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'Sniper Americano' mira a angústia e o desespero de um atirador de elite

Filme de Clint Eastwood recebeu 6 indicações ao Oscar

Thiago Mattos - ESPECIAL PARA O ESTADO, O Estado de S. Paulo

10 de fevereiro de 2015 | 03h00

NOVA YORK - Um tanque de guerra invade a tela do cinema. Ianques camuflados avançam por uma cidade em ruínas no Iraque e na mira de um atirador de elite, está uma criança que recebe granada de uma mulher. O atirador precisa decidir se dispara ou não contra a criança. Suspense. Dedo no gatilho. Corta para um flashback.

Desde a cena de abertura de American Sniper, de Clint Eastwood, que tem previsão de estreia no dia 19, a constante tensão dá o tom de seu novo filme, indicado para o Oscar em seis categorias - filme, ator, roteiro adaptado, edição, edição de som e mixagem de som. Embora seja um relato de guerra, há um claro esforço para que nem todo conflito esteja no campo de batalha. 

Não é a primeira incursão do cineasta por filmes de guerra. Em 2006, o diretor se voltou para a Segunda Guerra Mundial em dois longas - A Conquista da Honra, que fixa sua atenção no lado norte-americano do conflito, e Cartas para Iwo Jima, que abre espaço para a vivência e o espírito de honra dos japoneses.

 

Adaptado da autobiografia de Chris Kyle (interpretado por Bradley Cooper), o atirador de elite mais letal da história do exército americano, o filme explora os dilemas e danos psicológicos enfrentados pelos que vivem a guerra. Para isso, Eastwood confia especialmente na atuação de seu protagonista - que também é um dos produtores do longa. 

“Não é absolutamente um filme político. A esperança é de que as pessoas possam de alguma forma ter seus olhos abertos sobre os esforços de um soldado em oposição às especificidades da guerra”, disse o roteirista Jason Hall em entrevista coletiva em NY. “Foi um roteiro difícil de escrever. Encontrei com Chris Kyle em 2010. Bradley e eu trabalhamos com ele no primeiro script e estávamos em contato constante. Falei para ele que estava entregando o roteiro aos produtores e no dia seguinte ele foi morto.”

O herói do filme, que sobreviveu a quatro perigosas idas ao Iraque, foi ironicamente assassinado no Texas por um veterano de guerra, a quem tentava ajudar em 2013. 

A equipe, que já havia começado a trabalhar no filme, contou com o apoio total e irrestrito de Taya Kyle, a viúva do militar. “Ela abriu sua vida e nós não tivemos de criar nada com a imaginação”, afirmou Bradley Cooper, que recebeu um vasto material para compor seu personagem, de e-mails íntimos a vídeos caseiros do casal. Assim, foi possível ver como o herói de guerra se comportava. Além disso, todo o material doméstico permitiu a abordagem que vai além do drama da guerra e mergulha na esfera pessoal.

Como o estudo de um personagem, a expressiva transformação de Cooper em Chris Kyle é um dos pontos altos do filme. Assim como o entrosamento do par romântico que faz com Sienna Miller.

Ao escolher retratar o quão terrível é uma guerra, Clint Eastwood aborda um tema recorrente em seus personagens: ter de fazer o que é preciso ser feito e aguentar o peso das consequências. E o faz de modo também familiar, usando a linguagem western com a qual dialoga desde o início de sua carreira. 

Nas idas e vindas do soldado ao Iraque, há a clara caça ao inimigo, as armadilhas, a tempestade que embaça a visão e a figura do atirador da marinha rápido e preciso. Acrescente rifles, tanques e armas de guerra e temos um bangue-bangue com proporções bélicas.

Na condução da jornada do herói, que de caubói de rodeio no Texas se transforma no sniper americano mais temido do Iraque, Eastwood conta com o apoio de parceiros de longa data - a edição precisa é assinada por Joel Cox (ganhador do Oscar de edição em outro filme de Eastwood, Os Imperdoáveis, de 1992) e a direção de fotografia é de Tom Stern, outro colaborador assíduo do diretor.

O veterano cineasta, que completa 85 anos em dia 31 de maio, presta tributo aos veteranos de guerra de seu país. O resultado é uma história bem contada, mas ideologicamente comprometida com a causa dos que defendem vigorosamente as intervenções militares dos EUA. É só lembrar o polêmico discurso na convenção republicana de 2012, na qual o diretor conversa com uma cadeira, fingindo estar dialogando com o presidente Barack Obama. Para o bem e para o mal, é Clint Eastwood sendo Clint Eastwood.

ENTREVISTA - Bradley Cooper

Além de estrelar o filme, Bradley Cooper também é um dos produtores de American Sniper. Em entrevista coletiva em NY, o Estado participou de uma conversa com o astro.

Sua interpretação de Chris Kyle chamou a atenção por sua semelhança com ele. Como você se sentiu com o papel?

Foi uma tremenda responsabilidade, que vejo como grande oportunidade. Então, fiz tudo o que pude para fazer direito.

Você é um dos produtores do filme. Como foi trabalhar com Clint Eastwood?

Ele é um dos maiores diretores do nosso tempo. Tanto em Os Imperdoáveis, como em Cartas para Iwo Jima, ele enfrenta muito bem a luta do personagem. Era o diretor perfeito para este filme. Além disso, o próprio Chris Kyle chegou a dizer que, se pudesse escolher quem dirigiria o filme, seria Clint.

Você pode contar um pouco sobre o treinamento militar que fez para o filme?

Eu tinha três meses e precisava escolher com o que ficar mais confortável. Escolhi os três rifles porque o que é visto é a destreza do personagem com as armas. Por isso, foquei em como seria ser um atirador de elite, não tanto no treinamento de se tornar um Seal, o que eu amaria fazer se pudesse sobreviver a isso.

Qual é a mensagem do filme?

Contamos a história desse homem tão carismático e dinâmico e o filme pode ajudar a cicatrizar as dores dos que passaram pelos mesmos sofrimentos que Chris Kyle. Quem não sabe nada sobre o que Chris e sua mulher enfrentaram talvez sinta empatia pela história.

Michael Moore diz que atiradores são covardes 

Michael Moore, responsável por filmes como Tiros em Columbine (2002) e Fahrenheit 9/11 (2004), chamou os franco-atiradores de covardes no Twitter, o que deu início a uma grande polêmica – e seu comentário foi interpretado, também, como uma crítica ao filme de Clint Eastwood. “Meu tio foi morto por um atirador durante a Segunda Guerra Mundial. Aprendemos que atiradores são covardes, que vão atirar em você pelas costas. Atiradores não são heróis. E invasores são piores”, escreveu. Aos que trataram de associar seu comentário ao filme, sucesso de bilheteria nos Estados Unidos, ele respondeu pelo Facebook: “Se queriam saber minha opinião sobre Sniper Americano por que não me perguntaram? Impressionante performance de Bradley Cooper. Uma das melhores do ano. Boa edição, figurino, cabelos, maquiagem soberba. Ah, mas muito ruim que Clint confunda Vietnã e Iraque em sua história e que seus personagens chamem os iraquianos de “selvagens” ao longo do filme. Mas há também sentimentos antiguerra e um tocante final”. Moore escreveu também que a maioria dos americanos não considera os atiradores heróis. “Pelo menos não neste fim de semana quando lembramos daquele homem em Memphis morto por uma bala de um atirador.” Era o dia de Martin Luther King. O filme chegou a entrar em cartaz em Bagdá, mas foi retirado do único cinema em que estava sendo exibido.

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