Universal Pictures
Universal Pictures

Spike Lee e a sua primeira indicação ao Oscar de melhor direção

A reação do diretor à sua primeira chance de levar uma estatueta por ‘Infiltrado na Klan’, após várias decepções

Entrevista com

Spike Lee

Reggie Ugwu, The New York Times

03 de fevereiro de 2019 | 03h00

Há três anos, Spike Lee foi destaque na imprensa quando anunciou que ignoraria o Oscar em protesto ao fato de a academia, historicamente, não homenagear artistas negros. E agora a academia chega até ele.

Infiltrado na Klan, filme de Spike, não contando a categoria documentários, foi indicado para seis Oscars, incluindo o de filme e diretor. É a primeira indicação de Spike Lee, considerado no meio cinematográfico uma das figuras mais importante e um dos mais ativos ombudsmen do setor, há pelo menos duas décadas.

Seus filmes clássicos das décadas de 1980 e 1990 (Ela Quer Tudo, Faça a Coisa Certa, Malcom X) reformularam o cinema norte-americano, contribuindo para a ascensão de estrelas como Denzel Washington e Samuel L. Jackson e tornaram Spike uma celebridade – em parte autor, em parte funcionário público, em parte modelo de uma marca de tênis.

Mas ele teve uma tensa relação com a Academia de cinema desde o início da sua carreira. Na cerimônia do Oscar em 1990, Faça a Coisa Certa perdeu em duas categorias (roteiro e ator coadjuvante, para Danny Aiello) e por pouco não conseguiu o prêmio de melhor filme, que naquele ano foi para Conduzindo Miss Daisy. Em 2015, em seu discurso ao receber um prêmio honorário da academia, o Governors Awards, Spike implorou aos presentes para “ficarem espertos” no que diz respeito à diversidade e para criarem uma mão de obra criativa que “refletisse os Estados Unidos”.

Na mesma noite do discurso, Cheryl Boone Isaacs, então presidente da Academia, anunciou uma campanha de vários anos para diversificar seus membros. A medida não foi suficiente para convencer Spike a participar da cerimônia em 2016, mas ele considera que os esforços de Isaacs abriram caminho para Infiltrado na Klan. O filme, um sucesso de crítica e de bilheteria, baseia-se numa história real de um policial negro que se infiltrou na Ku Klux Klan e transformou o diretor, com 61 anos, em celebridade admirada.

Spike falou sobre o filme, o cenário atual de Hollywood e, naturalmente, a situação da Casa Branca, em uma entrevista que concedeu de sua casa em Nova York onde assistiu, junto com sua mulher, os dois filhos e um cachorro agitado ao anúncio feito naquela terça-feira, 22 de janeiro. 

Na sequência, alguns trechos da entrevista:

Como você se sente? 

Muito bem. E muito contente. Estávamos todos assistindo na cama e começamos a pular. Minha cachorra começou a latir porque não sabe o que está ocorrendo – mas é um bom dia. Um belo dia.

Você disse que desde sua experiência com ‘Faça a Coisa Certa’, nunca teve esperanças de reconhecimento da Academia. O que significa ser indicado agora, 30 anos depois? 

Em qualquer ocasião que há uma premiação você deve pensar em quem está votando. E os membros da Academia hoje são muito mais diversificados do que naquela época. E o #OscarsSoWhite sem dúvida impeliu a Academia a abrir sua filiação. É por isso que, na minha opinião, hoje você assiste a filmes de negros e observa que está havendo um reconhecimento. Muitas pessoas trabalharam nesse filme, seja na frente ou atrás das câmeras. E há também o marketing – toda essa campanha para o Oscar eu não conseguiria ter feito sozinho. Não é provável que ganhemos. Sempre fui um azarão, sempre.

Uma parte de você sente que a indicação chegou com atraso?

Não é segredo. Trinta anos é um tempo muito longo. Mas não estou me queixando! Esse é um dia feliz. Sinto-me abençoado pelo reconhecimento. E não são apenas as pessoas que trabalharam nesse filme (que também foram reconhecidas), mas as pessoas que vêm trabalhando nos meus filmes desde 1986.

Você realizou todos os tipos de filmes, então havia alguma coisa no caso de ‘Infiltrado na Klan’ que fez você achar que havia potencial para repercutir de uma maneira diferente?

Bem, quando Jordan Peele (diretor) me telefonou e me deu a dica do “negro que se infiltrou na Ku Klux Klan”, fiquei fascinado porque com o absurdo dessa premissa vem o humor. Kevin Willmott (que escreveu o roteiro junto com Spike) e eu sabíamos que se conseguíssemos usar o filme para relacionar o passado e o presente, faríamos algo que teria conexão com as pessoas. Era algo difícil, mas deu certo e o filme fala diretamente para o mundo em que vivemos hoje, com esse sujeito na Casa Branca. Agora, quando 800.000 precisam parar para pensar à medida que entramos em mais um momento de acessos de raiva sobre o dinheiro que esse indivíduo quer para seu muro. Um muro que ele deseja construir na fronteira de um país que diz ser antro de estupradores, assassinos e traficantes de drogas. E que eles vão pagar por ele. O que não é verdade. Esse filme trata diretamente da loucura e do caos desse Looney Tunes. E acho que daqui a muitos anos, quando os historiadores buscarem uma peça de arte que mostre o que vem ocorrendo hoje, Infiltrado na Klan será a primeira coisa que eles examinarão. Porque esse filme está do lado certo da história.

Quando você pensa nesse trajeto de ‘Infiltrado na Klan’, acha que isso diz alguma coisa sobre a situação do setor cinematográfico atual e o caminho para o qual ele está enveredando?

Nada disso seria possível se a Academia de Hollywood não tivesse adotado a medida heroica e certa de abrir sua base de afiliados para refletir melhor o que é este país. E o meu aplauso à ex-presidente Cheryl Boone Isaac por ser a pessoa que lutou por isso. Não acho que foi fácil para ela.

Certa vez, você disse que é mais fácil um negro se tornar presidente dos Estados Unidos do que se tornar dirigente de um estúdio de cinema. Ainda não há muitos negros na direção de estúdios de cinema?

(Risos). Ainda acho que estou certo. Penso que uma das fronteiras finais para completar a diversidade tem de ser entre os que guardam a entrada, as pessoas na direção de vários meios de comunicação que decidem o que os estúdios devem fazer ou não. Enquanto não houver diversidade, ainda teremos problemas.

Na sua lista pessoal dos 10 melhores como você classifica ‘Infiltrado na Klan’?

É o mais recente. O mais recente Spike Lee Joint. / TRADUÇÃO DE TEREZINHA MARTINO

Encontrou algum erro? Entre em contato

Tendências:

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.