metade da crítica de todo o mundo preferiudormir; afinal, o filme passou fora de concurso. A outra metadefoi e gostou.Você também vai gostar, se for fã de westerns. Spiritbaseia-se numa lenda da conquista do Oeste. O corcel indomável,o espectador fica sabendo logo no começo, seria a própriarepresentação do espírito indomável dos pioneiros. É um desenhomenos ambicioso, esteticamente, do que Shrek, também daDreamWorks, que o estúdio de Steven Spielberg já haviaconseguido emplacar na seleção oficial de Cannes, no anopassado. Mas, atenção, é preciso colocar esse menos ambiciosoentre aspas. Spirit incorpora elementos de clássicos daDisney (Bambi e O Rei Leão) as idéias e situações chupadas deoutro clássico, esse da literatura - Caninos Brancos, deJack London, com um cavalo selvagem no lugar do lobo.Ambos conhecem os dissabores do choque entre a vida natural e oprocesso civilizatório. O livro de London conta o processogradual de adaptação do lobo à civilização. Spirit é criadoselvagem, mas é preso pelo homem branco e levado para o forte,para juntar-se aos cavalos emasculados que servem de burros decarga. Para contar sua história, os diretores Kelly Asbury eLorna Cook recorrem ao personagem do pele-vermelha,marginalizado pelo avanço dos brancos sobre o território dosíndios, na América do século 19. É, entre outras coisas, umfilme sobre a amizade entre diferentes.O filme é politicamente correto até demais. Talvez seja umdesenho mais para "meninos", embora a temática edipiana - aligação de Spirit com a mãe, que não chega à radicalidade daexperiência da morte em Bambi - e também o romance o tornemuniversal. Em Cannes, Asbury ressaltou o desenho artesanal,feito por profissionais. Ele leva a resultados deslumbrantes,mas há coisas - o vôo da águia, a câmera solta entre as patasdos cavalos em disparada - que só o computador pode fazer.Asbury disse exatamente isso, que as duas técnicas vão convergire um dia a animação informatizada talvez prevaleça.Por enquanto, é de opinião que o melhor é usar as duas.Spirit ousa. Seria "quase" perfeito para fãs de westernsse não fosse o excesso de cantoria: quatro canções com BryanAdams ou Paulo Ricardo (nas cópias dubladas). Mas, enfim, até oswesternmaníacos hão de lembrar-se que o próprio John Ford nãodispensava o coral dos Sons of the Pioneers.s

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