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Sophia Loren revela detalhes de biografia que chega ao Brasil

Em entrevista exclusiva ao 'Estado', atriz fala de sua infância difícil, da carreira e da relação com o País

Entrevista com

Sophia Loren

Jamil Chade, O Estado de S. Paulo

18 de outubro de 2014 | 03h00


GENEBRA - Uma caminhada. Como aquela que marcou a história do cinema pelas ruelas pobres de Nápoles no filme Two Women. Uma jovem linda, talentosa, caminhando com a cabeça erguida, peito estufado, decote semiaberto, feliz e indo em direção a um destino que parecia programado. Sophia Loren completou no mês passado 80 anos de idade. Se o rascunho do script dessa história poderia apontar para uma vida recheada de dificuldades, ela o transformou em uma história de superação e em um conto de fadas. 

Última diva do século 20 ainda viva, Sophia está lançando sua autobiografia Ontem, Hoje e Amanhã - Minha Vida Como um Conto de Fadas, que chegará ao Brasil em uma tradução publicada pela Record. Nele, conta como não teve um pai, não tinha uma casa, não tinha um sobrenome - e as tragédias da Segunda Guerra Mundial apenas se acumulavam diante de uma família que lutava para sobreviver. 

Mas sua vida começaria a mudar pouco tempo depois de as bombas silenciarem. Seu primeiro concurso, ela ganhou vestindo uma roupa que sua avó fez usando a cortina da casa. O prêmio foi um rolo de papel de parede que permitiu que a família cobrisse algumas das cicatrizes deixadas nas paredes de casa pelas bombas durante a guerra. Se durante o conflito ela chegou a ser obrigada a dormir em tubos dos esgotos de sua cidade, Pozzuoli, com menos de 18 anos era sua renda que sustentava a casa. Anos depois, tinha refeito a história de sua família. 

Dos cortiços onde começou sua vida à suíte presidencial de um dos hotéis mais caros do mundo em Genebra, ela falou ao Estado com exclusividade. Elegante, com enormes brincos de brilhantes e seus óculos inconfundíveis, a italiana não perdeu as expressões em seu rosto que a fizeram uma das atrizes mais cobiçadas pelos diretores. Num longo sofá, Sophia falou de forma pausada e mansa sobre sua vida.

Ao Brasil, todos os elogios do mundo. “Que lindo país.” Mas só um aspecto a incitou a fazer uma brincadeira: a humilhação do Brasil na Copa. “Vocês foram um desastre. Fiquei muito chateada. A Itália não foi bem. Mas 7 x 1, 7 x 1! Imagino a festa, a música que teria sido se o Brasil tivesse vencido”, lamentou. Eis os principais trechos da entrevista: 

Por que publicar uma autobiografia agora? 

Muita gente escreveu livros sobre mim. Algumas vezes, eu sabia que o livro estava sendo escrito, outras, não e era uma surpresa. Então, eu disse a mim mesma que deveria escrever algo. Como esse é um ano importante para mim, decidi que deveria dar uma declaração. Escrever, de fato, como minha vida começou e repassar ela inteira. Claro, tenho material suficiente para isso. As pessoas que conheci, as correspondências. Comecei a escrever, aos poucos, e me dizia: ‘Vamos ver o que vai acontecer. Se eu gostar, darei a alguém para publicar’. 

A senhora mantinha algum diário durante todos esses anos?

Sim. Mas, depois de 20 anos, eu estava arrumando minha casa e vi todos esses diários. Comecei a lê-los. Pensei: ‘O que é que vai acontecer com todo esse material se eu tiver um acidente de carro ou morrer?’. Aquele material era algo que pertencia apenas a mim. Nem mesmo aos meus filhos. Não porque existiam coisas que não deveriam ser lidas. Mas porque eram pessoais. Comecei a rasgar as páginas das coisas que eu não gostava. Mas, então, parei e pensei: ‘Por que estou fazendo isso? Vou queimar tudo e estará tudo terminado’. Foi isso que fiz e fiquei muito feliz. Agora, a cada ano, escrevo um diário. Mas destruo no final. 

No livro, a senhora conta como chegou a dormir em um tubo de esgoto para fugir das bombas na Segunda Guerra Mundial. Como foi sua infância?

Foi difícil como a de qualquer família normal daqueles anos. Vivemos momentos difíceis com a guerra. Infelizmente, nasci no ano que o mundo explodia. Vi todas as coisas ruins que a guerra traz consigo. Vegetamos. As escolas fecharam, pela noite não podíamos dormir. Crianças não sabem se expressar e veem coisas que não estão certas, e não conseguem dizer e entender o motivo. Foi muito ruim. 

E qual foi seu primeiro contato com o cinema?

Foi logo depois da guerra. Quando os americanos começaram a chegar, o único prazer era ir ao único cinema e ver filmes. Ver locais lindos, mulheres lindas, roupas lindas. Fomos com as nossas fantasias. Imaginando estar naqueles locais. Às vezes, em casa, eu e minha irmã imitávamos o que víamos. Agora, isso não era suficiente para mim e para minha irmã. Tivemos o destino cruel de não ter um pai. Na verdade, tínhamos. Mas ele não cuidava de nós. 

E qual era essa fantasia que a senhora carregava ao ir ao cinema naquele momento?

Meu sonho era o de ter uma família, como minha amiga do apartamento que havia do outro lado da rua. Ter um pai, ter irmãos, uma família, dinheiro suficiente para colocar um prato de comida na mesa. 

A senhora conta no livro como era, ainda muito jovem, de fato, a chefe da família. 

Sim, com 15 ou 16 anos.

A senhora tinha consciência dessa responsabilidade?

Não. Tudo aconteceu de forma natural. Para mim, era a rotina. Eu era a única a quem foi pedido que se fizesse algo. 

O primeiro momento de triunfo foi ter vencido um concurso de beleza em Nápoles. O prêmio foi equivalente a US$ 35, rolos de papel de parede e uma bilhete de trem para Roma. Quando entrou nesse trem, imaginou que seria um bilhete só de ida na sua carreira?

Não. Ser uma estrela era um motivo de gargalhada para mim. Eu não acreditava. Mas foi uma chance que tive. Estava escrito em algum lugar que, um dia, eu conseguiria atingir tudo isso. Sinceramente acredito nisso. Mas, claro, para chegar a isso, tive de trabalhar muito. O trabalho psicológico, minha pouca idade. 

A senhora aponta De Sica como responsável por tê-la formado como atriz. Por quê?

Nós nos encontramos. O primeiro encontro foi muito estranho. Depois, fui ao seu escritório, conversamos. Ele vinha da mesma cidade que eu - Nápoles -, falávamos a mesma língua. Havia um filme que ia produzir, O Ouro de Nápoles. Eles precisavam de uma garota linda, 18 ou 17 anos, de Nápoles. De Sica, então, me disse que era muito bom, já que, no filme, o nome da garota era justamente Sofia. Ali mesmo, ele me disse que me queria no filme e que, em dois dias, eu deveria estar em Nápoles para a filmagem. Quando abri a porta e deixei seu escritório, desmaiei. De Sica era o grande nome. 

E como foi essa primeira experiência?

Era tudo novo para mim. E havia muita gente na rua vendo a filmagem. Eu não era ninguém. Mas as pessoas estavam lá para ver De Sica. De repente, me vi em meu lugar, na minha cidade. De Sica costumava interpretar e ensaiar cada um dos personagens do filme. Fazia o papel de todos. Quando ele fazia o meu papel, me dei conta que ele fazia exatamente as coisas que eu fazia. Vínhamos do mesmo lugar, com as mesmas emoções, mesma ironia. Começamos a trabalhar e senti que eu era o seu instrumento. Foi uma alegria. 

Foi nesse filme que a senhora encenou provavelmente uma das caminhadas mais famosas da história do cinema. Como aconteceu aquele momento?

No começo, as pessoas que estavam ali não davam bola para mim. Mas, aos poucos, senti que aquele pequeno mundo começou a se transformar em meu amigo. Pensei que, se isso acontecia todos os dias, é porque eu tinha algo a dar àquelas pessoas ali. Comecei a brincar com as pessoas, comecei a atuar para eles. Aos poucos, você vai entendendo a psicologia do que as pessoas querem. Claro, precisa sempre estar em alerta. Mas eu não era estúpida. 

A dupla que a senhora formou com Marcello Mastroianni também marcou época no cinema. 

Ah, foi química. Desde o primeiro momento que fizemos um filme juntos, a comédia Too Bad she is Bad, gostaram de nós. Foi um grande sucesso. Os novos pedidos vieram, muitas vezes com De Sica, e começamos a fazer filmes dramáticos. Um dos melhores que fizemos foi A Special Day. 

No filme Two Women, a senhora interpretou uma mãe sozinha com sua filha na guerra. Até que ponto estava interpretando a sua própria mãe?

Não é que interpretei a minha mãe. Era um personagem de uma mãe na guerra. Portanto, representava minha mãe para mim e o que ela teria feito em meu lugar se estivesse lá. Era uma questão de trabalhar com a fantasia. 

Com esse filme, a senhora foi nomeada ao Oscar. Mas nem viajou até os EUA para acompanhar a cerimônia. Por quê? 

Nunca um filme estrangeiro havia sido convidado. Quando fui escolhida entre as cinco, senti que era um grande passo. Era muito estranho que tivessem nomeado um filme em italiano. Claro, as atrizes sempre dizem que, quando estão entre as cinco, que já estão felizes. Mentira. Quando você está entre as cinco, você quer ganhar. Mas eu não acreditava e não queria me expor a algo que perderia. De todas as formas, eu pensei que, se ganhasse, eu iria desmaiar. E isso não seria legal no palco. Melhor desmaiar em casa. 

Depois de atuar nos EUA, acredita que teve de voltar para a Itália e produzir filmes em sua língua, para ser reconhecida e concorrer a um Oscar?

Não. Fui eu quem mudei as regras nos EUA. 

No Brasil, a senhora está associada ao fato de ter anunciado o Oscar para Roberto Benigni, no momento em que o País acreditava que poderia ganhar o prêmio com Walter Salles. 

Ah, verdade? Não sabia. 

Houve alguma influência da arte brasileira em sua carreira?

Sim, a música. Sem dúvida. Eu ia à loucura com a música brasileira, bossa nova, Tom Jobim, e com os filmes como Orfeu Negro. Além disso, eu ia filmar Tieta, de Jorge Amado. 

Por que não aconteceu?

Porque fui para a prisão. Estava tudo pronto. Lina Wertmüller seria a diretora. Seria filmado no Brasil. Está até hoje engasgado na minha garganta. 

Como foi a prisão?

Disseram que não paguei impostos sobre um filme que eu fiz. Há três anos, venci o caso. Ou seja, fui à prisão para nada. Mas foi uma experiência.

A senhora faz parte da história da beleza, que ganha novos contornos em cada época. O que é, para a senhora, a beleza?

Qualquer um pode ser lindo. Mesmo se a pessoa não é perfeita. Mas teu olhar precisa mostrar que você é feliz, positivo e que pode ter uma vida boa.

SOPHIA LOREN - ONTEM, HOJE E AMANHÃ

Autora: Sophia Loren

Tradução: Eliana Aguiar

Editora: Record (336 págs., R$ 48)

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