"Sonhos Tropicais" é painel sobre o Brasil

Wong Kar-wai constrói seus filmes na montagem. Os maiores, Felizes Juntos e Amor à Flor da Pele, na verdade foram desconstruídos na edição. O diretor de Hong Kong cria roteiros detalhados, filma muito e depois se tranca na sala de montagem para cortar. Deixa só a ossatura dos filmes, construindo, na sala de montagem, as admiráveis elipses que fazem a glória do seu estilo. André Sturm não é Kar-wai, mas também construiu seu longa de estréia na direção, Sonhos Tropicais, na montagem.O filme está bonito, ele diz com cautela, mas sem falsa modéstia. Acrescenta que o juízo de valor não é só dele nem da montadora Cristina Amaral. Veio dos dois ou três amigos que já viram o filme pronto. Quer dizer: pré-pronto. Sturm ainda não tem a versão definitiva do filme sobre a Revolta da Vacina. "O que temos é o penúltimo corte", esclarece. O compositor Paulo Moura trabalha na música, estão sendo feitos ajustes sonoros e só depois da mixagem definitiva Sonhos Tropicais estará pronto. "Poderá mudar um pouco, mas bem pouco."Por isso mesmo ele acha que o filme já deixou ver sua cara. A primeira cópia, Sturm terá no início de novembro, mas espera submeter Sonhos Tropicais à comissão de seleção do Festival de Brasília. O repórter arrisca uma pergunta: como está a Carolina Kasting? Carolina, a atriz de Terra Nostra, faz a personagem Ester, uma judia-polonesa que vem para o Brasil, no começo do século passado, atraída por uma promessa de casamento e termina prostituída. O Estado acompanhou parte da filmagem de Sonhos Tropicais. Numa cena particularmente difícil, a bela Carolina foi tão comovente que o pessoal do set não se conteve e explodiu em aplausos no fim da rodagem. "Carolina é maravilhosa", diz Sturm.Por que a referência a Kar-wai? Porque Sonhos Tropicais também foi um filme que se fez na montagem. Quando Sturm e Cristina juntaram todas as partes filmadas e limparam as impurezas chegaram a uma versão de três horas. Só aí começou a montagem. Cortaram até deixar o filme em duas horas cravadas. Abandonaram muita coisa. O próprio conceito mudou. Inicialmente, era um filme com duas grandes linhas narrativas: a história de Osvaldo Cruz e a de Ester, convergindo para a Revolta da Vacina. As duas linhas foram mantidas, os numerosos personagens secundários também, mas hoje Sturm define Sonhos Tropicais como um painel sobre o Brasil - no começo do século passado e na atualidade.No fundo, desde o início era isso mesmo que ele tinha em mente. Se queria contar a história de Osvaldo Cruz e da Revolta da Vacina não era simplesmente para recuperar um episódio do passado, mas para mostrar que o Brasil de Osvaldo Cruz, com todos os seus problemas de saneamento, desigualdades sociais (e não apenas esses), continua inalterado um século mais tarde. O ápice do filme continua sendo a Revolta da Vacina, que Sturm filmou com diversas câmeras, com o máximo de intensidade e realismo possíveis. Ele se arrisca a dizer que seu painel do Brasil tem algo de Short Cuts - Cenas da Vida, de Magnólia. Não é presunção do diretor, um estreante no longa, com talento confirmado no curta (Nem tudo Que É Sonho se Desmancha no Ar). Ele não quis fazer Short Cuts nem Magnólia, mas acha que o relato das diversas vidas cruzadas, convergindo num evento excepcional, permite uma aproximação com os filmes citados.Mal comparando, a Revolta da Vacina no filme de Sturm é como o terremoto no desfecho do de Robert Altman ou a chuva de sapos no de Paul Thomas Anderson. Sturm não poupa elogios à montadora Cristina Amaral. Mas, até por sua experiência de cinéfilo e distribuidor na Pandora, um selo comprometido com o segmento de arte, reconhece o próprio mérito. "Ela fez um trabalho magnífico de corte, mas eu também lhe dei bom material para cortar." Cristina concorda: montadora dos filmes de Carlos Reichenbach, ela diz que o que gosta mesmo de fazer é experimentar e isso conseguiu no épico intimista de Sturm, como nos de Reichenbach. Em tempo: Sturm se endividou para esse finalzinho de pós-produção. O filme vai fechar nos R$ 2 milhões de orçamento. Ele ainda pode captar cerca de R$ 350 mil. Com o filme pronto, quem sabe um prêmio em Brasília - mais um sonho tropical? -, espera conseguir investidores no fim do ano, quando as empresas, com base no cálculo do Imposto de Renda devido, decidem quanto e em quais projetos vão aplicar, por meio das leis de incentivo.

Agencia Estado,

24 de setembro de 2001 | 17h30

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