Spielberg mostra seu novo filme futurista

Steven Spielberg disseminou o pânico e cunhou o termo blockbuster com Tubarão, passou pelo complexo de Peter Pan em E.T.- O Extraterrestre e Hook - A Volta do Capitão Gancho, pelos filmes de aventura como Indiana Jones e O Parque dos Dinossauros; e se mostrou cinematograficamente amadurecido em suas histórias sobre a segunda Guerra Mundial, como A Lista de Schindler e O Resgate do Soldado Ryan.Aos 55 anos, o maior cineasta americano da atualidade mostra-se ainda dominante na tática do jogo de Hollywood, com uma facilidade - e disposição - para reinventar-se de tempos em tempos. A nova fase em que Spielberg se encontra é a de filmes de ficção científica cerebrais e visionários, feitos na melhor escola kubrickiana. Há quem brinque que Spielberg anda possuído pelo espírito de Stanley Kubrick, mestre do cinema mundial morto em 99. No ano passado, Spielberg criou o vilipendiado filme de ficção científica A.I. - Inteligência Artificial, baseado em idéias e anotações de Kubrick sobre um garoto-robô que quer conquistar uma alma humana para seu corpo construído a partir de chips e engrenagens mecânicas. No mesmo estilo kubrickiano e emplacando uma segunda pequena obra-prima sem intervalos, Spielberg está de volta agora com uma nova pérola, o sci-fi noir Minority Report - A Nova Lei, a ser lançado nos Estados Unidos no dia 21 e, no Brasil, em 2 de agosto. O filme, ao qual a reportagem do Estado teve acesso exclusivo, comparecendo a uma de suas primeiras sessões para a imprensa, é baseado num conto de 31 páginas do mestre da sci-fi Philip K. Dick, publicado originalmente em 1956. Tom Cruise interpreta Paul Anderton, o chefe de um esquadrão de polícia chamado Precrime (Pré-Crime). Em 2054, em Washington, a capital americana, essa agência policial tem a capacidade de zerar a criminalidade, ao prender futuros contraventores e assassinos antes que eles perpetrem seus crimes. A taxa de 98,9% de elucidação de atos criminosos da Precrime é conquistada graças à ajuda de um trio de videntes-mutantes batizados de precogs (pré-cognitivos), que, com suas visões premonitórias, podem antecipar cenas de futuros crimes num raio de ação de 300 milhas e com até duas semanas de antecedência. Agatha, a líder dos precogs, antecipa um crime que Anderton vai cometer e este tem 36 horas para elucidar o quebra-cabeças. Assim como A.I., Minority Report é um vibrante e frenético Spielberg, repleto de extravagâncias e desníveis, mas sem nunca deixar de manter a platéia instigada por novas idéias e possibilidades futurísticas. Além dos evidentes kubrickianismos da nova fase de Spielberg, em Minority Report o cineasta também usa elementos do cinema de David Lynch (cenas de sonhos povoados por pessoas bizarras) e faz uma homenagem ao noir de Dashiell Hammett, em especial O Falcão Maltês, base para o famoso filme homônimo de John Huston. Na verdade, esse universo das histórias de Hammett, assim como das de Raymond Chandler e Philip Marlowe, era há muito tempo paquerado por Tom Cruise. Ele viu na história de sci-fi de Dick as oportunidades de ressaltar o noir e também a de oferecer o projeto para Spielberg, diretor com quem o ator sonhava em trabalhar desde o começo da década de 80. Faroeste - Spielberg decidiu aceitar tal projeto por encomenda também pela oportunidade de dirigir Cruise. No passado, o cineasta tentou trabalhar com Cruise num western. Quando o projeto não vingou, os dois estudaram a possibilidade de adaptar um conto de F. Scott Fitzgerald chamado The Curious Case of Benjamin Button, sobre um homem que nasce velho e vai remoçando, e também nunca saído da prancheta. Spielberg estava pronto para assumir a direção de Rain Man, estrelado por Cruise e Dustin Hoffman, quando a luz verde foi dada para o terceiro Indiana Jones e o diretor Barry Levinson acabou assumindo o cargo vago no drama sobre um autista, que acabou vencendo o Oscar. Cientistas ajudaram cineasta - A seqüência inicial de Minority Report é uma colagem visual e violenta à Amnésia (Memento), de Christopher Nolan. Em flash-backs contados de trás para a frente, o espectador toma conhecimento de um crime de adultério. Em seguida, descobre-se que essas imagens estão sendo captadas pelo trio de precogs, mutantes pré-cognitivos, que são a base da força da organização PreCrime, na qual trabalha Tom Cruise. Os mutantes vivem em estado de sonolência, interrompidos por visões de crimes que estão para acontecer. Essas visões permitem que um computador indique o nome da vítima e do criminoso. O trio de precogs é liderado por Agatha, em grande interpretação da inglesa Samantha Morton, atriz que Woody Allen importou para o cinema americano em 1999 para co-protagonizar com Sean Penn o filme Poucas e Boas (ela foi indicada para o Oscar de coadjuvante). Assim que as identidades de vítima/criminoso são reveladas, cabe a um time liderado por John Anderton investigar. Spielberg refutou a idéia de computadores manipulados por teclados, mouses ou pelo reconhecimento de voz. O uso do interface é feito com uma luva preta que cobre apenas três dedos e cujos gestos de seu manipulador lembra os de um maestro conduzindo uma orquestra. A PreCrime é uma organização de sucesso comandada por Lamar Burgess (ótima atuação do ator sueco Max Von Sidow, que poderá levar seu primeiro Oscar), que também vem a ser sogro de Anderton. Apesar de ainda estarem casados, Anderton e a mulher (Kathryn Morris) vivem separados desde o desaparecimento do filho deles. Anderton cuidava do filho quando o garoto foi seqüestrado. Desde então, o investigador sucumbe às drogas e mergulha ainda mais no trabalho. Por conta do sucesso inicial da PreCrime, o governo americano está próximo de tornar a agência legal. Cabe ao agente do FBI Danny Witwer (o ator-sensação Colin Farrell, batizado como o novo Russell Crowe da Irlanda) a tarefa de investigar a PreCrime e encontrar falhas. É ele também quem julga a questão metafísica de Philip K. Dick: ao mesmo tempo em que os criminosos são culpados pelos crimes a serem praticados, também poderiam reclamar que são inocentes por ainda não os terem concretizados. É durante a investigação de Witwer, que Agatha tem a visão de um assassinato a ser praticado por Anderton. Começa uma perseguição entre o agente do FBI e o investigador da PreCrime. Uma das melhores seqüências no trânsito caótico, com Cruise pulando de carros que se movimentam na perpendicular de edifícios, como no jogo do CD-ROM SimCity. Outra incrível seqüência é a de pequenos leitores óticos de vida própria e batizados de "aranhas" que perseguem Cruise. No ano de 2054, caixas de cereais têm personagens que se deslocam de seu layout e cantam, lojas da GAP com sensores que apontam a última vez que alguém comprou uma peça de roupa e o tamanho, carros auto-suficientes e jornais como o USA Today, que atualizam a notícia com novos desdobramentos e alertas. Spielberg, porém, paga um preço por essas inovações, criando em determinados momentos um festival de merchandising desnecessário. Para criar uma visão futurística, Spielberg reuniu num hotel de Santa Monica, perto de Los Angeles, 28 cientistas e autores que o ajudaram a fazer um brainstorm por três dias. A maioria dessas idéias, que resultaram num total de 477 efeitos especiais (o maior número de truques usados por Spielberg desde Contatos Imediatos do Terceiro Grau), foram aproveitadas pelo cineasta. "Uma das idéias dessa turma que muito me agradou foi a do futuro do transporte público", disse Spielberg em entrevista à revista Wired. "Certamente, com um país dependente do petróleo árabe, estamos desesperados por novas alternativas de energia." Mais uma vez, Spielberg estará limitando sua participação na promoção publicitária de um novo filme. O trabalho de divulgação, que começa esta semana, caberá somente aos atores. É que o cineasta começou a edição de seu novo filme, o policial Catch me if You Can, estrelado por Leonardo DiCaprio e Tom Cruise. Somente em 2003 saberemos qual surpresa Spielberg nos reserva. Até lá, seu longo e original flerte com o futuro será coisa do passado: Catch me if You Can se passa em 1960.

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