"Somos todos ladrões de Hitchcock", diz Wim Wenders

Wim Wenders estava de excelente humor no sábado, último dia do Festival de Cannes, em maio. À noite, seriam entregues os prêmios. Era de manhã, Wenders estava no jardim do Hotel Residéale, protegido do sol. Seu filme Some Come Knocking havia sido exibido na quinta-feira à noite, com muitos aplausos do público e ótimas críticas. O que mais se ouvia era - Wenders renasceu. Ele poderia até aspirar, quem sabe a uma nova Palma de Ouro, como a que recebeu, em 1984, por Paris, Texas. AP/Wim Wenders, o diretorA Agência Estado perguntou-lhe se já havia recebido a convocação para a noite. Ele disse que não. Jurou que não estava preocupado. Tomara que não estivesse. No final, a convocação não veio. Wenders ficou fora da lista de premiados pelo júri presidido por Emir Kusturica. Com o título de Estrela Solitária, Some Come Knocking terá neste sábado sua última exibição na 29.ª Mostra BR de Cinema mas, se você não puder vê-lo, não se aflija. O filme tem distribuição garantida no Brasil. Marca nova colaboração de Wenders com o dramaturgo Sam Shepard. Os dois foram parceiros em Paris, Texas. Enquanto Wenders dava a entrevista, Shepard circulava pelo jardim, com chapéu de caubói. "Hei, partner", diziam-se a todo momento. Wenders admitiu que há tempos queria voltar ao trabalho com Shepard. "Foi um filme que nasceu do personagem. Criamos uma vida para ele, sem nos preocuparmos, necessariamente, com a história. Só mais tarde, quando o personagem já estava bem sólido para a gente, formatamos a história, a partir da qual foi criado o roteiro." O personagem antes da história. Howard Spence, um astro de cinema, um caubói decadente que foge do set da nova produção de que participa. Aonde vai um homem em fuga? "Ao encontro da mãe, em busca do refúgio que só o ventre materno pode proporcionar." No caso, a mãe é interpretada por Eva Marie Saint e o caubói, pelo próprio Shepard. "Queria que ele interpretasse o papel de Travis em Paris, Texas, mas Sam não aceitou. Dizia que não estava preparado e foi melhor assim, porque Harry Dean Stanton fez um trabalho extraordinário. Desta vez, a proposta partiu dele. Sam me disse que queria ser esse homem solitário, individualista, perdido na vida. Adorei a idéia e, a partir daí, só me faltava convencê-lo de que a garçonete teria de ser Jessica Lange." No período em que foram casados, Jessica e Shepard se recusavam a participar de projetos conjuntos, sob a alegação de que um tinha sempre de ficar cuidando dos filhos. "São amigos, as crianças cresceram, não necessitam mais deles em tempo integral. Jessica aceitou, Sam também". Definido o par principal Wenders ainda não resolvera o grande problema que o afligiu na fase anterior à filmagem. "Sam não tem celular nem pager, não responde a e-mail. Sumia por vários dias, mas voltava sempre com ótimas idéias. O personagem ficava cada vez mais próximo dele." Wenders queria filmar em Monument Valley, onde John Ford fez seus westerns. Decepcionou-se ao pisar naquele solo sagrado do cinema. "A publicidade e o próprio cinema desgastaram Monument Valley no imaginário do público", lamenta. Seu cenário ideal, ele o encontrou no deserto do Mohab, em Utah. Criou uma cena deslumbrante. O carro de Shepard avança e a câmera realiza um duplo movimento de zoom e tele - aproxima o fundo, as montanhas, e afasta o primeiro plano, produzindo uma espécie de achatamento. O repórter observa que Arthur Penn e Claude Chabrol usaram esse mesmo efeito, quase simultaneamente, nos desfechos de Deixem-Nos Viver (Alice´s Restaurant) e Uma Mulher Infiel. "E os dois roubaram de Alfred Hitchcock, que fez isso pela primeira vez na cena da escada, em Um Corpo Que Cai. Somos todos ladrões de Hitchcock, que era um gênio", afirma Wenders. É um filme de estrada, como tantos que ele fez, só que melhor. De alguma forma, Shepard e Wenders invertem Paris, Texas para voltar a falar de família. No filme mais antigo, Travis partia com o filho em busca da ex-mulher. Agora, a ex-mulher, a garçonete, ajuda Spence a se aproximar do filho que cresceu revoltado, longe do pai. "Estamos condenados a viver em família" diz Wenders, mas ele deixa claro que não precisa, ou melhor, não deve ser a família reacionária que o presidente George W. Bush cultiva para dominar os corações e mentes da América profunda. Estrela Solitária. Sábado, às 19h20, no Espaço Unibanco 1.

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