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'Sobre Viagens e Amores' é um delicado filme sobre o universo juvenil LGBT

Filme de Gabrielle Muccino fala de um jovem de 18 anos – virgem e obcecado pela morte - que recebe um dinheiro e vai realizar o sonho de conhecer a América

Luiz Carlos Merten, O Estado de S. Paulo

08 Maio 2017 | 03h00

No Brasil, chama-se Sobre Viagens e Amores. No mercado de língua inglesa, é Summertime, Tempo de Verão. E, no original, é L’Estate Addosso, O Verão Dentro (de Mim), mais adequado para o que o diretor italiano Gabriele Muccino está querendo dizer em seu novo filme, que estreou na quinta, 4, nos cinemas brasileiros. Muccino ficou internacionalmente conhecido quando Will Smith foi indicado para o Oscar por A Procura da Felicidade, sobre um pai desempregado que rala para manter o filho. Chegam a dormir na rua, mas depois de tanto sacrifício o letreiro final informa que papai, de vendedor marginalizado, deu o salto e virou banqueiro aos 30 anos.

Sobre Viagens e Amores fala de um jovem de 18 anos – virgem e obcecado pela morte. Um acidente que lhe rende o dinheiro do seguro lhe permite realizar uma sonhada visita à ‘América’. Ele não sabe, mas vai compartilhar o voo, e a estada, em São Francisco com a caretinha da escola. Pior que isso – para um garoto ‘normal’ e uma freirinha, ambos vão parar na casa de um par gay. Ó horror! Nããão. Passado o estranhamento inicial, todo mundo se enturma. Os rapazes são ótimos, pintam uns climas, todos se fazem confidências. A freirinha revela-se sexy, vira objeto de desejo do italianinho que arde de paixão.

Começam a fazer loucuras, como uma ida a Cuba. Sol e mar, verão. Na volta, e já sem os amigos, passam por Nova York, onde ela... Vejam o filme. De toda essa experiência de vida, o protagonista vai carregar, sempre, esse verão inesquecível como uma lembrança permanente – uma obsessão? Tudo – as viagens, os amores – é história. O tema é o tempo desse verão que aprisiona Marco – é seu nome – no imaginário. Um filme, de certa forma, triste. Fala de ganhos – e perdas. Provoca reações díspares. Um crítico já disse que é marcado pelo artificialismo, outro que proporciona diversão prazerosa. O artificialismo está no olhar de quem vê, e a diversão, embora prazerosa, não é inconsequente.

É curioso, mas o filme que agora estreia é contemporâneo de outro, também italiano e similar, que passou em Berlim, em fevereiro. Call Me by My Name, de Lucca Guadagnino, já desembarcou na Berlinale aureolado pelos elogios que recebeu em Sundance. Outro verão e, sob o sol da Toscana, o adolescente Timothée Chalamet inicia-se no sexo com Armie Hammer, o Cavaleiro Solitário e o Napoleon Solo de O Agente da U.N.C.L.E., compondo um tipo misterioso e sedutor. Guadagnino é gay assumido. Muccino não só é hétero como é um machista brutal, que, segundo as redes sociais da Itália, só não foi preso devido ao testemunho que seu irmão admitiu ter sido falso, quando mandou a mulher para o hospital com o tímpano rebentado com um soco. Como um sujeito desses encara com tanta honestidade e sensibilidade o universo juvenil LGBT? O gay, a priori, teria certo comprometimento. São mistérios da arte. Dois belos filmes, mas pelo outro você ainda terá de esperar.

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