Vianney Le Caer/Invision/AP
Vianney Le Caer/Invision/AP

Spike Lee mostra filme sobre a Klu Klux Klan no Festival de Cinema de Cannes

'BlacKkKlansman' é um dos trabalhos mais fortes e criativos do diretor e fala de policial negro que se infiltra na organização racista

Luiz Carlos Merten, O Estado de S. Paulo

14 Maio 2018 | 21h29

CANNES - Spike Lee veio com tudo, disposto a recuperar a Palma de Ouro que todo cinéfilo acha que deveria ter recebido por Faça a Coisa Certa, em 1989. BlacKkKlansman é um dos filmes mais fortes e criativos do autor. Baseia-se no relato de Ron Stallworth, um policial afro-americano que, com a ajuda de um colega judeu, conseguiu se infiltrar na organização racista Klu Klux Klan em plena era dos Panteras Negras. O filme revisita o imaginário hollywoodiano – O Nascimento de Uma Nação, ...E O Vento Levou, blaxploitation movies – até chegar à era Trump e tudo o que representa de ameaça aos direitos. É um filmaço.

Um outro tipo de fenômeno ocorreu à tarde. Emocionada com a reação do público, que aplaudia de pé, a bela atriz Erika Karata não aguentou e chorava de soluçar no final da apresentação de Asako I & II. O longa de Ryusuke Hamaguchi foi um dos dois japoneses apresentados ontem, na competição. O outro foi Negócio de Família (Shoplifters), de um autor conhecido do público brasileiro, e de Cannes – Hirokazu Kore-eda. Com delicadeza, o companheiro de elenco de Karata, Masahiro Higashide, tomou-a nos braços e ela passou a chorar silenciosamente em seu ombro. Curvaram-se, numa respeitosa saudação oriental de agradecimento. Formam um belíssimo casal, aliás trio.

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Karata se apaixona por um tipo libertário, que, lá pelas tantas, diz que vai à esquina e desaparece. Passa o tempo, ela desiste de esperar e se envolve com outro homem, igualzinho ao primeiro. Quando parecem estáveis, o amante anterior ressurge, levando Karata a uma decisão precipitada.

Quando acaba a confiança, o amor tem volta? Tal é o tema de Hamaguchi, um autor que talvez ainda seja pouco conhecido no Brasil, mas tem acumulado recompensas – dois prêmios em Locarno e outros dois no Festival de Três Continentes, de Nantes, em 2015, por Happy Hour. Rebatizado como Senses/Sentidos, o filme está estreando em maio em Paris. Cahiers du Cinéma lhe dedica duas páginas de elogios sob o título O Lugar das Mulheres.

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Neste ano de tantas mulheres no júri – e tantas heroínas determinadas na ficção –, como Cate Blanchett e suas companheiras vão reagir à inconstância de Asako, a personagem de Erika Karata? Ela chega a repetir um chavão do romantismo – “Amar é não ter de pedir perdão”, lembram-se de Love Story? –, mas o filme, delicado como é, tem vocação de cult. Espelha uma juventude impulsiva, que terá de dar suas cabeçadas para amadurecer.

O “outro” japonês tem a barra mais pesada. Uma família de cinco pessoas, mas ninguém unido por laços de sangue. Se não é o afeto que os une, o que é? O dinheiro. Hirokazu Kore-eda virou o cronista da família japonesa contemporânea, como Yasujiro Ozu foi no seu tempo. Seus cinemas diferem, e Ozu é intocável em seu panteão. Mas Kore-eda também é um mestre dos sentimentos, ou – muitas vezes – da ausência deles. É o diretor de O Terceiro Assassinato, em cartaz no Brasil.

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Depois do filme de tribunal, a família que vive de aplicar golpes e roubar lojas. Talvez seja o mais duro e cruel filme recente de Kore-eda. Depois desse espelho distorcido do estado do mundo, o que poderia restabelecer a esperança do público? A palavra do papa Francisco.

Você não esperaria que Wim Wenders, depois de Asas do Desejo, viesse com um filme como esse. Papa Francisco – Um Homem de Palavra. Wenders busca as origens do apostolado do papa argentino. O discurso do papa Francisco não poderia ser mais antiglobal. Ele bate forte na globalização da desigualdade, da miséria, da indiferença. Denuncia os abusos cometidos contra a Mãe Terra e o horror da condição dos migrante. 

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Como todo ano, há uma disputa entre a seleção especial, com os filmes da competição, e a mostra da Quinzena dos Realizadores. No domingo à noite, o Palais Croisette, sede da Quinzena, abrigou a apresentação de um dos grandes filmes desse festival. Em 2016, em Berlim, o tunisiano Mohamed Ben Attia ganhou o prêmio de melhor ator e o de melhor primeiro filme por Hedi. Ei-lo de novo na primeira fila com Mon Cher Enfant.

Uma família de três – pai, mãe e o filho que vai prestar vestibular. O garoto está ansioso. Vomita, desmaia. Não é o estresse do vestibular. Meia hora de filme o garoto desaparece. Vai se juntar aos jihadistas. A família desmorona. O pai vai atrás dele até a Síria. Pai e mãe se recriminam por não haverem entendido corretamente os sinais de que a coisa não ia bem, e não apenas como garoto. É o tema de Ben Attia, que, a despeito da juventude e com apenas dois longas, já se estabeleceu como grande do cinema da Tunísia (do Magreb em geral).

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