"Solaris" de Soderbergh discute cinema e ilusão

Há 31 anos, o mundo ainda vivia sob a polarização das duas superpotências, Estados Unidos e União Soviética. Em 1968, Stanley Kubrick obteve extraordinário sucesso de público e crítica com o filosófico 2001 - Uma Odisséia no Espaço. Quatro anos mais tarde, surgiu o que na época foi definido como a resposta soviética a 2001 - a ficção científica que Andrei Tarkovski, o diretor que queria esculpir o tempo, retirou do livro de Stanislaw Lem, Solaris, publicado em 1961. Solaris foi chamado de "2001 do marxismo". Eis que agora Steven Soderbergh ousa fazer uma nova versão do livro de Lem, não exatamente do filme de Tarkovski. Ambos fazem leituras diferentes da obra literária. Antes que você saia tiroteando, dizendo que Hollywood só estraga os bons filmes - e é quase sempre verdade -, é bom esclarecer que Cahiers du Cinéma, uma das Bíblias, ou "a" Bíblia dos cinéfilos de todo o mundo, adorou o filme de Soderbergh.Em 1989, Wim Wenders, presidente do júri no Festival de Cannes, disse que havia visto o futuro do cinema e outorgou, com seus colegas jurados, a Palma de Ouro a sexo, mentiras e videotape, o segundo filme do jovem (26 anos, na época) Soderbergh. O cineasta está chegando aos 40 anos e já apresenta uma filmografia alentada. Fez 14 filmes em 14 anos, mas desconcerta os críticos que não sabem direito se Soderbergh é um autor ou, simplesmente, um diretor.Em fevereiro, no Festival de Berlim - onde Solaris integrou a competição, sem nada levar -, ele confessou que não tem maior interesse pela ficção científica. "O hardware desse gênero de filme não me interessa", disse. Acrescentou que não está preocupado em saber como será a tecnologia daqui a algumas décadas. Mas, então, o que foi que lhe interessou na história do psicólogo que é chamado para investigar o comportamento dos cientistas a bordo de uma nave, a Prometheus, que cortou toda a relação com a Terra?Pois Soderbergh não apenas assumiu o projeto como ainda o transformou no mais autoral de seus filmes. É diretor, roteirista, fotógrafo e montador. Um tão grande comprometimento pessoal tem de ter justificativa. Não foi só por amizade ao astro George Clooney, seu parceiro em Amor à Primeira Vista e Onze Homens e Um Segredo, nem pelos elogios que lhe fez o produtor James Cameron, dizendo que ninguém mais poderia fazer esse filme. Antes de dizer o que Soderbergh, vencedor do Oscar de direção por Traffic, fez, talvez seja interessante lembrar o que Tarkovski havia feito antes dele.O Solaris antigo era um filme sombrio, sobre um universo fechado, por meio do qual o diretor metaforizava a vida sob uma ditadura. E, claro, o oceano responsável pela materialização dos pensamentos dos cosmonautas trazia de volta aquela natureza sagrada que o homem moderno perdeu, o que permitia ao diretor manter-se fiel às raízes místicas do povo russo, indo contra o materialismo comunista. Soderbergh não se interessa pela técnica nem pelo sagrado. Talvez tenha refeito, em Solaris, o cult romântico Em Algum Lugar do Passado. O planeta Solaris, onde está estacionada a nave Prometheus, possui aquele oceano que é capaz de realizar desejos. Assim, o psicólogo atormentado pela morte da mulher, termina por reencontrá-la e não adianta fugir, achando que é uma alucinação ou o quê. Ela volta e lhe oferece a possibilidade de uma segunda chance para ambos.É o mais americano dos temas, com o retorno ao lar, naquela linha que vai de ...E o Vento Levou e O Mágico de Oz a E.T. - O Extraterrestre e Apollo 13. O que fazer com a segunda chance, como vivenciá-la para que as coisas dêem certo? Cahiers acha que Soderbergh fez um filme que bate na tela como fogo de artifício, para discutir a possibilidade de se viver com uma ilusão.Nesse sentido, talvez se possa ver Solaris, a nova versão, como metáfora do próprio cinema. É irrelevante saber, já que se trata de filmes, quem foi mais fiel a Lem, se Tarkovski ou Soderbergh. Talvez nenhum dos dois, já que os temas de Lem, a inevitabilidade da memória e a impossibilidade de as pessoas superarem seus traumas, não estão em nenhuma versão.De volta à pergunta que foi feita antes, o que atraiu Soderbergh foi a possibilidade que ele percebeu de voltar ao tema de sexo, mentiras e videotape para dar o que não deixa de ser a marcha à ré no outro filme. Em sexo, mentiras e videotape, o personagem de James Spader só encontra prazer filmando as confissões sexuais das mulheres. Precisa encontrar a mulher certa e abandonar o vídeo, deixando de viver de ilusão, para assumir a verdadeira vida. Aqui, para reencontrar a mulher, o herói precisa fazer o caminho inverso, deixando de viver a miséria de sua solidão culpada para reencontrar o amor na ilusão. Soderbergh tinha isso muito claro ao embarcar no projeto. "Só aceitei porque me permitiram escrever o roteiro sem ter de fazer concessões." É o oposto do que a maioria da crítica pensa: que ele, hollywoodianamente, banalizou a obra de Tarkovski. Pode até ter banalizado, mas o que tinha, como autor, era uma idéia diferente na cabeça. "Expliquei desde o início (aos produtores) que a minha versão seria diferente do livro e da de Tarkovski." Resta saber agora se sua concepção autoral terá respaldo no público.Solaris (Solaris). Drama. Direção de Steven Soderbergh. EUA/2002. Dur. 99 min.

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