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'Sniper Americano' é a tragédia de um solitário em debate

Com Michael Moore tentando desmoralizar o diretor, maior sucesso de Clint Eastwood vira seu filme mais polêmico

Luiz Carlos Merten, O Estado de S. Paulo

19 Fevereiro 2015 | 03h00

É o segundo filme que Clint Eastwood herda de Steven Spielberg, depois de A Conquista da Honra/Flag of Our Fathers. Clint começara a ler o livro autobiográfico do sniper Chris Kyle quando recebeu um telefonema da Warner, empresa que tem sido parceira de sua produtora, a Malpaso. Spielberg estava desistindo de fazer Sniper Americano, insatisfeito com a redução do orçamento pelo estúdio. Antes de aceitar, Clint ligou para o colega, que lhe desejou boa sorte para conter o orçamento em US$ 60 milhões. Clint anunciou que ia fazer mudanças no roteiro que Steven criara com Jason Hall. Spielberg observou que o roteiro era melhor que o livro, mas o incentivou. Ofereceu-se para ser diretor de segunda unidade. “I’ll can manage”, Eu consigo fazer, disse o xerife.

E conseguiu. American Sniper está sendo o maior sucesso do Clint diretor – US$ 350 milhões nos EUA. Também virou seu filme mais polêmico. Clint está sendo acusado de... quê? Seria fácil transformar a história do atirador de elite mais famoso da história do Exército norte-americano numa ode belicista, ou numa patriotada. Mas seria incoerente, já que Clint, republicano de carteirinha, desde logo se posicionou contra a Guerra do Iraque. Michael Moore tem feito de tudo para desmoralizá-lo nas redes sociais. A resposta do diretor – “Fui contra ele pelo que fez com Charlton Heston em Tiros em Columbine. Charlton era republicano e defendia o direito às armas, mas fez mais pelos direitos civis na América do que Moore. Ele que não tente aplicar seu número de denúncia para cima de mim.”

Sniper Americano começa explosivo. O batismo de sangue de Chris no Iraque é quando ele tem na mira do rifle uma mulher e uma criança. No livro, é só a mulher, mas Chris contou ao roteirista que havia também a criança. Disparar contra ela é um tabu que o diretor assume para, de cara, sacudir o espectador. Repete-o, mais tarde, de outra forma. Entrevistado pelo analista militar, que pergunta como ele se sente tendo matado 160 homens, Chris diz que o que fez foi para salvar seus homens e proteger os EUA dos “bárbaros”. O discurso pode ser esse, mas The Legend, o Mito, é humano. Existem brechas na sua fortaleza. 

De todos os filmes de guerra de Clint, Sniper Americano é o mais peculiar. Não deixa de ser a tragédia de um solitário, mesmo quando Chris se insere no grupo. Com seu rigor moral, sede de vingança e ódio ao selvagem, ele é o novo Ethan Edwards, ou alguém se esqueceu de Rastros de Ódio, de John Ford? Explicando o Iraque por meio da formação texana de Chris, o diretor chega a Otto Preminger e sua crítica do embate entre o homem e a instituição. Só um grande como Clint para unir, no mesmo filme, o maior clássico de Hollywood nos anos 1950 e o maior nos 1960 – A Primeira Vitória (In Harm’s Way), ambos com John Wayne.

Clint olha os dois lados, equilibra cenas de combate com conflitos familiares, e defende que o equilíbrio talvez seja o segredo do sucesso de Sniper Americano. Em L’Obs, nova cara de uma das mais tradicionais revistas da França, Le Nouvel Observateur, François Forestier descreve o Clint político como um conservador de esquerda. Passa a ideia de um franco-atirador, mas é da paz, defende o casamento gay e o direito das mulheres ao aborto. Tudo o que parece reacionário no filme é parte de um esforço para entender o outro, e a si mesmo. Bradley Cooper, que produz, já ia fazer o filme com Spielberg. É prodigioso. Esquizofrênico, uma massa física de robô e um olhar de bicho acuado. O personagem pode ser real, mas com Clint vira uma magnífica ficção.

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