Regis Duvignau/ Reuters
Regis Duvignau/ Reuters

Spielberg vira herói e símbolo na França

Imprensa celebra gesto político do presidente do júri de Cannes, que premiou filme sobre lesbianismo

Luiz Carlos Merten - ENVIADO ESPECIAL,

27 de maio de 2013 | 17h30

PARIS - La Palme (de)culotée - A Palma sem calcinhas de Abdellatif Kechiche virou manchete dos principais jornais franceses, dividindo as capas com as manifestações de ontem em Paris, contra e a favor o casamento gay. Os franceses ainda não se recuperaram do choque que foi ver Dominique Strauss-Kahn, o ex-presidente do Banco Mundial - que protagonizou escândalo de assédio sexual -, fazer a montée des marches do maior festival do mundo. Ontem ainda se comentava como DSK conseguiu seu convite sem que ninguém da imprensa soubesse, mas o assunto dominante era a audaciosa decisão de Steven Spielberg e seus jurados, avaliando as gráficas cenas de sexo entre Adèle Exarchopoulos e Léa Seydoux. 

Elas parecem tão reais - na entrevista que deu ao Caderno 2, Adèle repetiu com alguma exasperação que c’était faux, era falso. Ela faz questão de dar seu apoio ao casamento entre iguais, mas também de deixar claro que não é sua praia. Adèle, de resto, dedicou o prêmio a seu amor - e ele estava na plateia, sentado com os pais dela. Le Figaro, Libération, Nice Matin. A vitória da França foi saudada com uma revanche do cinema e da juventude franceses. No palco do Grand Theatre Lumière, Kechiche já havia dedicado seu filme aos jovens, ao seu "espírito de liberdade e vivre ensemble", que deveria servir de farol para a sociedade inteira.

Velhas histórias foram lembradas, como a de que, anos atrás, o diretor artístico de Cannes, Thierry Frémaux recusara La Graine et le Moulet, O Segredo do Grão, também de Kechiche, e desta vez, como para se redimir, aceitou A Vida de Adèle praticamente na véspera do anúncio da seleção oficial. Como se resumindo o sentimento geral, Philippe Dupruy escreveu, em Le Nice Matin, que era preciso agradecer a Spielberg não apenas por essa lição de cinema, mas também de civilidade. "Thank you, Mr. Spielberg, este belo filme mostra a importância de viver livremente, de se expressar e amar livremente."

Para Le Figaro, foi um Palmarès "de cortar o fôlego" e o enviado do jornal à Croisette, Eric Neuhoff, disse que o presidente do júri, suspeito de puritanismo, surpreendeu todo mundo com sua Palma erótica e passional. Na coletiva do júri, após a premiação, ao mesmo tempo que minimizava a dimensão política da escolha, M. le Président deixou claro que todos os jurados são artistas e, como tal, têm sensibilidade para entender e aceitar a carga de paixão que Kechiche e suas atrizes colocam na tela. Júri, aliás, fez história outorgando uma Palma tríplice. Em anos anteriores, o prêmio atribuído algumas vezes ex-aequo, ou seja, dividido em dois, mas Spielberg e seus jurados dividiram a Palma em três, entre Kechiche e suas atrizes.

Libé viu na tríplice escolha um símbolo. E, no mesmo dia em que a direita convocava seus adeptos para uma manifestação contra o casamento gay - "uma França da qual não estamos orgulhosos", diz o jornal -, Kechiche, com sua história de educação sexual e sentimental, descortina um outro mundo possível. Para a imprensa progressista de diferentes matizes, Spielberg, grande cineasta, virou Spielberg, o herói. Kechiche, segundo Libé, só tem um equivalente no cinema francês. Por seu método lento e a forma como reinventa o roteiro com os atores - a rodagem de Adèle durou cinco meses -, Kechiche lembrou ao jornal Maurice Pialat, que também ganhou a Palma de Ouro. No caso dele, foi por Sob o Sol de Satã, adaptado de Georges Bernanos. Pialat recebeu seu prêmio sob vaias; Kechiche, sob aplausos estrondosos. A Palma que, para Spielberg, foi do amor, para a imprensa francesa foi, acima de tudo, um gesto político.

Encontrou algum erro? Entre em contato

Comentários

Os comentários são exclusivos para assinantes do Estadão.

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.