Spike Lee mostra sua ira

Spike Lee volta aos cinemas brasileiros com A Hora do Show ("Bamboozled"), seu 15.º longa-metragem. E volta com a corda toda, disposto a incomodar. Não deixa pedra sobre pedra. Depois de período de perplexidade, o autor do seminal Faça a Coisa Certa, reencontrou o caminho. Seu novo filme traz a virulência dos trabalhos de juventude. Aqueles que realizou nos anos 80, época de estudos na New York University.Se o brasileiro Plínio Marcos estivesse vivo e visse Bamboozled, soltaria fogos. Afinal, o tema central do filme é o "black face". Ou seja, a constrangedora apropriação que atores brancos fizeram de papéis negros, por meio do recurso da "cara preta" (camadas de tinta sobre a cútis branca para causar sensação e muitos risos). O caso mais famoso é o de Al Johnson, o ator (de origem judaica) que protagonizou O Cantor de Jazz (1929), primeiro filme da era sonora.No Brasil, um caso tornou-se célebre: em 1966, Sérgio Cardoso, ator de enorme prestígio angariado no TBC, foi escalado para interpretar Pai Tomás, o protagonista de A Cabana do Pai Tomás. Além de recorrer ao black face, a "Rede Globo" (que produziu a novela) colocou rolhas de cortiça nas narinas do ator de forma que seu nariz ganhasse forma abatatada. Plínio Marcos derramou indignação e protestos na imprensa, bares e teatros paulistanos.Fúria - Em Bamboozled, Spike Lee despeja sua fúria santa contra a indústria do entretenimento (ênfase na TV). O black face é sua principal arma. Só que - ironia das ironias - quem faz black face em seu novo show são dois atores negros. Eles pintam a cara de preto, como palhaços, para divertir platéias ávidas por novidade e estereótipos.Para revelar a imagem que a mídia eletrônica imprime dos negros americanos, Lee conta a história de habilidoso e ambicioso produtor afro. Frustrado com a mesmice dos programas televisivos, ele decide criar show politicamente incorreto, no qual artistas negros, com a cara pintada de preto, comandam trupe de coadjuvantes e reforçam estereótipos black que, historicamente, foram construídos pela indústria do entretenimento.Os estudos que embasaram o roteiro de Spike Lee têm em Donald Boogle seu nome de proa. No livro Toms, Coons, Mulattoes, Mammies e Bucks - An Interpretative History of Blacks in American Films, o pesquisador estuda os cinco estereótipos reforçados pela indústria do entretenimento ao longo de nove décadas. Nos anos 90, com o triunfo do multiculturalismo e do PC (politicamente correto), cineastas negros (e brancos) ampliaram a luta contra a difusão de tais estereótipos.Boogle explica os cinco tipos que, no filme de Spike Lee aparecem no contundente clipe que fecha as duas horas de Bamboozled: os coons (palhaços de olhos esbugalhados), os Toms (Tio Tom, ou Pai Tomás, no Brasil, negro servil, aquele que sempre diz "sim, senhor"), as mammies (negras gordas imortalizadas pela criada de ...E o Vento Levou e, na América Latina, por Mamãe Dolores, de O Direito de Nascer); os bucks (negros brutais e hipersexualizados, que têm em O Nascimento de Uma Nação, de Griffith, sua mais vistosa vitrine) e os mulattoes (ou mulatos trágicos, simpáticos, agradáveis, mas fadados a destino trágico inexorável, pois buscarão casamentos interraciais e o ocultamento de suas origens negras).Spike Lee, em uma de suas ironias nada sutis, mostra o triunfo do programa do jovem produtor black. Os donos da emissora (branquíssimos) festejam o estouro de audiência. Muitos conflitos vão se desdobrar até que o filme atravesse suas vibrantes duas horas. Lee não poupa nem os atores afro-americanos: "A TV só mostra imagens estereotipadas dos negros. E os atores negros são cúmplices dessa triste realidade", constatou na época do lançamento do filme.Lançamento que causou imensas controvérsias no último Festival de Berlim. Até mesmo entre jornalistas simpáticos à causa judaica, incomodados com atitudes "anti-semitas" do realizador.Um pouco de sutileza faria bem ao cinema de Spike Lee? Claro que sim. Suas metáforas são explícitas demais e seu cinema tem muito de pedagógico. Mesmo assim, sua obra constitui programa obrigatório, pois tira o espectador do torpor cotidiano de séculos de racismo. Em Bamboozled, a platéia vai deparar-se com monumental levantamento da iconografia norte-americana, construída para menosprezar os negros. Um dos objetos - um cofrinho com um negro beiçudo - chega a causar arrepios.Incômodo espelho - Os manos da periferia de São Paulo encontrarão no filme de Spike Lee incômodo espelho. Afinal, indignados com o show dos pretos cobertos por redundante "black face", os brothers de Bamboozled apelarão para a violência (optando por seqüestro de trágicas conseqüências).Numa das seqüências finais - que, aliás, traz vestígios de A Bruxa de Blair -, Lee retoma a dicotomia que perpassa boa parte de sua obra: pacifismo/violência. A quem seguir: a Malcolm X (ira santa e armada)? Ou Luther King (ira santa pacífica)? Quinze anos - e 15 filmes - depois de sua estréia, há que se concluir que A Hora do Show compõe com Faça a Coisa Certa e Febre na Selva a trinca máxima de Spike Lee. Três filmes de "utilidade pública", programas obrigatórios. Assim como a leitura de A Negação do Brasil - O Negro na Telenovela Brasileira, de Joel Zito Araújo, obra seminal e matriz que gerou filme de mesmo nome e tão importante quanto Color Adjustment, de Marlon Biggs (realizado pela TV pública americana, em 1991).A Hora do Show - ("Bamboozled"). Comédia. Direção de Spike Lee. EUA/2000. Duração: 135 minutos. Com Damon Wayans, Savion Glover, Jada Pinkett-Smith, Tommy Davidson, Michael Rapaport. 14 anos.

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.