AFP PHOTO / Alberto PIZZOLI
AFP PHOTO / Alberto PIZZOLI

Sofia Coppola mobiliza Cannes com o seu sensual novo filme

'O Estranho Que Nós Amamos' traz um olhar feminino para o desejo e a violência e foi saudado por público e crítica

Luiz Carlos Merten, O Estado de S. Paulo

24 Maio 2017 | 19h23

ENVIADO ESPECIAL / CANNES - Existe, em vários foros, interesse em discutir se, afinal, existe um olhar masculino e outro feminino no cinema. Cannes pode estar dando sua contribuição ao tema. Nenhum homem filmaria Vers la Lumière/Em Direção à Luz como a japonesa Naomi Kawase. Em 1971, Don Siegel filmou, com Clint Eastwood, a história de um soldado do Norte que se refugia num pensionato de mulheres, no Sul dos EUA, durante a Guerra Civil. Chamou-se, no Brasil, O Estranho Que Nós Amamos. Sofia Coppola está mostrando na competição do 70.º Festival de Cannes a sua versão de The Beguiled. O filme chama-se Les Proies, em francês. O soldado agora é Colin Farrell e as mulheres se tornam suas presas. Ou ele é a presa delas?

Sofia ocupa-se da perturbação que o macho causa nas mulheres. Na história, há uma amputação que representa uma castração simbólica. Siegel, um diretor que veio da montagem, a filmava brutalmente, num momento em que o cinema, superado o código de censura da indústria, avançava em temas como sexo e violência. Sofia deixa esses detalhes, por importantes que sejam, fora do quadro. Portas fechadas. Há muitas no filme, representando, talvez, uma tentativa de abordagem psicanalítica, ou um pudor (feminino?) de não encher os olhos do público com uma violência que, de qualquer maneira, não dá conta do horror da realidade – o ataque do terror em Manchester. Isso não significa que The Beguiled não vá fundo na análise dos sexos.

O filme termina forte – cruel. O mesmo final de Siegel, mas filmado diferente. Filha de Francis Ford Coppola, Sofia conquistou seu espaço em Cannes. A crítica jovem a adora. No tapete vermelho, o público grita seu nome como os de Colin Farrell e Nicole Kidman, que estão no elenco, com Kirsten Dunst. Sexo, desejo, a mulher na indústria. Sobre tudo se falou na coletiva. Nicole está aqui com dois filmes (o de Sofia e A Morte do Cervo Real, de Yorgos Lanthimos), mais a segunda temporada da série de TV Top of the Lake – China Girl, de Jane Campion, única mulher, em 70 anos, a ter recebido a Palma de Ouro (por O Piano). Grande criador de personagens femininas, Pedro Almodóvar, como presidente do júri, será sensível ao cinema das mulheres? Veremos.

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