Solanas critica leis de incentivo no Brasil

O argentino Fernando Solanas, diretor de A Nuvem, esteve nas duas últimas semanas em São Paulo, onde ministrou um workshop de quatro dias intitulado Iniciação à Direção Cinematográfica, dentro da programação da 2.ª Semana do Cinema Brasil & Independentes. Em entrevista, ele criticou duramente as leis de incentivo à cultura brasileira que considera mal formuladas e capazes de provocar distorções que, a longo prazo, acabarão por afastar os empresários. Solanas, que é casado com a brasileira Ângela Correa e costuma passar temporadas no Brasil, comparou o atual estágio das indústrias cinematográficas argentina e brasileira, que lutam para sobreviver em meio ao gigantismo do cinema americano. "Alguns problemas do cinema no Brasil e na Argentina são muito semelhantes", avalia.A maior crítica de Solanas é em relação à falta de mais critérios no momento de selecionar cineastas e projetos que receberão autorização para captar recursos dentro das leis de incentivo à cultura. "É preciso ser mais exigente ao analisar o currículo de quem pretende captar recursos." Ele se refere a casos como Chatô, o Rei do Brasil, de Guilherme Fontes, ou Sau Paulu, de Eduardo Toledo de Barros, um ex-corretor que trabalhava com captação de recursos e conseguiu obter autorização da Secretaria do Audiovisual para levantar dinheiro para dirigir o próprio filme.Em 1998, graças a seus bons contatos com empresários, não teve dificuldade em levantar os R$ 500 mil que dizia precisar, mas estourou o prazo e, no fim daquele ano, foi morar nos EUA, onde afirma trabalhar como produtor executivo de filmes, deixando Sau Paulu inacabado. "Como podem entregar uma fortuna a uma pessoa que não tem nenhum antecedente como diretor de filmes?", pergunta ele.Outro problema grave, segundo Solanas, é a falta de condições para avaliar o custo real dos filmes. "Do jeito que está, qualquer um pode dizer que o filme vai custar R$ 4 milhões quando na verdade custaria apenas R$ 2 milhões, pois há várias maneiras de aumentar artificialmente o custo de uma produção", afirma. "Além disso, o diretor não precisará nem exibir o filme, podendo deixá-lo numa prateleira, e nem vai ser cobrado por isso." Para o cineasta argentino, a Lei do Audiovisual é muito boa para atrair empresários, mas está caindo em descrédito por não possuir um organismo de fiscalização, capaz de acompanhar de perto os gastos dos produtores. Para ele, a lei falha também em não estimular a exibição. "Não há preocupação em fazer com que o filme seja exibido e dê lucros."Modelo europeu - Ele compara o Brasil com a forma de captação argentina e européia. "Os brasileiros deveriam estudar o modelo europeu, usado na Argentina, onde o próprio gigantismo do cinema americano é usado para impulsionar a indústria cinematográfica local. "Dez por cento de cada ingresso vendido na Argentina vai para o Instituto Nacional de Cinema, que usa o dinheiro para financiar filmes", explica. É o processo usado na Itália, França e Espanha. "Só no Brasil existe essa loucura que é usar dinheiro de impostos para bancar produções cinematográficas, sem vigiar para que não se infle artificialmente o custo dos filmes."O processo de seleção dos projetos na Argentina é semelhante ao brasileiro. Uma comissão de cinco nomes ligados à indústria cinematográfica, que se renova a cada seis meses, escolhe os projetos mais viáveis. "Procura-se levar em conta o currículo dos interessados, o que realizaram antes e sua capacidade em levar adiante o projeto." Segundo Solanas, o normal é que os filmes recebam em torno de US$ 500 mil. "E o Instituto promove concursos, bancando integralmente o orçamento dos filmes vencedores."Mudanças na pauta - A legislação que rege o cinema argentino está em via de sofrer mudanças. "Queremos que as salas de exibição sejam obrigadas a reservar algumas semanas por ano à exibição de filmes argentinos e também que a televisão exiba uma cota de filmes nacionais por ano." São duas propostas que também vivem na pauta dos cineastas brasileiros.No caso da exibição de filmes na TV, o argentino afirma que ela é fundamental para a formação de público. "Na Espanha, todas as emissoras de TV são obrigadas a exibir uma porcentagem de filmes espanhóis e ainda precisam destinar 5% de seu lucro para um fundo destinado ao financiamento de produções espanholas", afirma. Não é à toa que o cinema espanhol é tão bem aceito por seu público. O mesmo ocorre na França. "As televisões francesas são obrigadas a destinar 10% do lucro para a produção de filmes."A questão da participação das emissoras de TV deixa Solanas ainda mais inflamado. "Quantos filmes brasileiros a TV exibe atualmente?", pergunta ele. Diante da resposta "quase nenhum", ele afirma que o mesmo ocorre em seu país. "Isso é um atentado e uma ofensa aos cinemas nacionais", afirma ele, conclamando os profissionais de cinema para que tentem mudar esse quadro. "Diretores e produtores brasileiros participam de vários festivais na Europa e sabem como a legislação nesses países é rígida e como ela promove o crescimento dos cinemas locais."

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