Solanas quer filmar com Cecília Roth

Apenas uma hora. Foi o tempo necessário para o preenchimento das 80 vagas para o workshop de realização cinematográfica ministrado por Fernando Solanas no Hotel Nacional, como parte da programação paralela do 33.º Festival do Cinema Brasileiro. A ênfase da mídia, nas coberturas de festivais, está sempre na mostra competitiva, o que se explica e até justifica. Mas é preciso prestar atenção também nos eventos paralelos. Como o workshop de Solanas.Ele encontra a reportagem numa brecha de sua agenda esprimida. Acaba de almoçar. Fala sobre o workshop, claro, mas também e principalmente sobre o novo filme que vai realizar, baseado no livro Afrodite, de Isabel Allende. É um nome importante do cinema latino-americano, mesmo que seus últimos filmes, El Viaje e La Nube, tenham sido decepcionantes. As alegorias do primeiro são insuportáveis e apagam da lembrança um ou outro momento mais inspirado. A plasticidade do segundo não apaga o sentimento de ranço político e ideológico que acompanha a trupe de artistas de teatro numa Argentina fantasmagórica. Em princípio, você poderia até pensar - é o próprio Solanas que precisa inscrever-se num workshop de realização cinematográfica, para reaprender. Não é o que pensam os estudantes de Brasília, mas também aqueles que vieram de outras partes do País para acompanhar de perto o 33.º Festival do Cinema Brasileiro.Solanas explica que é um curso teórico. Seria impossível realizar um curso prático, em apenas três dias, com 80 alunos. Já o tipo de discurso teórico que ele faz, misturando reflexões e experiências, pode ser levado a 80 ou mais inscritos. Não faria diferença se fossem 100 ou 150, ele explica. Seu objetivo é alertar os estudantes de cinema para a complexidade do processo criativo. Criar no cinema, escrever um roteiro e depois dirigi-lo, não é uma linha reta levando ao sucesso, preferencialmente, ou, quem sabe, ao fracasso. É uma linha em ziguezague, cheia de dúvidas, em que o aprendizado é constante e as incertezas andam juntas com aquilo que se sabe.Ele está em pleno processo criativo de Afrodite. Não foi um projeto pessoal. Surgiu de uma encomenda que lhe fez um amigo, o produtor espanhol Luis Angel Ballaba, do filme Tango, de Carlos Saura. Solanas topou porque admira muito a escritora. Tem prazer em ler os textos de Isabel. Acha que não é uma autora de best sellers como as outras. O fundo de seu trabalho está sempre ligado à dolorosa experiência da ditadura chilena. Depois de diversos filmes intensamente pessoais, e políticos, o diretor não apenas aceita uma obra de encomenda como faz a adaptação de um livro de receitas, entremeado de reflexões.Sua primeira e maior dificuldade foi criar uma história. Ele estabeleceu sua ficção em torno da própria Isabel. Afrodite vai contar a história de uma intelectual latino-americana confrontada com uma ditadura, a perda de uma filha. O roteiro incorpora as receitas e nem poderia ser de outra maneira, mas unindo tudo Solanas teceu uma história de amor. Não será um filme muito barato, algo em torno de US$ 4 milhões a US$ 5 milhões. Terá filmagens na Espanha e na Suíça, mais exatamente em Genebra. Será uma co-produção entre Espanha, França, Itália, Alemanha e Argentina. Solanas explica o custo por causa do elenco.Cecília Roth, a atriz argentina que Pedro Almodóvar consagrou com o belíssimo papel de Tudo sobre Minha Mãe, será a protagonista. Ela já deu o sim, mas ainda falta assinar o contrato e estabelecer as datas de rodagem. Solanas espera filmar lá por maio ou junho do ano que vem. Diz que Cecília já era uma grande atriz antes de Almodóvar. Cita Em Algum Lugar do Mundo, que ela fez com o diretor argentino Adolfo Aristarain e foi premiado em San Sebastian, há oito ou nove anos. O roteiro prevê a participação de um casal de atores franceses, que ainda não foi escolhido, e um intérprete de língua inglesa, que Solanas gostaria que fosse Jeremy Irons. O ator gostou do projeto, está interessado, mas ainda não acertou nada. Só para lembrar - Irons trabalhou em outra adaptação de Isabel Allende para o cinema. Foi um dos protagonistas de A Casa dos Espíritos, de Bille August, que não era exatamente um bom filme, apesar das qualidades de narrador do cineasta dinamarquês.Embora dê a entrevista por concluída - ainda tem alguns telefonemas para dar, antes de retomar a aula da tarde, Solanas não se furta a uma última observação sobre o cinema argentino atual. A previsão é de que a produção argentina feche este ano fazendo 20% do total de espectadores do país, um dado muito bom. Mas esse boom da produção e do público não beneficia diretores como o próprio Solanas. Os filmes que fazem mais sucesso são produções descartáveis da TV, com astros televisivos locais. Ele considera um grande escândalo que a televisão argentina, mesmo colocando um pouco de dinheiro nos projetos, se beneficie da ajuda oficial e depois utilize a máquina publicitária das redes para faturar, aumentando seus lucros. Você já viu esse filme. Não é muito diferente do que a Globo já está fazendo no Brasil.

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