Sofia Coppola investiga a família dos anos 70

Winona Ryder era a atriz escolhida por Francis Ford Coppola para fazer a filha de Michael Corleone na terceira parte da saga do Chefão. Houve problemas que levaram Winona a recusar o papel. Coppola, premido pelo tempo - a rodagem já estava começando -, apelou para uma solução interna. Chamou sua filha, Sofia. Foi a experiência traumática da vida dela. Tinha 18 anos e nenhuma experiência como atriz. Os críticos caíram matando. Hoje ela sabe que, ao atingi-la, eles, na verdade, queriam atingir seu pai, o que não torna menos dura a experiência. Afinal, aos 18 anos, ela era pouco mais que uma adolescente, com as dúvidas e ansiedades próprias desse período da vida. Mas Sofia não desanimou. Estréia na direção com As Virgens Suicidas. O filme, já em cartaz no Rio, estréia dia 17 em São Paulo. E, desta vez, os críticos gostaram.Sofia conversa com a reportagem pelo telefone. A voz é doce, dá para perceber que é tímida. Fala sobre tudo e todos - o filme, o pai, o grande Coppola, o marido, o talentoso Spike Jonze (de Quero Ser John Malkovich). O repórter observa que os críticos americanos não tiveram sensibilidade para perceber o que havia de pungente no papel que ela representava em O Poderoso Chefão 3. A filha de Michael Corleone é sacrificada na luta pelo poder, na memorável cena da escadaria do teatro, após a encenação de La Cavalleria Rusticana. O diretor colocou a própria filha nesse papel de anjo sacrificado. Isso evoca significados profundos que os críticos não souberam perceber. Torna a experiência de ver o filme não só mais fascinante, mas também mais dolorosa."Que gentil da sua parte dizer essas coisas", Sofia observa. E acrescenta - "Deveríamos ter falado antes, quem sabe." Ela conta o que a atraiu no livro de Jeffrey Eugenides. "Começou fascinando-me pela escrita, mas o que o autor diz também é perturbador." Eugenides conta a história de cinco irmãs que se matam. São as virgens suicidas do título. Por que se matam as virgens de Eugenides e Sofia Coppola? Livro e filme não dão respostas precisas. A primeira das virgens se suicida e isso tem um efeito terrível sobre a família, sobre a comunidade. Depois, as outras quatro. No livro, como no filme, fica claro que não se matam por nenhum motivo específico e, no entanto, isso quer dizer que se matam por causa de tudo."O que me atraiu no tema foi a possibilidade de fazer uma investigação sobre a família, sobre um período específico da vida americana, os anos 70, quando o sonho começava a desmoronar", diz Sofia. O mundo, aparentemente, parece estável por trás dessas fachadas de casas bem construídas, num bairro de alta classe média. Tudo pacífico, tudo em ordem. Nada além de aparência. Na verdade, é um mundo prestes a desmoronar. É um filme sobre a família como uma instituição repressora. Pai e mãe interpretados por James Woods e Kathleen Turner, são religiosos impõem duros limites às filhas, não conseguem perceber o que se passa nos corações e mentes dessas jovens lindas.E toda a tragédia é vista por meio dos olhos dos rapazes que tentam cortejar as garotas. A história é real e foi contada por Eugenides até como forma de refletir sobre os efeitos que testemunhou. Ele foi um daqueles rapazes. Assume o papel do narrador. Livro e filme mostram o efeito que o suicídio das virgens tem na vida desses rapazes ou desse rapaz, especificamente. O ponto de não-retorno marca o rito de passagem do narrador. Ele ingressa na idade adulta. É o tema do filme. Para expressar na tela toda a complexidade desse mundo que implode, Sofia recorreu a tudo o que leu e ouviu, não só sobre o assunto, mas sobre a vida em geral.Ela conversou muito com o pai, com o marido. "Francis foi uma grande ajuda para mim", conta. "Deu-me todo o apoio, toda a orientação que poderia me dar, mas nunca quis interferir em nada - encorajou-me a fazer o meu filme, do jeito que eu achava que devia ser." Com o marido foi a mesma coisa. Como todos os casais, ambos conversam sobre as respectivas profissões e a deles ocorre ser a de cineastas. Ele dirige, ela dirige. "Spike também me deu todo o apoio, mas, como Francis, dizia que o filme era meu e nunca tentou interferir nas minhas escolhas, no sentido de mudá-las; discutíamos, conversávamos, mas sempre cabia a mim decidir sobre o estilo, a forma."Um filme como esse, delicado, introspectivo, de uma violência digamos, intrínseca mas nunca gráfica (no sentido de Arnold Schwarzenegger ou Sylvester Stallone), exigia atores especiais. Sofia não poupa elogios ao seu elenco. Ela trabalhou com uma agente que a ajudou a encontrar o intérprete (ou a intérprete) certa para cada papel. "Kathleen (Turner) é maravilhosa, James (Woods) foi sempre muito cooperativo; ambos são experientes, trabalharam com grandes diretores, mas nunca tentaram se colocar numa situação de superioridade em relação a mim, que era uma estreante." Os elogios estendem-se aos jovens. Kirsten Dunst, de Entrevista com o Vampiro, virou uma linda mulher. Sua presença loira, misteriosa, dá bem uma idéia do que Sofia queria fazer em seu filme. A serpente no paraíso, a crise existencial como expressão ou sintoma da crise social, a doença como idéia última de mundo.Após essa experiência bem-sucedida - o filme foi coberto de elogios; ninguém o chamou de obra-prima, mas dá para ver que a jovem diretora tem talento -, Sofia pretende prosseguir com a carreira. Sente que encontrou seu meio de expressão. Tem dois ou três projetos em andamento, mas em nenhum deles consegue vislumbrar uma personagem para si. Pode ser ainda um resultado do trauma do Chefão 3. Mas sabe que tem um feeling, sabe orientar o ator para uma interpretação sincera, verdadeira.

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