Spike Lee divide Berlim com novo filme

Spike Lee fez o circo de Berlim pegarfogo, há dois anos, quando veio mostrar aqui A Hora do Show.Foi quando denunciou a fraude que elegeu o presidente George W.Bush, todo aquele episódio suspeito envolvendo eleitores negrosda Flórida, impedidos de usar seu direito de votar e elesqueriam votar contra Bush filho. Spike Lee está de volta aBerlim com The 25th Hour. O filme rachou o festival. Poucosamam de paixão, a maioria prefere bater. Edward Norton faz umtrapaceiro nova-iorquino que deve ir preso. A trama gira emtorno de questões como: quem o entregou à polícia?, ele devefugir ou não?Na cena mais polêmica de The 25th Hour, Norton vaipara a frente do espelho e faz um número inspirado no Robert DeNiro de Motorista de Táxi. Lembram-se? "Are you talking tome?" Aqui, o que Norton diz é "Fuck you" e, para ilustrar otema, Lee usa imagens de todos os tipos de imigrantes que vivemem Nova York e de Osama Bin Laden também. "Fuck you, Osama BinLaden", diz Norton. O espectador espera ouvir uma resposta, um´fuck you, George W. Bush´, mas isso não ocorre. O que houve?"Filmei em Nova York e a idéia é expressar um sentimento dosnova-iorquinos após o atentado de 11 de setembro", explica odiretor. Ele se diz escandalizado com os diretores de Hollywoodque apagaram digitalmente as imagens das torres gêmeas de seusfilmes, como O Homem-Aranha, de Sam Raimi. "Eu jamais fariaisso", diz.Lee continua crítico de Bush. Acha que os EUA, e opresidente, menos ainda, não têm autoridade moral para armar essacruzada contra o Iraque. Diz não à guerra. Também não acha que ofim do filme - uma ilustração do sonho americano de ir para oOeste (re)construir a vida - seja sério. "É irônico, ou vocêsvão me dizer que também não há ironia na forma como mostro otratamento que Hollywood, tradicionalmente, deu aos negros em AHora do Show?"O 53.º Festival de Berlim já está chegando ao fim. Aindafaltam filmes importantes, mas sábado à noite haverá a entregado Urso de Ouro. Há metáforas demais nesse festival. A doença, amorte. Hoje passou um filme esloveno, sobre refugiados. SpareParts, de um diretor chamado Damzan Kozole. O cara queatravessa os fugitivos na fronteira está morrendo de câncer. Meucâncer é a Europa, ele diz. E critica esse sonho de uma Europaunida, dizendo que já era o sonho de Adolf Hitler, só que ocelerado nazista usou outros métodos. Na seqüência, passou umbelo filme do japonês Yoji Yamada, The Twilight Samurai.Yamada sensei? Não é o tipo de cineasta que os críticos chamamde mestre, mas ele é. Com quase 80 filmes no currículo, mais de40 pertencem à série Quero Ser Homem, um imenso êxitopopular no Japão. The Twilight Samurai conta uma história desamurais. Para que exigir mais se essa história engloba tudo:honra, família, amor?Já se falou aqui, e muito, na preferência da seleção deBerlim por filmes que põem ênfase nos aspectos sociais epolíticos. Independentemente de se gostar ou não dos filmesselecionados, eles formam um discurso coerente e muito críticosobre (e contra) a globalização, investindo contra essasociedade de mercado que foi transformada em avatar para asolução de todos os problemas, mas que não resolve o problemafundamental da exclusão social. Há gente demais sofrendo,morrendo, se prostituindo para que alguns vivam bem. É adolorosa lição a tirar dos filmes exibidos na Berlinale.Os três filmes brasileiros exibidos nas mostrasparalelas participam desse movimento e oferecem não uma visãounitária, mas diferentes versões do mesmo tema - a crise moralque assola o Brasil, a corrupção, a violência, a exclusão. OHomem do Ano foi muito aplaudido na sessão oficial do Panorama, realizada na quarta à noite. O diretor José Henrique Fonseca,filho do escritor Rubem, relaxou. Ele se baseou no livro dePatrícia Melo, O Matador, e fez um filme sobre violência,mas consideravelmente menos violento que o livro. Muita gentemorre, muita gente empunha o revólver, mas não se vê ninguématirando. É sempre um antes e um depois. Há um público decinéfilos em Berlim e eles, centenas de pessoas, aplaudiram ofilme que deve estrear no País em maio.O primeiro filme brasileiro em Berlim havia sidoAmarelo Manga, de Cláudio Assis. O terceiro foi Rua Seis,sem Número, de João Batista de Andrade, que será exibido hojeà noite, com direito a debate do diretor com o público, após aprojeção. Andrade estava feliz, hoje à tarde. Mostrou aorepórter um exemplar do Berliner Morgenplatz, com umacrítica de seu filme. Andrade não fala alemão. Pediu a traduçãodo artigo e descobriu que é muito elogioso em relação a RuaSeis, sem Número. Na verdade, o autor aponta o filme como oprograma recomendado de hoje, em todas as seções do festival. OBrasil marca presença em Berlim. Mas o Urso de Ouro docurta-metragem - o único ao qual o cinema brasileiro concorria,com Plano-Seqüência, de Patricia Moran - foi para umfilme da Eslovênia, (A)torzija, de um certo StefanArsenijevie.

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