Sophia Loren completa 80 anos

Sophia Loren completa 80 anos

Atriz é um dos ícones do cinema italiano

Luiz Carlos Merten, O Estado de S. Paulo

20 Setembro 2014 | 07h00

Ninguém se esquece de Sophia Loren naquela festa do Oscar. Central do Brasil, de Walter Salles, concorria ao Oscar de filme estrangeiro, mas quem levou a estatueta foi Roberto Benigni, por A Vida É Bela. Sophia foi quem anunciou o prêmio. Já tinha 65 anos, mas os seios, de tão rijos no decote generoso, pareciam Exocets prontos para disparar. Nocautearam o concorrente brasileiro. Grande Sophia. Ela comemora, neste sábado, 80 anos.

Como todo mundo, Sophia pode ter tido seus momentos difíceis e até infelizes, mas se há uma história com final feliz é a da garota italiana que nasceu em Roma, em 20 de setembro de 1934. Filha de mãe solteira, Sophia Scicolone era de uma família tão pobre que tinha de escolher entre o almoço e o jantar, naqueles dias em que havia comida para pelo menos uma das refeições. A situação não melhorou muito quando a mãe (Romina) se mudou para Pozzuoli, na periferia de Nápoles, com as filhas. Sophia tem uma irmã, Maria. A miséria continuou, mas se há coisa que nunca faltou à jovem Sophia foi beleza.

Aos 15 anos, já tinha um corpaço, de adulta. Participou de um concurso de beleza, não ganhou, mas iniciou uma carreira de pontas no cinema. Já tinha mais de 20 filmes no currículo, nenhum relevante, quando, em 1952, no set de Africa sotto i Mari, chamou a atenção do produtor Carlo Ponti. Tinha 18 anos, ele era 22 anos mais velho. Casaram-se, e Ponti fez de Sophia uma estrela. Depois de muita dificuldade, ela conseguiu engravidar e tiveram dois filhos, Carlo Jr. e Edoardo. O segundo virou diretor e fez, com a mãe, o remake de La Voce Humana, baseado na peça, um monólogo, de Jean Cocteau que Roberto Rossellini havia filmado com Anna Magnani, em 1948.


Naquela época, Sophia tinha 14 anos e nem nas suas fantasias mais delirantes devia acreditar que ia se transformar numa grande estrela. Ponti investiu nela. Melhores pápeis, melhores diretores. Não teria adiantado nada, se Sophia não tivesse o que, na época, se chamava de ‘it’. A câmera apaixonou-se por ela, como o público. Os papeis foram ficando maiores. A mídia criou a rivalidade entre Sophia e Gina Lollobrigida. A Itália ficou pequena para as duas, que prosseguiram carreira em Hollywood. Sophia saiu-se melhor. Escolheu os papeis, os diretores, ou Ponti escolheu por ela.

Em 1954, Sophia, com 20 anos, teve seu primeiro encontro com Vittorio De Sica. Um papel ainda pequeno em Milagre em Milão. Sete anos mais, ele fez dela Cesira em La Ciociara (Duas Mulheres, no Brasil). O projeto original era fazer com que Anna Magnani fosse a mãe e Sophia, a filha estuprada por soldados em fuga, na Itália devastada do fim da 2.ª Grande Guerra. Alguém - Ponti ou o próprio De Sica -, deu-se conta de que Sophia já tinha maturidade (física e emocional) para ser a mãe. Ela ganhou o prêmio de melhor atriz em Cannes e o Oscar da Academia. Fez mais cinco filmes e meio com De Sica. O episódio A Rifa, de Boccaccio 70, O Condenado de Altona, Ontem Hoje e Amanhã, Matrimônio à Italiana, Girassóis da Rússia e Viagem Proibida. 

Três deles esculpiram a dupla com Marcello Mastroianni, tão perfeita que pareciam ter nascido um para o outro - na tela, pelo menos. Em Hollywood, entre outros grandes, ela filmou com Henry Hathaway (e John Wayne, A Lenda dos Desaparecidos), George Cukor (Jogadora Infernal), Anthony Mann (El Cid e A Queda do Império Romano) e até o mito Charles Chaplin (A Condessa de Hong Kong). Mesmo transformada em estrela internacional, nunca perdeu as raízes italianas e seguiu filmando com Ettore Scola e Dino Risi. Nos filmes de ambos, Um Dia Muito Especial e A Mulher do Padre, formou de novo dupla com Mastroianni.

Você é livre para organizar sua lista dos melhores filmes de Sophia. Dois ou três terão de ser de De Sica (Duas Mulheres e Matrimônio às Italiana, talvez Girassóis da Rússia, mas o próprio Ontem, Hoje e Amanhã inspirou Robert Altman a colocar Sophias e Mastroianni em seu Prêt-à-Porter). Os dois de Mann são imprescindíveis, como também os filmes de Scola e Cukor. Agora pense. Que outra atriz pode fazer com igual convicção Ximena, a mulher do Cid, a napolitana Filomena Marturano e a oprimida esposa do fascista de Scola? Sophia sempre foi muito boa interpretando mulheres sofisticadas, de classe, mas sempre foi melhor ainda interpretando mulheres do povo. Nunca deve ter sido complicado para ela vestir uma roupa surrada, um velho chileno e reviver sua experiência de pobre em Nápoles.

Em Cannes, em maio, já com 79 anos, ela ainda estava inteira, e bela. Mas em A Voz Humana ela assume a idade. As marcas nas mãos, as rugas no pescoço não negam a idade (e servem à personagem). Para o filho, a sexy Sophia assumiu-se como mamma. Mas isso não chega a ser novidade. O fato de ter sido sexy, objeto de desejo de sucessivas gerações, nunca a inibiu de exercer seu ofício com total integridade e dedicação. Mitos à parte, Sophia foi, continua sendo, uma mulher. Seus melhores papeis na tela revelam essa humanidade. Nós, seu público, lhe agradecemos.

Mais conteúdo sobre:
Sophia Loren cinema italiano

Encontrou algum erro? Entre em contato

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.