SP vê Truffaut simples e direto

Há um momento de O Homem Que Amava as Mulheres que define o filme. Bertrand, o personagem principal, interpretado por Charles Denner, diz que não existe som mais harmonioso no mundo do que o ruído causado por uma meiaroçando na outra. Desde que, é lógico, estejam vestindo um vistoso par de pernas femininas. O movimento é tudo. As pernas, os quadris, mas também o movimento dos cabelos, os seios que seinsinuam sob a blusa. Tudo excita a imaginação (e os sentidos) de Bertrand.Ele é um personagem, mas é, também, o próprio Truffaut, que se apaixonava, sistematicamente, pelas atrizes dos seus filmes. E que atrizes: Catherine Deneuve, Françoise Dorléac, Fanny Ardant, Claude Jade, Jacqueline Bisset. Era umconquistador? Claro, um homme à femmes, perdidamente assumido.Mas nunca um dom-juan vulgar, um mulherengo contábil. Truffaut - e Bertrand - nunca teriam a seu serviço um Leporello, o famoso criado da ópera Don Giovanni, que registrava as conquistas do amo. Don Juan usava a conquista à maneira militar. Por isso, podia falar que "desonrava" as mulheres que levava para acama. Truffaut e seu personagem são outro tipo de gente. Perdem-se no universo feminino. Deixam-se levar porque amam realmente as mulheres, como diz textualmente o título.Bertrand consagra sua vida a isso, pretende escrever um livro sobre o assunto e seu destino será marcado pela preferência. É, não um conquistador, mas um tipo ideal de macho, gentil, fervoroso, que deseja conhecer a parceira, e não apenas no sentido bíblico do termo. Se é voraz, nem por isso é indelicado. E todas essas características estão presentes no estilo de filmar empregado por Truffaut. Simples, direto,elegante como um terno bem cortado.De certa forma, François Truffaut pautou toda a sua carreira, ou pelo menos a parte mais significativa dela, pelo problema da relação entre os sexos. Problema? Sim, porquequalquer pessoa, não totalmente embrutecida, sabe que sexo nunca é tão simples ou inócuo como tomar um cafezinho na esquina. Truffaut era mulherengo, mas levava sua parceira a sério. Tanto que, quando abandonado por Catherine Deneuve, foi parar no hospital. Literalmente, adoeceu de amor. Bertrand é esse personagem emblemático da obra. Leva seu desejo até o limite. E morre por ele.

Agencia Estado,

20 de setembro de 2001 | 17h58

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