Sonho bollywoodiano de diretora do Brasil vai até as Índias

Beatriz Seigner apresenta Bollywood Dream, feito com só US$ 20 mil; defeitos do longa viram as maiores virtudes

Luiz Carlos Merten, de O Estado de S. Paulo

26 Outubro 2009 | 04h05

Debate -  A diretora Beatriz Seigner e suas atrizes: roterio construído pela experiência vivida por elas

 

 

Todos os caminhos levam à Índia. Hollywood consagrou Danny Boyle e sua incursão pelo universo bollywoodiano com Quem Quer Ser Um Milionário? Glória Perez, com raro senso de oportunidade - mas isso ela sempre teve, lembrem-se de O Clone -, cravou um grande êxito na novela das 8, justamente com O Caminho das Índias. Por que criticar a jovem Beatriz Seigner? Se ela tinha um sonho bollywoodiano, é evidente que conseguiu concretizá-lo. Bollywood Dream - O Sonho Bollywoodiano teve no sábado sua primeira sessão na 33ª Mostra. O filme terá novas exibições hoje e quarta-feira. Beatriz pode ter realizado o melhor filme feito no Ocidente sobre a Índia, por apenas US$ 20 mil.

 

 

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Foi o custo da produção, incluindo o mais difícil - a ida para o Oriente da diretora e de suas três atrizes, Paula Braun, Lorena Lobato e Nataly Cabanas. Num breve encontro com o público, após a projeção - 15 minutos de pergunta e resposta -, Beatriz contou que foi à Índia há seis anos. O país e sua cultura a fascinaram e ela encontrou um produtor (Ram Prasada Devinent) que resolveu bancar seu sonho. Três atrizes brasileiras partem para a Índia na tentativa de fazer carreira em Bollywood. É o lugar do mundo em que mais se produzem filmes, mais do que nos EUA. Elas chegam na cara e na coragem, seguindo o vago convite que um produtor indiano fez a uma integrante do grupo.

Como Beatriz contou, ela tinha um roteiro básico - que foi construído em cima das atrizes, que são suas amigas. Uma delas tem um filho. Há um background dramático, ela deixou o filho no Brasil e, pelo telefone, tem uma discussão com alguém - o pai, o ex-marido? - que a acusa de haver abandonado a criança. Havia, portanto, esse roteiro, mas o filme é resultado principalmente da improvisação e do que Beatriz e suas atrizes iam descobrindo na - e sobre a - Índia. O espectador que descobre agora a existência deste filme e fica curioso pelo resultado precisa ser avisado de que não vai encontrar nada tão profundo - nem visualmente suntuoso - quanto a aventura indiana de Sir David Lean, Passagem para a Índia. Mas Beatriz Seigner, na sua modéstia, também faz uma (pequena) passagem para a Índia.

As melhores cenas de seu filme parecem intuições. Logo de cara, quando as três garotas passam pela imigração, ainda no aeroporto, o oficial que, do País conhece somente a Aquarela do Brasil, acolhe o trio simpaticamente e até ensaia cantar a música famosa de Ari Barroso. O clima é de festa, mas ele pergunta a Paula Braun, atriz de O Cheiro do Ralo, o que ela está fazendo na Índia.Ela pede à amiga que fala inglês que traduza - diz que é atriz, está desempregada, tem um filho para criar e, no fundo, espera resolver sua vida e fazer carreira no cinema. A amiga, esperta, sabe que essas coisas não se dizem a um oficial de imigração. E ela resume o discurso numa sentença mais fácil - elas estão ali fazendo uma viagem, uma peregrinação espiritual.

O público ri, mas é exatamente o que o Beatriz e seu filme estão propondo, ou realizando. Quando uma das garotas filma um rito secular - o lançamento do deus Ganesha no rio-mar -, o indiano anônimo pergunta por que ela faz aquilo. O quê? Filmar. Para eternizar o momento, diz a garota . Mas o rito já é eterno, ele retruca. O filme é cheio desses pequenos momentos. Paula Braun diz que a filmagem foi um permanente exercício de cara de pau, forçando as pessoas - os indianos - a interagirem com a equipe. A lição de interpretação é outro momento exemplar. A atriz ensina a chorar provocando uma lágrima com a maquiagem. Mas a força e intensidade do olhar - "cinema é a melodia do olhar", dizia Nicholas Ray -, essa é outra aula, mais complicada, que fica para amanhã. O esquemático e o superficial viram degraus para algo mais profundo - o efêmero face a uma cultura milenar. Pode-se comparar Bollywood Dream com El Mariachi, que Robert Rodriguez fez com menos dinheiro ainda (US$ 7 mil). Gostar ou não gostar é o de menos. As pequenas observações nas entrelinhas são o forte.

Serviço

O Sonho Bollywoodiano (Brasil-Índia-EUA, 85 min.)

Cinema da Vila - Hoje,15h4026/10

Unibanco Arteplex 5 - 4.ª feira, 14h30

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