Spike Lee chega em três DVDs

Nada desautoriza mais o Dicionário de Cinema do francês Jean Tulard, editado no País pela L&PM, do que a brevidade com que ele despacha Spike Lee. São três linhas, apenas: Lee é definido como um realizador negro bem-humorado e sensível às tensões raciais que perduram nos EUA e Tulard acrescenta a essa informação os três temas que o diretor gosta de tratar - gueto, jazz e anti-semitismo. É reduzir demais a importância do diretor de Faça a Coisa Certa e A Hora do Show. É o que você poderá conferir com o pacote de DVDs que já está nas lojas. Nele encontram-se três filmes de Spike Lee: o citado Faça a Coisa Certa, obra-prima do autor e um dos grandes filmes americanos dos anos 1980, Febre na Selva e Irmãos de Sangue. Spike Lee virou um caso no cinema americano, mas não pode ser considerado um fenômeno isolado. O movimento negro nos EUA teve força suficiente para impor à indústria do cinema um regime de cotas, respaldado pelo êxito de astros negros como Eddie Murphy e os dois vitoriosos do Oscar deste ano, Denzel Washington e Halle Berry. À lista pode e deve ser acrescentado um nome anterior a esses, o de Sidney Poitier, que estrelou filmes importantes (e ganhou o primeiro Oscar de melhor ator destinado a um afro-americano, nos anos 1960). Denzel trabalhou duas vezes com Spike Lee, em Mais e Melhores Blues e Malcolm X, mas é um tanto exagerado, ou equivocado, considerar o cineasta integrado ao cinemão de Hollywood. Lee é mais um guerrilheiro no cinema americano. Seus filmes podem ter sido distribuídos pelos estúdios que representam o cinemão, mas, a propósito, quantos deles não foram lançados no Brasil ou passaram brevemente pelos guetos da exibição alternativa nos últimos tempos? Ele é um cineasta crítico da integração do negro de classe média à sociedade americana. Todo mundo sabe que essa integração se faz pela via do consumo. O negro só passou a ser aceito quando teve dinheiro para consumir e o mesmo ocorreu com o gay, por exemplo. O alto poder aquisitivo dessa minoria tornou-a atraente para a sociedade de consumo, mas essa é outra história. Lee critica a aspiração do carro, da casa, do conforto material, até a da família estabelecida. Em vários de seus filmes há, no interior da família, conflitos entre negros bem-sucedidos e os irmãos que permanecem no tráfico, na violência. Lee talvez só tenha errado feio uma vez na vida. Foi quando fez Mais e Melhores Blues com Denzel Washington no papel de um jazzman, como reação ao Clint Eastwood de Bird e ao Bertrand Tavernier de Por Volta da Meia-Noite. Lee criticou duramente os dois por terem feito filmes "mitologizantes e depressivos" (definição dele). Fez o que não se esperava: um filme negro com a alma branca. Ele queria mostrar o músico de jazz distante do estereótipo do drogado. Criou uma fantasia sobre um jazzista limpo de drogas, ultraprofissional e elegante como um top model. Tirando esse passo em falso, fez quase sempre a coisa certa, a começar pelo filme que leva esse título e discute o racismo nos EUA misturando negros e ítalo-americanos numa pizzaria do Brooklyn, onde o excesso de calor e a música a todo volume desencadeiam uma verdadeira guerra. Spike Lee estreou no cinema - em 1986, com She´s Gotta Have It - com o firme projeto de mostrar a vida dos negros "sob seu aspecto dinâmico" (definição dele, de novo). Estava farto de filmes sobre negros que comiam o pão que o diabo amassou em casas arruínadas, nos guetos. Três anos depois, logrou com Faça a Coisa Certa o seu melhor filme (com A Hora do Show, do ano passado). Em Febre na Selva, de 1991, discutiu o impacto de um romance interracial: Wesley Snipes, como um arquiteto negro casado e bem-sucedido na profissão, inicia um romance com a branquela Annabella Sciorra. É visto como traidor não só pela mulher, mas também pelos amigos, que não acreditam em amor e acham que se ligar a uma branca só pode ser o sonho de consumo de um negro alienado. Em 1995, com Irmãos de Sangue, Spike Lee voltou ao Brooklyn para desvendar os mecanismos do tráfico de drogas. Ele começa o filme com imagens fortíssimas de corpos destroçados na guerra de gangues. Prossegue com a história de um tira ítalo-judeu, interpretado por Harvey Keitel, que desconfia que o homem que confessou o assassinato do dono de um restaurante seja mesmo culpado. Ele acredita mais que o responsável seja o irmão do suspeito - que trabalha para um czar das drogas. Spike Lee, como ator e diretor - também atua em Faça a Coisa Certa -, viaja nesse mundo captando a linguagem das ruas com uma urgência ausente da visão pasteurizada que domina a produção corrente de Hollywood na atualidade. Integrado, é? Só para quem não viu A Hora do Show.

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