‘Sobrevivente’ fala do náufrago que escapou com vida no Atlântico Norte

Baltasar Kormákur narra a história real da luta do homem com o mar

Luiz Zanin Oricchio, O Estado de S. Paulo

16 de julho de 2014 | 18h38

Em Sobrevivente, Baltasar Kormákur narra a história real do náufrago que conseguiu chegar à praia depois que seu barco de pesca foi virado em alto-mar. O resto da tripulação sucumbiu. A história baseia-se em fatos reais, passa-se nos anos 1980, e o personagem existiu. O que a torna tão dramática, para não dizer inusitada, é o fato de que o acidente se deu nas gélidas águas do Atlântico Norte, perto da Islândia – que, não por acaso, se chama, em inglês, Iceland. Terra do Gelo. O personagem é Gulli (Olafur Darri Olafsson), um homem simples, bom, um tanto acima do peso, digamos assim.

O filme se divide em duas partes. O acidente em si, com a tentativa do sobrevivente de se salvar em condições dramáticas. Em seguida, há a vida a ser retomada após a tragédia no mar.

Kormákur filma de maneira discreta, sem grandes alardes. Porém, de forma eficaz. Não se interessa em produzir uma catástrofe inesquecível ou espetacular. Tudo é quase banal. Um bom barco de pesca que, por algum motivo, vai a pique. E de maneira tão repentina que os homens não têm tempo sequer de vestir um colete salva-vidas. O que há é a água. Gélida, no inverno islandês – o que não é dizer pouco. 

No entanto, essa discrição não nos faz sentir menos o drama do homem só – ele e água – que busca até na companhia de pássaros marinhos algum alento para o seu desespero. 

A segunda parte não é menos sólida. Salvo, Gulli deverá provar como conseguiu escapar de uma situação em que a morte era certa. Não existiam registros de alguém que pudesse nadar durante seis horas seguidas naquelas condições de frio intenso. Era impossível. Humanamente improvável. E, assim, o sobrevivente passa a ser muito interessante do ponto de vista científico. 

Na parte afetiva, sua situação não é menos complicada. Afinal, aqueles homens que morreram no mar eram seus companheiros de trabalho e, mais do que isso, seus amigos. Gulli conhece suas famílias, conhece a esposa de um deles e seus filhos. Acontece com ele algo que parece incrível, mas de fato é bastante comum entre sobreviventes de grandes catástrofes, uma certa culpa por não ter morrido. O fato de ele continuar vivo é algo quase obsceno para a comunidade, embora nunca seja enunciado deste modo. Homem bastante simples, rude apesar de terno, Gulli terá de encontrar uma maneira de contornar esse aspecto, o de ser uma exceção em meio à fatalidade. 

Isso para dizer que Sobrevivente não é um filme banal sobre naufrágios. Esse é quase um gênero da literatura, antes que o cinema o abordasse, também sofregamente. Está na origem de clássicos como Moby Dick, de Melville, ou O Diário de Arthur Gordon Pynn, de Poe. Há algo de quase místico nele – o homem com seu orgulho anulado, graveto que é, na imensidão do oceano. Esse sentido de pequenez diante do absoluto, simbolizado pelo mar, faz do naufrágio uma metáfora poderosa sobre a vida e a finitude, sobre o orgulho e a relatividade das vaidades do mundo.

Sobrevivente não deixa de tocar nessa nota trágica – só o faz em tom menor. Há um momento em que o verdadeiro Gulli é entrevistado e ele diz mais ou menos isso: sentiu-se uma gotinha em meio ao oceano. Essa a sua metafísica possível, a do homem solitário que viu todos morrerem e teima em viver. Apesar de modesta parábola, há algo de muito belo nessa história simples. Nem precisaríamos ser lembrados de que se baseia em fatos reais para que se tornasse palpável para nós. 

SOBREVIVENTE

Direção: Baltasar Kormákur. 

Gênero: Drama (Islândia/2012, 96 min). Classificação: 12 anos.

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