Sony lança Loucuras de Dick e Jane em duas versões

Foram anos gloriosos para Jane Fonda, os da década de 1970 A filha de Henry Fonda firmara-se como mito sexual na França,especialmente graças a Barbarella, de Roger Vadim, com quemfoi casada. De volta aos EUA, virou militante contra a Guerra doVietnã. Em 1971, ganhou seu primeiro Oscar, por Klute, oPassado Condena, de Alan J. Pakulça, no qual criou a prostitutaBree Daniels. Sete anos mais tarde, veio o segundo prêmio daAcademia de Hollywood, por Amargo Regresso, no qual Hal Ashbydiscutia a reintegração dos combatentes no Sudeste Asiático àsociedade americana, após a desmobilização. O filme está para oVietnã como Os Melhores Anos de Nossas Vidas, de William Wyler para a 2.ª Guerra Mundial. Entre os dois filmes que lhe deram o Oscar, Janeconsolidou a imagem de contestadora em filmes como AdivinheQuem Vem para Roubar, de Ted Kotcheff, que agora sai em DVD,pela Sony. A mesma distribuidora lança, simultaneamente, oremake de Dean Parisot, As Loucuras de Dick e Jane, com TeaLeoni e Jim Carrey nos papéis de Jane e George Segal. Só umparêntese - George Segal era tão bom. Por volta de 1970, marcoupresença em filmes como o genial O Amor É Tudo (Loving), deIrvin Kershner, que também sumiu na noite dos tempos, emborafosse muito melhor do que outras obras supervalorizadas ouinjustamente consagradas. Eram os anos em que os reacionários colaram em Jane aetiqueta de Jane Hanói. Ela seria traidora da pátria, desde que,em Paris, desembarcou de um vôo do Vietnã portando o chapéu devietcongue e denunciando o uso do napalm pelas forças americanas Jane, mais tarde, no período em que esteve casada com TedTurner, pediu desculpas aos veteranos e iniciou uma impossívelbatalha contra o tempo, divulgando todo tipo de ginástica paraque mulheres de sua geração continuassem esculpindo um corpinhode 20 anos. A imagem de Jane mudou - a imagem que ela fezquestão de cultivar, num e noutro momento. A contestadora e aBarbie, que Jane tentou ser, por amor a Turner, comenta-se. Em 1976, ano de Adivinhe Quem Vem para Roubar, elaainda era a revolucionária que filmou Tout Va Bien, com Jean-LucGodard, provocando o ódio dos sindicatos de operários da França,que consideraram os dois, o diretor e a estrela, irresponsáveispela crítica que faziam ao novo modelo de sindicalismo, o deresultado, mais voltado ao consumismo do que à consciência declasse. Jane, a contestadora, levou o próprio nome à personagemque interpreta na comédia de Kotcheff - quando o marido (Segal)é demitido, o casal tem certeza de que tudo vai se arranjar.Afinal, os EUA são o país do sonho. Só que ele não arranjaemprego e a mulher é do tipo que não sabe fazer nada além degastar. Graças a um pequeno incidente, ambos descobrem quepoderão resolver o problema das finanças. Afinal, quem roubaladrão - os bancos - tem perdão, não? Essa idéia também estava no ótimo Ladrão Que Rouba Ladrão, deRichard Brooks, com Warren Beatty, de 1972, avalizada, agora,por Jane Hanói e a suprema ironia do filme é que Jane e Dick, opersonagem de George Segal, descobrem que roubar dá um trabalhodanado. O remake segue basicamente a mesma história e temmomentos ótimos, embora tropece na necessidade de serpoliticamente correto. Jane e Dick roubavam para ajudar ospobres, isto é, eles, na comédia antiga. Na nova versão, bancamRobin Hoods, promovendo a justiça social. A virulência ficadiluída. A Jane antiga era melhor, o que vale também para aFonda.

Agencia Estado,

03 de agosto de 2006 | 10h12

Encontrou algum erro? Entre em contato

Tendências:

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.