Sob elogios, Mezcal abre 34.º Festival de Gramado

Numa cena perto do final de "Serras da Desordem", o personagem, um índio aculturado, fala para a câmera, mas ninguém traduz o que ele diz. Uma sombra passa pela imagem. Pertence a um avião de caça que faz um vôo rasante sobre ele. O estranhamento é grande. Há um embate entre a cultura primitiva do índio e o desenvolvimento tecnológico. Do ponto de vista do autor, Andrea Tonacci, a idéia é clara, mas isso não diminui o desejo do espectador de ouvir o que o índio tem a dizer. Serras da Desordem é um filme sobre a manipulação do seu protagonista por todos - o cineasta, os sertanistas, os colonos no assentamento do Incra em que ele encontra abrigo.Deu 1 a 0 para os latinos na noite de abertura do 34.º Festival de Gramado. O concorrente mexicano "Mezcal", de Ignacio Ortiz Cruz, conseguiu nocautear, ao mesmo tempo, dois filmes nacionais - o ambicioso "Veneno da Madrugada", de Ruy Guerra, ao qual se assemelha, notavelmente, e "Serras da Desordem", que assinala o retorno ao cinema de Andrea Tonacci, autor do cultuado Bang Bang, que virou marco do chamado cinema marginal ou udigrudi, por volta de 1970. Vamos por partes. Antes dos filmes, o ambiente.Ainda não foi desta vez, ou na primeira noite, que Gramado conseguiu mudar uma tradição que se construiu ao longo de décadas. Gramado é uma cidade turística. Para o público, seu atrativo foi sempre o tapete vermelho, cada vez mais freqüentado pelos globais. Ao assumirem, profissionalmente, a curadoria do evento, José Carlos Avellar e Sérgio Sanz prometeram substituir o glamour do tapete vermelho por um maior espaço dedicado à discussão do próprio cinema. O público ainda não foi avisado. O que as pessoas querem ver é a entrada de Luciano Szafir, Antônio Fagundes, Rocco Pitanga. Tonacci passou despercebido em sua grande noite.O primeiro filme da noite de inauguração foi o mexicano. "Mezcal" passa-se numa taberna na qual se reúnem bebuns que consomem a bebida alucinógena do título. O filme tem vários elementos comuns com "Veneno da Madrugada", que Ruy Guerra adaptou de "La Mala Hora", de Gabriel García Márquez, embora o próprio diretor, ao subir ao palco, tenha preferido fazer uma ponte de seu filme com "Esperando Godot", de Samuel Beckett. Nos créditos finais, ele admite que tomou emprestada muita coisa a Shakespeare ("A Tempestade") e Malcolm Lowry ("Sob o Vulcão").A trama passa-se em boa parte na taberna, onde as pessoas buscam refúgio, enquanto lá fora ruge a tormenta. É uma história de desamor, morte e vingança, temperada pelo mezcal, tudo isso traduzido por uma narrativa cíclica e de grande força telúrica. Serras da Desordem também começa muito bem, com a visão dos índios entre eles, vivendo em harmonia com a natureza.Se não é exatamente uma visão do paraíso, a floresta de "Serras da Desordem" traduz um mundo em equilíbrio que a chegada da estrada de ferro vai romper.A partir daí, começa a desordem. Apenas um índio sobrevive ao massacre de sua gente e inicia uma trajetória durante a qual sua inocência é sempre confrontada com o mundo. Todos, até os que querem ajudá-lo - o que inclui os sertanistas -, tratam como menos que uma criança.Tonacci, até por sua origem no cinema que depois recebeu a definição de marginal, não é um contador de histórias e, menos ainda, no sentido tradicional. Bang Bang não é um filme linear, mas se constrói numa série de climas (e climaxes) que lhe conferem força e originalidade. Não há nem termo de comparação, porque o universo retratado em ambos os filmes é distinto - um policial e uma ficção que, com freqüência, se dá, intencionalmente, ares de documentário -, mas a desordem do título parece ter contaminado o novo longa do autor. Até para filmar o caos é preciso método. "Serras da Desordem" começa e termina, digamos, bem. Os problemas estão no miolo. Tonacci documentou as culturas indígenas entre 1977 e 84. Filma o índio, mas não lhe dá voz. Ou melhor, o que ele fala ninguém entende, nem nós, o público. Tonacci é honesto ao reconhecer que está usando seu índio para expressar o próprio desconforto diante do mundo atual. Podia continuar não sendo linear e ter feito outro filme, mais forte - aquele com que sonharam, ao saber que ele estava em Gramado, os admiradores de Bang Bang.

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