Soderbergh disseca a Hollywood de hoje

Às vésperas de entrar na casa dos 40 anos, o cineasta Steven Soderbergh continua se comportando como um garoto à procura de novidades. A última delas chama-se Full Frontal e é uma brincadeira com a linguagem e com a mitologia do cinema americano recente. O filme tem despertado excitação e desprezo nas praças por onde passa. As reações mais iradas são dirigidas ao caráter hermético da produção. Mas há quem se divirta com os truques de metalinguagem, as referências cinematográficas. O grande público brasileiro vai poder dar a sua opinião a partir de hoje, quando o filme protagonizado por Julia Roberts e David Duchovny entra em cartaz em circuito nacional.Full Frontal é um filme dentro de um filme. O que distingue a ficção da ficção dentro da ficção é o suporte no qual foram impressos: o filme dentro do filme é rodado em película, de imagens cristalinas; a história em torno dessa realização foi registrada em vídeo. O roteiro é construído em torno de sete amigos ligados de alguma forma à indústria de cinema, por laços de família ou profissionais. No fundo, Full Frontal é um filme sobre as engrenagens do cinema americano moderno. Mas também pode ser entendido como um filme sobre as pessoas que fazem filmes, nos moldes de A Noite Americana (1973), de François Truffaut, ou mesmo Oito e Meio (1963), de Federico Fellini.O parentesco com esses títulos, no entanto, é negado por Soderbergh. "Não acredito que Full Frontal possa ser comparado a esses filmes, particularmente a Oito e Meio. Porque os filmes de Truffaut e Fellini são explorações do processo criativo, o que não é o caso aqui. Na verdade, Full Frontal não é sobre o fazer cinematográfico, apesar de a história contar com dois personagens que por acaso são atores. É mais sobre como nós, espectadores, assistimos aos filmes", explica o diretor de 39 anos, em entrevista ao Estado. "É como se Full Frontal perguntasse coisas do tipo: ´O que somos permitidos assistir?´, ´O que o público permite que nós, cineastas, façamos?´, ´O que o público é capaz de aceitar?´" Aparentemente, a resposta a essa última pergunta não tem sido animadora. O desempenho de Full Frontal nas bilheterias americanas está longe dos patamares alcançados por sucessos recentes do diretor, como Erin Brokovich - Uma Mulher de Talento (2000). Não que Soderbergh tivesse esperanças de que isso se repetisse com Full Frontal. Até porque ele foi concebido como uma experiência formal e lingüística, com o mesmo espírito aventureiro e o tamanho de orçamento que deu origem a Sexo, Mentiras e Videotapes (1989)."Ficarei feliz apenas com o fato de que Full Frontal possa arrastar algumas pessoas aos cinemas. Apesar de conter um certo grau de dificuldade, não acho que ele requeira um conhecimento profundo de cinema para que as pessoas o entendam e reajam favoravelmente", justifica Soderbergh.O excepcional desempenho crítico e comercial de filmes como Erin Brokovich e Traffic reassegurou a liberdade que o diretor precisava para, entre um hit de bilheteria e outro, realizar projetos mais pessoais. Mas mesmo para os executivos da Miramax, a companhia por trás da produção, com a qual Soderbergh mantém uma sólida parceria, a idéia de um filme que impunha restrições tanto para o público quanto para os realizadores (18 dias de filmagens em locações) e para os atores (que se encarregaram do próprio figuro, da maquiagem e do transporte até o local de filmagem), soava por demais radical. "Ninguém me encorajou a fazer esse filme. Mas, filmes como esses, mais experimentais, mais articulados, fornecem idéias e conceitos para os trabalhos mais comerciais."Versão - O modus operandis de Soderbergh pode ser conferido novamente pelos americanos. Estreou lá, esta semana, o remake Solaris (leia mais), outra superprodução com dinheiro e aval de um estúdio. É a versão de Hollywood para o clássico metafísico dirigido pelo russo Andrei Tarkovsky em 1973. O diretor comprou os direitos sobre o livro de Stanislaw Lem, que deu origem ao filme de Tarkovsky, e convidou George Clooney - seu parceiro em Irresistível Paixão (1998) e Ocean´s Eleven - para usar o uniforme do astronauta do psicólogo enviado a uma estação orbital para investigar a origem das alucinações que levam a tripulação ao suicídio. "Apesar de ser completamente diferente, Solaris foi alimentado por muitas coisas que eu testei em Full Frontal."Soderbergh explica que o elenco de Full Frontal foi encorajado a improvisar. Cada um dos atores trouxe idéias para a composição de seus personagens. O diretor também distribuiu responsabilidades aos artistas, que receberam uma lista de regras a serem cumpridas, caso se interessassem pelo papel. "O que tentamos fazer foi despir-nos de todos os falsos incidentes que você põe normalmente num filme para criar drama. Eu queria ver como isso funcionaria na tela. Ao mesmo tempo, a dramaturgia de Full Frontal contrasta com a de Randevouz, o filme dentro do filme, que foi feito de encontros casuais e pequenos dramas e que é completamente falso."Em Solaris, essa relação entre atores e a dramaturgia é aplicada à estrutura de uma superprodução. "O que tem sido explorado em Solaris é a idéia da escolha. Você tem dois personagens em situações em que suspeitam que só possam terminar de uma única maneira. O problema fundamental é o quanto de liberdade de escolha você tem em relação aos problemas emocionais. O filme levanta a seguinte questão: ´Pode você exercer a sua vontade numa situação de fundo emocional ou você está condenado a se repetir eternamente?´. O filme é sobre isso, basicamente. A ação acontece num ambiente e num gênero que permitem que essa questão seja proposta de uma maneira direta. Foi o que mais me atraiu no projeto."Full Frontal Comédia. Direção de Steven Soderberg horas. Anália Franco UCI 9, às 15h50, 18 horas, 20h10 e 22h20 (hoje e amanhã também 0h30; amanhã e domingo também 13h40). Belas Artes-Aleijadinho, às 15h45, 17h45, 19h45 e 21h45. Center Iguatemi 1, às 13h45, 15h45, 17h45, 19h45 e 21h45. Eldorado 3, às 13h30, 15h35, 17h40, 19h50 e 22 horas. Jardim Sul UCI 3, às 18 horas e 21h10 (hoje e amanhã também 0h20). Unibanco Arteplex 4, às 16 horas, 18 horas, 20 horas e 22 horas (amanhã também 0h). 14 anos.

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