Fênix Filmes/ Divulgação
Yoav dispõe de vários termos similares, mas não consegue encontrar a palavra exata para manter um diálogo com seus novos amigos franceses  Fênix Filmes/ Divulgação

'Sinônimos' narra história de jovem israelense que tenta se reencontrar após mudar para Paris

Completamente fora dos padrões, filme autobiográfico do israelense Nadav Lapid foi o grande vencedor do Urso de Ouro no Festival de Berlim

Luiz Zanin Oricchio, O Estado de S. Paulo

30 de outubro de 2019 | 07h00

A 43.ª Mostra Internacional de Cinema termina hoje, com a exibição de Dois Papas, bela ficção de Fernando Meirelles sobre o encontro entre Ratzinger e Bergoglio, o papa que sai, Bento XVI, e o papa que chega, Francisco. Mas, além desse humano diálogo entre eminências, ainda há tempo de conferir um dos títulos mais intrigantes da edição deste ano, Synonymes (Sinônimos), do israelense Nadav Lapid, vencedor do Urso de Ouro no Festival de Berlim

Sinônimos é um filme fora dos padrões habituais. Exige, portanto, uma espécie de atitude de busca por parte do espectador. O personagem é Yoav (Tom Mercier), jovem israelense que chega a Paris sem um tostão no bolso e, meio por acaso, acaba por conhecer um rapaz e uma moça (Quentin Dolmaire e Louise Chevillotte), ambos muito abonados, moradores de um imenso apartamento de 300 m² na capital francesa. Yoav nada tem de seu, e muito menos o idioma. Tenta aprender o francês por meio de um dicionário de sinônimos, surrupiado de uma livraria. 

E aí então temos uma dessas particularidades da obra. Yoav torna-se fluente, mas de um francês livresco, aprendido no dicionário. É capaz de enunciar diversas palavras para designar o mesmo objeto, ideia ou sensação. No entanto, parece separado do mundo real por este mesmo muro de palavras quando tenta se comunicar com aqueles que falam o francês como língua materna. Uma das leituras possíveis de Sinônimos é a dificuldade da aculturação. Ou seja, quando pulamos da nossa própria cultura, aquela em que fomos criados desde a infância, para outra, que podemos conhecer apenas de maneira aproximada. Yoav dispõe de uma multiplicidade de termos similares, mas não a palavra exata para estabelecer o diálogo – o “mot juste”, como dizem os franceses. 

Não se trata apenas de um tema intelectual. Trata-se da questão mais premente da dificuldade de se sentir parte de uma comunidade, de integrar-se, reconhecer-se nessa cultura e sentir-se reconhecido. Por isso, é particularmente hilariante (mas também constrangedora) a atitude exagerada de Yoav num desses cursos que a França fornece aos imigrantes para que compreendam não apenas o idioma, mas os valores do país. 

E, claro, não se trata apenas do problema em adaptar-se e dissolver-se numa cultura nova. O caso é ainda mais sério, quando Yoav, para tal, dispõe-se a renegar a própria identidade cultural. Em entrevistas, Navad Lapid tem repetido que o personagem é francamente autobiográfico. Ele próprio, depois de servir o Exército em seu país natal, resolveu emigrar. Foi para a França, disposto a “tornar-se francês”. Comprou o tal dicionário que, em sua imaginação, lhe franquearia o caminho para o idioma. Em Paris, enfrentou as mesmas dificuldades – materiais e simbólicas – que seu personagem. Tentando, em vão, abrir portas, que é uma metáfora recorrente de Sinônimos. Portas que se fecham, portas que não consentem em ser abertas pelo forasteiro. 

Em meio a tudo isso, surge a pergunta frequente daquele que sai de seu país para outro: o que fazer com a cultura de origem? Renegá-la? Integrá-la a essa nova cultura, que se recusa a ser assimilada? Daí a questão, nem sempre expressa de maneira explícita por Yoav: o que significa ser um israelense? 

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'Dois Papas' encerra com grande estilo a 43.ª Mostra Internacional de Cinema

Filmes vencedores da competição serão anunciados nesta quarta-feira, 30, pela organização; duas produções brasileiras estão entre os pré-selecionados

Luiz Carlos Merten, O Estado de S. Paulo

30 de outubro de 2019 | 07h00

Realizam-se nesta quarta, 30, as cerimônias de premiação e encerramento da 43.ª Mostra Internacional de Cinema. Dos 14 filmes selecionados pelo público, o júri internacional escolherá o vencedor ou os vencedores do Troféu Bandeira Paulista. Entre os pré-selecionados, estão dois filmes brasileiros – Chorão, Marginal Alado, de Felipe Novaes, e Partida, do ator e diretor Caco Ciocler. Entre os 12 restantes, existem longas belíssimos, como o documentário encenado – à maneira de Robert Flaherty – da Macedônia, Honeyland, de Ljubomir Stefanov, e também Papicha, de Mounia Meddour, que é o programa desta noite no ciclo de projeções e debates que o Estado promove no Petra Belas Artes.

O júri de quatro membros é integrado pela atriz e diretora Maria de Medeiros, pelos diretores Beto Brant e Lisandro Alonso, e pela produtora Xénia Maingot. A Mostra também divulga nesta quarta a programação da repescagem, que começa amanhã e vai até quarta, 6. Num circuito menor, o público terá a chance de (re)ver filmes importantes da programação e até os vencedores dos prêmios do público, da crítica e do júri.

Na abertura, há duas semanas, Renata Almeida havia destacado que, malgrado as dificuldades, essa seria uma Mostra com DNA bem brasileiro. Apesar das qualidades, The Wasp Network, Os Últimos Soldados da Guerra Fria, baseado no livro de Fernando Morais, não foi o melhor Olivier Assayas. Já Dois Papas, que encerra a Mostra, não é apenas o verdadeiro City of God – uma piada que Fernando Meirelles terá de se acostumar a ouvir –, como é também o melhor e o mais bem dirigido filme do cineasta. Começa com o cardeal argentino Jorge Bergoglio participando de uma atividade comunitária em Buenos Aires. Prossegue com o conclave que elegeu papa o cardeal alemão Joseph Ratzinger, quando ele adotou o nome de Bento XVI.

Desenha-se, de cara, um conflito no seio do Vaticano – entre conservadores e os progressistas que o papa anterior, João Paulo II, tratara de neutralizar. Anos depois, Bergoglio viaja a Roma para tratar de sua aposentadoria. Coincidentemente, sua santidade o chamara a Roma, e o hospeda em Castel Gandolfo, a residência de verão do papado, uma deferência rara. Ali, e também no Vaticano, na célebre sala que abriga o afresco de Miguel Ângelo, os dois conversam, discutem, entendem-se. Cada um desses homens terá de purgar-se da culpa – ‘ego absolvo vobis’ (absolver-se dos seus pecados). 

Será o encontro de dois papas, o que vai renunciar, Bento, transformando-se em emérito, e o que será eleito para reformar a Igreja: Jorge, que escolherá o nome de Francisco.

 

Experiência

O repórter não se furta a dizer que o filme lhe proporcionou uma radical experiência emocional – coisa de chorar. Perdoar e ser perdoado. Dois atores excepcionais, em estado de graça, Jonathan Pryce (Jorge/Francisco) e Anthony Hopkins (Bento). Um belíssimo filme que a Mostra permite ao público ver no cinema. Por se tratar de uma produção da Netflix, Dois Papas só poderá ser visto na plataforma da operadora de streaming.

Nos EUA, está previsto para estrear em 27 de novembro. Repete-se, portanto, a operação do ano passado, quando outra produção da Netflix, Roma, de Alfonso Cuarón, encerrou a Mostra. Roma foi para o Oscar e venceu. Os Dois Papas será indicado? Os atores, muito provavelmente, ou certamente, sim. Pryce e Hopkins vêm somar-se, como aspirantes, a outros mais que prováveis candidatos – Joaquin Phoenix, por Coringa, de Todd Phillips, e Antonio Banderas, pelo Almodóvar, Dor e Glória. Mas o filme terá de concorrer com O Irlandês, de Martin Scorsese. Duas produções da Netflix entre os finalistas do Oscar talvez sejam demais para a Academia.

Para ver nesta quarta, à espera dos Papas de Meirelles, o cinéfilo dispõe de programas como A Jangada de Welles, documentário de Firmino Holanda e Petrus Cariry, que retraça a aventura brasileira de Orson Welles no episódio de It’s All True/É Tudo Verdade – a célebre histórias da jangada que afundou – , e Aos Olhos de Ernesto, de Ana Luiza Azevedo, com Jorge Bolani, sobre fotógrafo de 80 anos que está perdendo a visão por conta da velhice. Ele tenta enganar as pessoas ao redor, mas termina descobrindo, a despeito de tudo, novas possibilidades de vida, e amor. Como tudo o que a diretora faz, outro belo filme.

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Indicado ao Oscar, 'Papicha' integra série de debates promovida pelo 'Estado'

Evento acontece nesta quarta-feira, 30, no Petra Belas Artes; ingressos podem ser retirados com uma hora de antecedência do início da sessão

Redação, O Estado de S. Paulo

29 de outubro de 2019 | 18h46

Na série de debates que o Estado promove no Petra Belas Artes, em parceria com o Instituto de Cultura Árabe (Icarab) e a Pandora Filmes, chega a vez, nesta quarta, 30, de Papicha, o belo filme da argelina Mounia Meddour, que concorre com A Vida Invisível, de Karim Aïnouz, a uma vaga no Oscar de melhor filme internacional. O procedimento é simples – uma hora antes da sessão, programada para iniciar às 19h30, o público poderá retirar os ingressos gratuitos. Os debatedores serão o jornalista de cinema Luiz Carlos Merten e o especialista em Direito Internacional, Salem Nasser.

Papicha estreia nesta quinta, depois de integrar a programação da Mostra. Em maio, participou do Festival de Cannes na seleção oficial, integrando a seção Un Certain Regard, a mesma em que A Vida Invisível foi o melhor filme. Os dois filmes, e também Adam, da marroquina Maryam Touzani, que estreia dia 14, compartilham o mesmo tema da mulher nas sociedades autoritárias e machistas. Papicha parece simples. A protagonista é uma garota chamada Nedjma, que produz vestidos que vende em banheiros de baladas. Najima estuda, tem um grupo de colegas. E tudo se passa em Argel, nos anos 1990, quando a islamização alastra-se pelo país e a moda, mais que supérflua, é considerada ofensiva ao status da mulher na sociedade religiosa. Radicais islâmicas invadem as salas de aula para advertir – melhor seria dizer, ameaçar.

A narrativa – olha o spoiler – segue leve e solta até que um tiro vem alterar a vida de Najima. A partir daí tudo muda – o tom, o ritmo, a ambição. Nedjma resolve desafiar as radicais promovendo um desfile na escola. Imediatamente, surge a oposição. Nedjma e suas amigas serão intimidadas, ou levarão até o fim a decisão? Não parece muito, mas um desfile de moda pode representar o mundo, com todas as suas contradições. É o que prova a diretora.

O filme baseia-se livremente numa história real. É, em parte autobiográfico, como informa a cineasta num texto da distribuidora. “Cursei a faculdade num câmpus como o mostrado no filme e, ao final do primeiro ano, quando tinha 17 anos, minha família precisou deixar a Argélia, pois intelectuais e artistas estavam sendo ameaçados. Meu pai era cineasta.” 

Todas as experiências da protagonista na universidade representam o dia a dia das estudantes argelianas daquela época. “Com o fundamentalismo religioso em ascensão, a opressão vinha de todos os lados. Muitas garotas se esforçavam para chegar à universidade e morar no câmpus, para estudar, claro, mas também para ter um pouco de liberdade, fugindo do domínio das famílias opressoras.”

Na construção do filme, uma preocupação de Mounia era o tema da violência – até onde poderia ir para retratá-la. “Comprimimos uma evolução que levou anos a apenas algumas semanas”, conta. Para representar essa opressão, o câmpus da universidade funciona como um microcosmo da sociedade. “Há uma graduação no filme: os cartazes fora do câmpus, depois no câmpus e no fim até na sala de jantar. E depois a patrulha de mulheres, que invadem o quarto das garotas para vigiá-las.” O filme é forte, extremamente bem realizado e a atriz que faz o papel, Lyna Khodri, é uma autêntica revelação.

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'O Jovem Ahmed' é filme despojado e intenso sobre menino que se torna um radical religioso

Em exibição na 43.ª Mostra de Cinema, longa dos irmãos Dardenne impressiona pela sua capacidade humana ao retratar o delicado campo do fanatismo

Luiz Zanin Oricchio, O Estado de S. Paulo

29 de outubro de 2019 | 05h59

Da sua maneira, despojada e intensa, os irmãos Dardenne procuram entender o apelo à violência entre jovens de origem islâmica radicados na Bélgica. O Jovem Ahmed, em cartaz na 43.ª Mostra Internacional de Cinema de São Paulo hoje, fala diretamente desse personagem. Ótimo aluno, embora tenha sido disléxico na infância, Ahmed, agora na adolescência, recusa-se a dar a mão para sua professora – pelo simples fato de ela ser uma mulher. Ahmed toma essa atitude inspirado em seu imã, seu mentor espiritual e um homem muito radical. 

Se num primeiro momento Ahmed (Idir Ben Addi) simplesmente se recusa a cumprimentar a mestra – justamente ela, responsável pela cura de sua dislexia –, passa depois a alimentar uma crescente hostilidade, a ponto de tentar matá-la. Por fim, é enviado a um centro de reeducação instalado numa fazenda. Lá, ele conhece uma garota mais ou menos de sua idade (13 anos), Louise (Victoria Bluck), que parece se interessar por ele também. 

A arte dos Dardenne consiste em filmar suas histórias de maneira muito próxima aos personagens. Como se quisesse penetrar em suas almas e entender suas motivações. Compreender, essa é a palavra que parece guiar um cinema bastante realista, muito antenado nas questões sociais que afloram, mesmo em uma sociedade tão avançada quanto a belga, e que não transforma seus personagens em teses, guardando sua dimensão humana. Ou seja, busca o que neles existe de contraditório, de frágil e incerto. Parece insinuar que, através de frestas, algum avanço pode ser feito. Mesmo num caso como esse, em que o fanatismo religioso incorpora-se a um jovem vivendo no interior de uma sociedade laica. 

Os irmãos Luc e Jean-Pierre Dardenne tornaram-se mundialmente conhecidos por seu Rosetta (1999), filme sentido como um soco em uma Europa afluente, muito confiante em seu estado de bem-estar social para prestar atenção aos marginalizados desse sistema. No caso, uma mocinha que, de maneira muito simples, quer apenas um emprego para se inserir na sociedade. Com o filme, o público foi apresentado a um estilo de filmar, com a câmera rente à personagem, em longos planos em sequência, densos de sentimento e significado. 

Com o tempo foram apresentando outros trabalhos de sucesso, como A Criança, O Silêncio de Lorna e A Garota Desconhecida. Filmes fortes, discutindo questões sociais e impasses morais. Cinema adulto. Mas parte da crítica parece que foi enjoando do approach cinematográfico dos irmãos, que passaram a ser acusados de repetição. Seria o caso de reprovar um filme de Fellini porque se parece a um filme de Fellini, ou um Woody Allen porque também é reconhecível, e assim por diante. 

Outra maneira menos birrenta de ver o mundo é reconhecer uma trajetória marcada pela virtude rara da coerência. Do ponto de vista temático, os Dardenne mostram-se plugados nos desafios propostos pelas sociedades contemporâneas. Apesar de belgas, parecem não acreditar em utopias de bem-estar e mostram os desafios do indivíduo frente à impessoalidade do Estado. Em A Garota Desconhecida, havia embutida a questão dos imigrantes frente ao drama de consciência de uma jovem médica (Adèle Haenel). Agora, em O Jovem Ahmed, é a questão do radicalismo. Como enfrentá-lo sem recair na armadilha da xenofobia, essa sim letal? Também são criticados por finais tidos como redentores. Mas esses talvez sejam expressão simples da fé que, apesar de tudo, mantêm na humanidade. Ao apresentarem um personagem tão problemático quanto este garoto Ahmed, os Dardenne recusam-se a considerá-lo um caso perdido. Esse é o traço de um cinema humanista e coerente em sua proposta e crença. 

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Obras produzidas por diretoras e autoras estão entre os destaques da 43.ª Mostra

Filmes como 'Outubro', sobre a eleição presidencial de 2018, e o sensível ‘Hanami’, são belíssimos exemplos de obras comandadas por mulheres

Luiz Carlos Merten, O Estado de S. Paulo

29 de outubro de 2019 | 06h00

Mariette Rissenbeek, do Festival de Berlim, recebeu carta branca da Mostra para uma seleção de filmes. Ela veio ao Brasil para falar de novas tendências do cinema alemão e possibilidades de parcerias. Escolheu filmes como Contra a Parede, de Fatih Akin; Todos os Outros, de Maren Ade; Phoenix, de Christian Petzold. Escolheu também mais um que estará em exibição nesta terça: Hanami –Cerejeiras em Flor, de Doris Dörrie. É um bom pretexto para que se fale das mulheres na Mostra – diretoras e autoras.

Maria Ribeiro é muito conhecida do público como atriz, mas já há algum tempo vem desenvolvendo essa outra carreira, como realizadora. Não uma simples diretora. Maria fez dois documentários, sobre Domingos Oliveira, seu mestre, e sobre o grupo Los Hermanos. Gosta de defini-los como filmes de afeto. Na Mostra, ela apresenta outro documentário, Outubro, que codirige com Loiro Cunha. Reconhece que é diferente dos anteriores, mas só em termos. Não deixa de ser outro filme de afeto, de amor. Pelo Brasil. Maria vestiu-se de noiva – de branco, com o vestido de seu casamento. O gesto não poderia ser mais simbólico.

Casamentos acabam, mas é possível, com maturidade e equilíbrio, manter o afeto, o respeito. Maria compara a eleição de 2018 a um casamento que acabou. O que resta do sonho? Ela vai para a rua, atravessa a multidão seguida de perto pela câmera. Entrevista pessoas – personagens anônimos das ruas, conhecidos como o escritor Marcelo Rubens Paiva, cujo pai foi morto pela ditadura militar, e a pensadora Maria Rita Kehl, que tece, com clareza, uma elaborada análise conjuntural. O filme tem o formato de um diário. Maria, na primeira pessoa, evoca aquela semana de outubro. A semana que culminou com a eleição, no domingo. Fazia campanha por Fernando Haddad e Manuela d'Ávila

Na segunda-feira da ressaca, pós-eleição, Maria pergunta-se como terminar o filme. Ela e Loiro encontraram uma solução, belíssima, mas que você só vai saber qual é vendo Outubro. É um filme de amor – pelo diálogo, pela democracia. Pode-se perder uma eleição sem perder a ternura, o afeto. 

 

Sonho

O outro filme, Hanami, curiosamente, também se constrói sobre uma perda. Um homem – alemão – que perdeu a mulher resolve realizar o sonho dela de visitar o Japão na época em que a cerejeiras florescem. 

Doris Dörrie tem uma trajetória interessante. Estourou, em 1985, com um filme chamado Manner/Homens. Para quem reclama do humor teutônico, o filme dela – um olhar feminino sobre o universo masculino, como se Doris refizesse Maridos, de John Cassavetes – virou um fenômeno na Alemanha, com 6 milhões de espectadores e um monte de prêmios Bundesfilm, o Oscar alemão. 

O sucesso ultrapassou as fronteiras nacionais e ganhou o mundo – EUA, Brasil renderam-se. Cooptada por Hollywood, Doris tropeçou com Elas Me Querem, outra comédia, estrelada por Griffin Dunne. Ao contrário do título, ninguém quis saber do filme. Foi um fracasso memorável.

Ela voltou à Alemanha. Insistiu – Preciso Que Me Amem, de 1994. O afeto, tema de Maria, impregna Cerejeiras em Flor. O filme é de uma beleza visual espantosa. Encheria os olhos e não teria ressonância se não houvesse contrapartida. A superação do luto como atitude política. Belíssimo.

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‘Meu Verão Extraordinário com Tess’ foge da pieguice ao retratar os encontros de dois jovens

Filme conta história de amor pré-adolescente de férias, mas explora temas profundos com leveza

Guilherme Sobota, O Estado de S. Paulo

28 de outubro de 2019 | 06h00

É a última chance de ver na Mostra um dos filmes mais bem votados nesta 43.ª edição do evento. Meu Verão Extraordinário com Tess – uma história da passagem da infância para a adolescência com relações e personagens bem desenvolvidos – é exibido nesta segunda-feira, 28, às 19h30, no Espaço Itaú Frei Caneca. Dentro da Competição Novos Diretores (é o primeiro longa do jovem diretor holandês Steven Wouterlood), o filme agora concorre ao Troféu Bandeira Paulista.

Antes de chegar a São Paulo e conquistar os fãs da Mostra, o filme já tinha levado uma menção especial da seção Generation K Plus no Festival de Berlim deste ano, onde também colecionou elogios da crítica.

Baseado em um livro da escritora holandesa Anna Woltz, o filme acompanha Sam (Sonny van Utteren) por uma semana nas férias de verão da família em uma ilha na Holanda, mas os planos de uma viagem idílica começam a ruir quando seu irmão mais velho se machuca e a mãe entra em crise de enxaqueca. “Será que o último dinossauro sabia que era o último mesmo?”, Sam se pergunta mais de uma vez durante o filme. Instigado por esse tipo de reflexão, ele então prepara para si mesmo um “treinamento de solidão” – ciente de que, muito provavelmente, todos os seu entes queridos morrerão antes dele, o caçula da família.

O treinamento, porém, é interrompido quando ele conhece Tess (Josephine Arendsen), uma idiossincrática garota de 11 anos envolvida em sua própria busca complexa: tentar se aproximar e conhecer Hugo (Johannes Kienast), outro visitante da ilha com um passado em comum com ela e com sua mãe. No processo, Tess parte o coração de Sam – apenas uma das “primeiras vezes” do filme –, numa história de amor de verão inocente, daqueles que transformam uma vida para sempre.

A temática remete ao clássico de Sessão da Tarde Meu Primeiro Amor (e até a garota, Arendsen, guarda uma semelhança física com Anna Chlumsky, o amor de Macaulay Culkin no filme de 1991), mas em apenas 82 minutos Meu Verão Extraordinário com Tess consegue costurar ao romance pré-adolescente ponderações mais profundas sobre amadurecimento, solidão, morte, perdão – sem esbarrar em pieguices.

O cenário natural da ilha de Terschelling e a fotografia ampla de Sal Kroonenberg contribuem nesse sentido também, fornecendo um senso de grandeza para um drama romântico leve, e para todas as idades.

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Cineastas latinos, com foco na Guatemala, mostram força na 43.ª Mostra

Dia tem dose dupla de Jayro Bustamante, com ‘Tremores’ e o político ‘La Llorona’

Luiz Carlos Merten, O Estado de S. Paulo

28 de outubro de 2019 | 06h00

Viva a America Nuestra – os latinos participam com brilho da programação da 43.ª Mostra. Em 2015, Jayro Bustamante colocou a Guatemala no mapa do cinema mundial ao vencer o prêmio Alfred Bauer, à melhor contribuição artística, no Festival de Berlim com o belíssimo Ixcanul. Não representa pouco que, quatro anos depois, ele esteja de volta à Mostra com dois novos filmes. A atual República da Guatemala foi o centro da civilização maia entre os séculos 4 e 9. Localiza-se na América Central, ao sul do México e possui um pequeno território sujeito a terremotos e cortado por serras e cordilheiras, em que existem vulcões ativos. Num certo sentido, é a legítima República das Bananas, porque a agricultura é sua principal atividade econômica, e as áreas férteis são dominadas pela produção de café, açúcar e bananas. O cinema sempre foi um luxo no país, e as telas, colonizadas pela produção do México e de Hollywood.

Bustamante quebrou a tradição. Está na Mostra por meio de Tremores/Temblores e La Llorona. Nesta segunda-feira,28, também tem o argentino A Odisseia dos Tontos, de Sebastián Borensztein, com os Darín, pai e filho, Ricardo e Chino, e o brasileiro Pacificado, que o norte-americano – texano – Paxton Winters realizou numa favela do Rio. Apesar das diferenças, são filmes que abrem janelas muito interessantes, e ricas, e complexas, para se entender um pouco como andam as relações na América Latina. Tremores integrou a programação do Panorama, em Berlim, em fevereiro. La Llorona esteve em Veneza. O primeiro foi definido como o drama gay do autor. Um homem casado, família de bem (e bens), sai do armário e assume a relação com outro homem. A família, que frequenta uma igreja evangélica, recorre ao pastor para fazer a cura gay. O filme é forte como seu tema exige. La Llorona marca uma mudança – em termos – para o autor. Sendo sua incursão pelo cinema de gênero, o terror, representa a tentativa de fazer um cinema com maior apelo ao grande público. É ótimo.

Terror político. De cara, a garota pergunta aos pais – por que estão falando mal de vovô na internet? Vovô é um ex-militar inspirado num personagem real. Foi um monstro, torturador, o terror dos inimigos. Possui um segurança – o ator que faz o gay (des)enrustido de Tremores, Juan Pablo Olyslager. Chega essa nova doméstica, Maria Mercedes Coroy, a virgem consagrada de Ixcanul. Será ela a libertar os fantasmas do passado, que vão assolar a casa e desestruturar tudo – a mente do avô, a família como um todo? Justamente, a família – está no centro das preocupações de Bustamante. Pelos corredores da casa, ouvem-se os soluços da ‘chorona’, a mãe que matou os filhos e carrega sua maldição pela eternidade. É um outro foco para a figura que, este ano, já produziu um (bom) spinoff/ derivado da série Invocação do Mal.

A Odisseia dos Tontos concorre à indicação, pela Argentina, para o Oscar. Logo na abertura, Ricardo Darín pergunta o que aconteceria se os ‘tontos’ se cansassem de ser explorados – pelo ‘sistema’ – e reagissem? Como no episódio de Relatos Selvagens, ele e um grupo põem para quebrar e explodem o mundo. Bem divertido, e é muito bom ver pai e filho, Ricardo e Chino Darín, contracenando. Pacificado já foi descartado como mais do mesmo. Trata-se de uma leitura equivocada. É a subversão do mesmo – um outro olhar para o tema da luta pelo poder nas comunidades. A grande questão – pacificado é o morro, ou o personagem de Bukassa Kabengele? Outro filme forte, e com ótimo elenco.

As sessões na Mostra

  • La Llorona

Segunda-feira, 28/10. ESPAÇO ITAÚ DE CINEMA - FREI CANECA 2. 17:40

Terça-feira, 29/10. CINESALA. 19:50

Quarta-feira, 30/10. CINEARTE 1. 21:40

  • Tremores

Segunda-feira, 28/10. ESPAÇO ITAÚ DE CINEMA - FREI CANECA 3. 21:20

Terça-feira, 29/10. ESPAÇO ITAÚ DE CINEMA - AUGUSTA SALA 1. 20:00

  • A Odisseia dos Tontos

Segunda-feira, 28/10. ESPAÇO ITAÚ DE CINEMA - FREI CANECA 2. 21:10

Terça-feira, 29/10. ESPAÇO ITAÚ DE CINEMA - FREI CANECA 1. 21:10

Quarta-feira, 30/10. CINEARTE 1. 19:15

  • Pacificado

Segunda-feira, 28/10. ESPAÇO ITAÚ DE CINEMA - AUGUSTA SALA 1. 18:10

Veja os trailers

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‘Parasita’ e ‘Crônica de Um Industrial’ têm muito a ver com a loucura do ‘Coringa’

Os filmes, que estão em cartaz na 43ª Mostra Internacional de Cinema, são ótimas opções para quem busca refletir sobre o atual estado do mundo

Luiz Carlos Merten, O Estado de S. Paulo

27 de outubro de 2019 | 07h00

Você pode até não concordar, mas ouvem-se coisas divertidas, intrigantes, no ambiente da Mostra. Um espectador cravou que Coringa, de Todd Phillips, é o Bacurau que deu certo – certamente alguém que não admira o belo filme de Kleber Mendonça Filho e Juliano Dornelles. O júri do Festival de Cannes, em maio, presidido por Alejandro González-Iñárritu, deve ter pensado a mesma coisa, ao outorgar a Palma de Ouro a Parasita, do sul-coreano Bong Joon-ho. Pois se pode muito facilmente estabelecer pontes entre Parasita, a grande atração deste domingo, e Coringa, que segue sua carreira triunfal nos cinemas.

Parasita estreia nas próximas semanas, o que significa que você talvez não precise correr para ver o filme na Mostra, podendo dar preferência a outros programas sem garantia de lançamento. Mas o Joon-ho, mesmo não sendo tão bom quanto The Host/O Hospedeiro e Okja, no fundo pode muito bem ser definido como uma soma dos dois, mas com monstros humanos. Conflitos sociais – a luta de classes? – na Coreia. Uma família pobre, que habita o subsolo, outra rica.

Simetria perfeita – ambas são formadas por pai, mãe e um casal de filhos. Na mansão que tem um compartimento secreto, há também uma escada, e ela se torna quase uma personagem à parte. Os pobres ocupam espaço na casa dos ricos. O filho e a filha como babá e instrutor das crianças. O pai pobre vira motorista, a mãe vem para ocupar o lugar da governanta. Você pode até pensar que são os parasitas óbvios. Joon-ho não pensa exatamente assim. Os ricos precisam dos pobres, e os parasitam. Os ricos precisam de gente para explorar.

Essa descoberta leva a uma reação (olha o spoiler!) no desfecho explosivo de Parasita, mas é no Coringa de Phillips – que venceu o Leão de Ouro em Veneza, outorgado pelo júri presidido por uma diretora que representa o suprassumo do cinema autoral, Lucrecia Martel – que os excluídos vão à forra e instalam o pandemônio em Gotham City. O que os dois filmes têm em comum é a crítica ao sistema socioeconômico baseado na exclusão, ou vá lá que seja – na desigualdade. 

São filmes importantes, mas a 43.ª Mostra, ao homenagear Luiz Rosemberg Filho, está aí para lembrar que, em 1978 – há 41 anos –, ele já advertia sobre o perigo em Crônica de Um Industrial. O filme com Renato Coutinho e a futura escritora Ana Maria Miranda – participação especial do lendário Wilson Grey – nunca teve lançamento comercial nos cinemas, pois entrou no índex das obras proibidas pelo regime militar. Para as novas gerações de espectadores, poderá ser uma descoberta.

Rosemberg Filho, um autor exigente, adquiriu fama de ‘maldito’. Morreu em maio, aos 75 anos. Longe de ser uma relíquia, Crônica chega a ser escandalosamente atual. Um empresário nacionalista morre e o filho, seu herdeiro, liquida a fábrica do pai, vendendo-a a troco de banana para uma multinacional. Na época, e deve ter sido o estopim da rejeição ao filme, o diretor incorporou ao relato imagens e depoimentos de operários que reclamavam das duras condições de trabalho nas obras do metrô do Rio. De nada adiantou Rosemberg Filho ter criado um país fictício – San Vicente. Como no Eldorado de Glauber Rocha, Terra em Transe, todo mundo sabia de quem e do que ele estava falando. Para evitar o panfleto, ele incrementa o drama fazendo seu protagonista oscilar entre a mulher e a amante. Uma se suicida e a outra o abandona. 

Se o tema é forte, a narrativa é inovadora. Rosemberg filho foi um mestre do experimentalismo e da invenção, e outra prova disso foi o brilhante Guerra do Paraguay, de 2015.

O domingo é pródigo em mais obras merecedoras de atenção. Dois filmes de Berlim, em fevereiro, inscrevem-se sob o signo da provocação. Em Deus É Mulher, Seu Nome é Petúnia, de Teona Strugare-Mitevskaz, da Teona Strugare-Mitevskaz,, uma mulher vence uma disputa esportiva, no contexto de um evento religioso que só os homens poderiam ganhar. Vai presa, e inicia uma guerra contra o poder político e religioso.

Monos, do colombiano Alejandro Landes, propõe outro tipo de guerra. Um grupo de jovens recebe treinamento militar. A disciplina é dura e o diretor, que admitiu as influências de Ciro Guerra e Francis Ford Coppola, aproxima-se curiosamente de um livro cultuado de William Golding que Peter Brook transformou em filme idem, O Senhor das Moscas. Na trama de Landes, os membros da chamada ‘Organização’ devem vigiar uma prisioneira e uma vaca leiteira. A morte acidental da vaca, seguida de um ataque inimigo, leva os jovens a se embrenharem na selva, onde seu senso de disciplina (e lealdade) será colocado à prova.

E ainda tem Hálito Azul, o documentário de Rodrigo Areias sobre uma comunidade de pescadores nos Açores. Híbrido de documentário e ficção – adaptada de Os Pescadores, de Raul Brandão –, o filme foi rodado na vila da Ribeira Quente, onde o professor prepara a montagem de uma peça com seus alunos.

O filme possui um encanto todo particular. Ao mesmo tempo em que discute como o vulcão vizinho compromete a pesca local – ecos de Stromboli, de Roberto Rossellini –, passa o ritmo do tempo nas ondas, no vento. Para quem entra no clima, é mágico. 

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43ª Mostra de São Paulo: um guia para você escolher o que maratonar na última semana

Política, música, cinebiografias, clássicos: o 'Estado' preparou um roteiro com alguns dos filmes que seguem em cartaz nos cinemas paulistas

Rayssa Motta, Especial para O Estado de S. Paulo

24 de outubro de 2019 | 08h00

A 43ª edição da Mostra Internacional de Cinema de São Paulo exibe, até 30 de outubro, mais de 300 filmes nacionais e estrangeiros. Entre obras clássicas e inéditas, animações e documentários, o festival traz um line-up para todos os gostos. O Estado preparou um guia para ajudar os cinéfilos a encontrarem as melhores opções para maratonar no festival.

 

1 - Para quem gosta de política 

Grandes temas da política nacional aparecem como pontos de partida em documentários e ficções. Episódios recentes dominam a programação, como a onda de protestos que marcaram o mês de Junho de 2013, tema de O Mês Que Não Terminou, de Francisco Bosco e Raul Mourão. O documentário analisa as manifestações, seus desdobramentos e consequências, como a Operação Lava Jato, a crise do lulismo, o impeachment de Dilma Rousseff e a eleição de Bolsonaro.

A  Operação Lava Jato é abordada ainda, por um viés muito particular, em Três Verões, dirigido por Sandra Kogut. O longa é protagonizado por Regina Casé, que vive a governanta da casa de veraneio de um executivo preso pela Polícia Federal. O filme conta ainda com Otavio Müller e Gisele Fróes no elenco.

A tensão política das eleições de 2018 é assunto dos documentários Abismo Tropical, de Paulo Caldas, e Outubro, codirigido por Loiro Cunha e Maria Ribeiro. Este último traz entrevistas com personalidades como a candidata a vice-presidente Manuela D’Ávila e a psicanalista Maria Rita Kehl.

Para quem prefere episódios históricos, A Jangada De Welles, de Petrus Cariry e Firmino Holanda, é uma boa opção. O longa evoca memórias da ditadura do Estado Novo, da Segunda Guerra Mundial e da luta de pescadores cearenses por direitos trabalhistas e moradia.

 

2 - Para ficar por dentro do que acontece pelo mundo

Uma dobradinha sobre as manifestações estudantis que se espalharam pela França em 1968 foi formada com Depois De Maio, do renomado Olivier Assayas, e Nossas Derrotas, de Jean-Gabriel Périot.

Para os curiosos sobre os grandes conflitos da humanidade, as sugestões são O Pássaro Pintado, de Václav Marhoul, e Meu Nome É Sara, de Steven Oritt, que contam histórias de jovens judeus na Segunda Guerra Mundial. Há ainda Joana D’Arc, de Bruno Dumont, sobre a Guerra dos Cem Anos, Crianças Não Brincam de Guerra, de Fabiano Mixo, sobre a Guerra Civil de Uganda, e Papicha, de Mounia Meddour, sobre a Guerra Civil na Argélia.

A visão problemática que se formou sobre a África a partir de um ponto de vista eurocêntrico é tema de O Espelho Africano, dirigido pelo suíço Mischa Hedinger. Há ainda Carteiro, de Emiliano Serra, sobre a crise econômica vivida pela Argentina nos anos 1990, e Até Logo, Meu Filho, de Wang Xiaoshuai, para entender as mudanças políticas e sociais vividos pela China ao longo dos últimos 30 anos.

 

3 - Para saber mais sobre grandes personalidades

Com cinebiografias para todos os gostos, a Mostra de São Paulo é um prato cheio para os curiosos sobre personalidades do Brasil e do mundo. 

Se o assunto são os grandes nomes do cinema, as dicas são Babenco - Alguém Tem Que Ouvir o Coração e Dizer: Parou, dirigido por Bárbara Paz e premiado no Festival de Veneza, e Andrei Tarkovski: Uma Oração de Cinema, do filho do cineasta, Andrey A. Tarkovski. Em comum, os documentários têm a presença de pessoas próximas dos retratados na direção, responsável pelo ar intimista das produções. 

Para fãs de cultura geek, a indicação é o documentário de Gilles Penso sobre Phil Tippett, animador especializado em stop motion que deu vida a criaturas inesquecíveis ao longo da carreira: de Jabba the Hutt aos insetos gigantes de Tropas Estelares

A cinebiografia do boxeador Acelino Freitas, o Popó, dirigida por Sérgio Machado e Aly Muritiba, também faz parte da programação. O longa foca no relacionamento e rivalidade do atleta com o irmão, Luis Claudio, que também seguiu carreira no esporte. 

Há ainda duas cinebiografias protagonizadas por ativistas na luta contra a homofobia. A ativista trans Indianara é retratada no documentário que leva o seu nome, dirigido por Aude-Chevalier Beaumel e Marcelo Barbosa, e as obras do artista queer chileno Pedro Lemebel são resgatadas em um longa-metragem produzido com imagens de arquivo e dirigido por Joanna Reposi Garibaldi.

 

4 - Para fugir dos filmes cult

Nem só de produções alternativas vive a Mostra de São Paulo. O destaque é Depois A Louca Sou Eu, de Julia Rezende. No longa, baseado no livro homônimo de Tati Bernardi, Débora Falabella vive uma escritora que sofre de crises de ansiedade e precisa lidar com uma mãe superprotetora. 

Entre as comédias estrangeiras, estão A Maratona De Brithany, de Paul Downs Colaizzo, Aurora, da finlandesa Miia Tervo, De Quem É o Sutiã?, de Veit Helmer, e Saint Francis, de Alex Thompson.

Uma opção para os pequenos é o live-action de Turma Da Mônica, dirigido por Daniel Rezende.

 

5 - Para os apaixonados pela animação

A 43ª Mostra de São Paulo traz filmes de animação para todas as idades. Com classificação livre, A Fantástica Viagem De Marona, Ninja Xadrez e Osmar, A Primeira Fatia Do Pão de Forma são boas opções para um programa em família.

Os Olhos De Cabul e Impunidade Zero exploram o gênero para falar sobre temas políticos. Este último, mistura animação e documentário para discutir a impunidade no uso da violência sexual como arma de guerra.

 

6 - Para quem curte inovação

Com 19 obras de realidade virtual gratuitas, a Mostra de São Paulo traz um panorama da produção recente em VR. Entre exibições está A Linha. Vencedor do Festival de Veneza como melhor experiência de realidade virtual, o curta-metragem faz o expectador mergulhar na São Paulo da década de 1940. Há ainda obras ambientadas na Groelândia, Kuait e até em Marte. Os filmes são exibidos em centros culturais e em unidades do Sesc.

 

7 - Para os fãs de música

Os cantores Chorão, Clementina de Jesus e Arnaldo Antunes são tema de documentários que retratam a trajetória desses artistas. Os campeonatos performáticos de poesia falada, conhecidos como Poetry Slams, também ganham as telas da mostra. 

Além deles, o álbum Amazing Grace, de Aretha Franklin, que se tornou o disco gospel mais bem-sucedido de todos os tempos, é revisitado no documentário que leva o nome do LP. 

 

8 - Para os amantes dos clássicos

O filme mais antigo da mostra é de 1919. Boa opção para os fãs de old movies, O Gabinete Do Dr. Caligari, do alemão Robert Wiene, se tornou um dos ícones do movimento expressionista alemão. O longa conta a história da chegada de um misterioso showman a uma pequena cidade europeia.

Símbolo da Era de Ouro de Hollywood, O Mágico De Oz, de Victor Fleming, é outro destaque entre os clássicos do festival. O filme mostra a jornada de Dorothy na volta para casa após ter sido levada por um tornado para um mundo mágico. 

 

9 - Para não perder os premiados

Não raro, filmes premiados em festivais internacionais acabam ficando de fora do circuito comercial de cinemas. Para não perder a oportunidade de assistir os laureados na tela grande, o Estado selecionou os sucessos de crítica que não ainda têm data de estreia prevista no Brasil.  

Entre eles está Monos, de Alejandro Landes, premiado nos festivais de San Sebástian e Sundance. O filme conta a história de oito soldados adolescentes que se organizam em um grupo rebelde e mantém uma turista americana refém.

Outra opção é Fim De Estação, de Elmar Imanov, vencedor do Prêmio da Crítica no Festival de Roterdã, que mostra o drama de uma família em colapso. Leve-me Para Algum Lugar Legal, de Sebastian Brameshuber, levou o Prêmio do Júri no mesmo festival e conta a jornada de uma jovem em busca do pai que nunca conheceu. 

Há ainda Parasita, de Bong Joon Ho, primeiro filme sul-coreano a vencer a Palma de Ouro no Festival de Cannes. O filme narra a luta de classes no país a partir da relação entre duas famílias. Esse tem data de estreia prevista: o público poderá assistir Parasita nos cinemas a partir de 7 de novembro.

A Mostra de Cinema de São Paulo é realizada em diversos espaços. Veja a programação e os horários.

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‘O Diabo Entre as Pernas’ e ‘Joana D’Arc’ misturam profano e sagrado em obras sublimes

Em exibição na 43.ª Mostra de Cinema, filmes compensam temáticas difíceis e ritmo lento, com uma estética e direção bem apuradas

Luiz Carlos Merten, O Estado de S. Paulo

24 de outubro de 2019 | 07h00

Outra noite de gala na Mostra. Depois do tapete vermelho para Fernanda Montenegro, no Theatro Municipal, na exibição de A Vida Invisível, de Karim Aïnouz, a 43.ª edição do evento destaca nesta quinta, 24, no início de sua segunda semana, a participação do israelense Amos Gitai. Após a exibição da versão restaurada de Laços Sagrados – Kadosh, o vencedor do Prêmio Leon Cakoff participará de um debate com o público. Grande Amos. Além de amigo da Mostra, é amigo do palestino Elia Suleiman, que receberá o prêmio Humanidade e terá seu novo longa (O Paraíso Deve Ser Aqui, premiado em Cannes, em maio) exibido na sexta, 25.

A Mostra promove o diálogo. É da sua natureza, está no seu DNA. Com um total de 327 filmes de 65 países, privilegia a produção brasileira, com cerca de 60 títulos. Pode ser arriscado cravar a afirmação que você vai ler agora, mas nesta quinta, talvez, teremos os melhores filmes até agora. Dois entre 327? São filmes em tudo diferentes e que, no entanto, têm muito em comum. O mexicano O Diabo Entre as Pernas, de Arturo Ripstein, em preto e branco, e o francês Joana D’Arc, de Bruno Dumont, em cores. Um casal de velhos no inferno do desamor e as batalhas da “pucelle”, a donzela que foi queimada como herege na fogueira e reabilitada como santa da Igreja Católica. O profano e o sagrado. O casal degrada-se para fazer sua ascese. A donzela, sobre-humana, tem certeza até quando parece duvidar.

Embora sem o respaldo da Academia de Hollywood, Ripstein compete com Carlos Reygadas pelo título de maior cineasta mexicano vivo. Não faz filmes de Oscar, como Alejandro González Iñárritu, Guillermo del Toro e Alfonso Cuarón. Sua pegada é muito mais intensa. Com roteiro da habitual Paz Alícia Garciadiego, sua mulher, o diabo entre as pernas é o sexo que consome um casal de velhos. Ele tem uma amante, agride verbalmente a mulher, que foi, no passado, uma espécie de bela da tarde. Fazia sexo com vários homens, todos os homens. Por prazer, não dinheiro. E agora ela mantém o ardor, o fogo entre as pernas. O casal vive nessa casa como dois estranhos. E tem a doméstica, uma jovem que poderia ser filha deles, e que interfere na relação.

Uma mulher em chamas. A exacerbação do desejo e da violência. Ripstein fez o seu Império dos Sentidos, sem sexo explícito, mas com muito implícito. Fez também, de certa forma, o seu Roma – que a Academia não vai premiar. É muito forte. Demais. Ripstein e o melodrama. Ele subverte cânones do gênero com seu cinema ‘hiper’ (realista ou naturalista?). Em vez do mar bravio no desfecho do Cuarón, a tormenta é interna, dentro da casa. O desejo aplaca-se? Eis a questão.

Joana D’Arc. Bruno Dumont já havia feito, em formato musical, Jeanette, sobre a infância de Joana D’Arc. Jeanette e a vocação que impulsiona a menina de Orleans a repor o delfim no trono da França, disputado pelos ingleses. Dumont mantém a atriz – Lise Leplat Prudhomme –, mas, desta vez, abre mão do musical, exceto por quatro canções que são pontuais dentro do filme. Uma delas é interpretada pelo próprio compositor Christophe, metamorfoseado em grande inquisidor da donzela. A última é cantada por Lise, antes da fogueira – que Dumont filma de longe, na natureza. Se o primeiro filme era Jeanne e as vozes, o segundo é Joana e as batalhas, mas elas não aparecem, somente suas consequências. O máximo que Dumont se permite é filmar do alto, em plongê, uma parada militar. 

Para extrair de Juliette Binoche sua interpretação sublime como Camille Claudel, em 2015, Dumont mostrou-lhe, e discutiu muito com ela, o martírio de Falconetti, no clássico de Carl Theodor Dreyer, de 1928. Conta a lenda que Dreyer enlouqueceu a atriz para que ela desse a dimensão que ele queria à sua Joana D’Arc. Houve muitas Joanas depois – Ingrid Bergman, nos filmes de Victor Fleming e Roberto Rossellini; Jean Seberg, no de Otto Preminger; Milla Jovovich, no de Luc Besson; Sandrine Bonnaire, no díptico de Jacques Rivette. Dumont conclui seu díptico com Lise, uma pré-adolescente.

No filme, os inquisidores a tratam como ‘enfant’, criança. Ela os exaspera com seu discurso. O silêncio de Deus substitui as vozes, mas ela mantém o voto. Libertar a França dos ingleses, dar o trono a quem é de direito. Desafia a Igreja, o rei. Dumont lixa-se para o anacronismo do filme, ou para a acuidade histórica. Sua Jeanne é um tanto intemporal, e ele se interessa pelo o que essa garota que lutou feito homem e atravessou os poderes temporal e religioso pode significar para o público de 2019. Em vez da exacerbação do desejo de Ripstein, a sublimação. Ao fogo do desejo, o da purificação e do conhecimento. Garota em chamas.

Muita gente saiu durante a sessão de Jeanne/Joana D’Arc na terça-feira à noite. Espectadores também abandonaram, à tarde, a sala de exibição do Ripstein. São grandes filmes, mas não são fáceis. Exigem do público para entregar sua particular satisfação estética. Não são exatamente lentos, mas possuem um tempo, o tempo deles. Para quem entra no clima, o resultado é divino.

 

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Construindo pontes com o cinema

O produtor Noberto Pinheiro Jr. fala sobre 'Abe', produção brasileira falada em inglês que esteve no Festival de Zurique, e 'Pacificado', dirigido por um americano no Rio e vencedor da Concha de Ouro em San Sebastián

Mariane Morisawa, especial para O Estado

23 de outubro de 2019 | 17h36

ZURIQUE – O produtor brasileiro Noberto Pinheiro Jr. passou pelo 15º Festival de Zurique como representante de Abe, primeira produção em inglês de Fernando Grostein Andrade, rodada em Nova York. Mas tinha outro motivo para celebrar: acabava de vir do Festival de San Sebastián, em que Pacificado, rodado pelo americano Paxton Winters no Rio, tinha levado a Concha de Ouro. “Foi uma enorme surpresa”, disse Noberto Pinheiro Jr. em entrevista ao Estado, em Zurique. Ambos estão na programação da Mostra Internacional de Cinema de São Paulo

Abe é um projeto antigo e do coração de Fernando Grostein Andrade, filho de mãe judia e pai católico. “Ele se inspirou em sua própria história”, disse Pinheiro Jr., que entrou na produtora Spray durante a pré-produção do longa, que tem coprodução da Gullane.

No filme, rodado em Nova York, o protagonista, interpretado por Noah Schnapp (de Stranger Things), é filho de uma judia e de um palestino muçulmano e tem dificuldades de navegar as diferenças culturais e religiosas que frequentemente provocam brigas entre seus avós. Fã de comida, ele acha que esse é o caminho da conciliação, principalmente depois de descobrir as fusões feitas pelo chef Chico (Seu Jorge).

“A decisão de fazer um filme em inglês é que o nosso conteúdo viajasse mais”, explicou o produtor. “Foi desafiador rodar em Nova York, que conhecíamos de visitar, mas não fazendo cinema”, disse. “Mas aprendemos muito e agora sabemos como é.”

O filme, que passou no Sundance Festival em janeiro, é o primeiro de uma série, ele espera. A Spray tem outros 9 projetos prioritários em inglês. Esse novo caminho também ajuda num momento em que o futuro do audiovisual brasileiro está incerto. “E a gente é muito favorável a co-produzir. Gostamos de colaborações.”

No caso de Pacificado, era quase o oposto: um americano rodando em português, no Rio. Paxton Winters morou anos no Morro dos Prazeres, onde filmou, chegando a abrir uma escola de audiovisual. A produção usou várias pessoas da comunidade na equipe e no elenco. O filme chegou até Noberto Pinheiro Jr. quando os produtores Marcos Tellechea e Paula Linhares o procuraram, com dificuldades de financiar a pós-produção, já na esteira da crise no audiovisual.

“Decidi investir dinheiro próprio, meu e da minha esposa”, disse Pinheiro Jr., explicando que a Spray entrou como produtora associada mais no final do processo, assim como o cineasta Darren Aronofsky. “Investi porque achei que o filme tinha potencial por contar uma história de favela por um ângulo diferente”, disse.

Em Pacificado, Tati (Cássia Nascimento), de 13 anos, tenta se conectar com o pai, Jaca (Bukassa Kabengele), ex-chefe do tráfico na comunidade, que acabou de sair da prisão, bem durante a Olimpíada no Rio e o projeto de “pacificação” das favelas. “O longa passa pelo tráfico, mas essa não é a trama. É um filme de amizade, no fim das contas”, disse Pinheiro Jr. “Eu costumo dizer que a gente vive um apartheid em 2019. E acho importante humanizar a favela, porque tem pessoas ali tentando fazer as coisas direito, só que elas não têm oportunidade”, completou o produtor, enfatizando que tanto ele pessoalmente quanto a Spray querem fazer apenas projetos com relevância e impacto social. 

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Filme português 'Technoboss' conta com humor a crônica de um idoso apaixonado

Na 43.ª Mostra de Cinema de São Paulo, a obra do diretor português João Nicolau traz no papel principal a estreia do ex-jurista Miguel Lobo Antunes, de 70 anos, no cinema

Guilherme Sobota, O Estado de S. Paulo

23 de outubro de 2019 | 19h36

Muito de Tecnhoboss — a comédia de tons absurdos do diretor português João Nicolau, com sessões na 43.ª Mostra — é sobre a ausência de comiseração que o filme direciona para seu personagem principal, Luís Rovisco (a estreia de Miguel Lobo Antunes, 70 anos, no cinema). Divorciado e à beira da aposentadoria (ou da reforma, como dizem os portugueses), Rovisco poderia ser um personagem melancólico, mas o roteiro inclui na sua história tantos elementos únicos que o filme se transforma em uma crônica de amor e compaixão.

Com dificuldades para lembrar-se de entregar relatórios da empresa para a qual trabalhou a vida toda (a SegurVale – Sistemas Integrados de Controlo de Circulação), Rovisco dirige (conduz) entre regiões de Portugal, cantando canções do heavy metal à salsa espanhola, ao volante ou não. Um clima de musical se instala, mas o humor natural de Lobo Antunes (jurista e produtor cultural aposentado, aqui em seu primeiro filme) se mistura ao do personagem, nunca retratado como um pobre coitado.

Outros elementos dão forma ao filme: Rovisco sofre com a morte de seu gato companheiro, Napoleão, se complica com avanços tecnológicos diversos, lida com uma dor no joelho e com um filho com casamento confuso, mas também encontra afeto com o neto e com o chefe-amigo, o britânico Peter Vale (que nunca aparece na tela, embora esteja em diversas cenas do filme). Mas sua missão é mesmo alcançar Lucinda (Luísa Cruz), recepcionista de um hotel que ele atende com frequência, um amor de anos atrás perdido no tempo e que agora ele fará de tudo para recuperar.

Lobo Antunes (irmão de Antonio, o célebre escritor) também se aposentou recentemente, em 2017, e foi depois de o diretor João Nicolau vê-lo dançar em uma festa que o convite para participar do casting chegou. Em São Paulo para apresentar o filme na Mostra, o ator novato demonstra na vida real a simpatia do personagem, embora seja menos carrancudo. 

“Foi muito difícil, mas esse filme salvou a minha vida”, diz. “Não tinha experiência nenhuma de ator. Mas João é muito amigo de meu filho e eu gosto muito dos filmes dele. Ele é quem arriscava mais, porque se o ator fizesse um mau papel, o filme vinha para debaixo.”

Lobo Antunes conta que sua principal preocupação durante as filmagens era não esquecer suas falas e seguir as orientações do diretor, e que só agora, após as primeiras exibições do filme, é que começa a teorizar sobre os caminhos peculiares do personagem. “Não fazia ideia nenhuma do que aquilo custava, de esforço físico, mas eu gosto de trabalhar”, explica.

“O ator tinha que ter determinados tipos de características, tinha que ter uma figura marcante, preferencialmente saber cantar”, explica o produtor Luís Urbano, também em São Paulo para a Mostra. “A ideia era contratar um ator profissional, mas João decidiu abrir o casting, e quando eles se encontraram nessa festa, pensou que poderia ser este o caminho.” 

Technoboss estreou no Festival de Locarno, na Suíça, e as primeiras resenhas comentaram semelhanças no humor do personagem com as atuações de Jacques Tati (1907-1982), mímico e ator francês, mas o produtor arrisca que o personagem (e o tom do filme como um todo) é mais inspirado pelo cineasta finlandês Aki Kaurismäki e pelo ator e comediante americano Larry David.

Além das músicas, que permeiam o filme e emprestam-lhe frescor e bom humor, outro aspecto salta aos olhos: em algumas cenas, um cenário é montado com banners e tecidos, dentro de estúdio, acrescentando ali outra camada do humor surreal. Uma solução criativa para um problema logístico e financeiro, segundo o produtor: filmar as viagens em uma estrada real seria um impedimento definitivo.

Se Tecnhoboss não se alinha diretamente à linha do humor português que na Mostra de 2018, por exemplo, exibiu o amalucado Diamantino, o filme faz escolhas ousadas o suficiente para divertir e emocionar cinéfilos de cá e de lá do Atlântico.

Exibições de Tecnhoboss na 43.ª Mostra de São Paulo

ESPAÇO ITAÚ DE CINEMA - FREI CANECA 1 | 24/10/19 - 17:20 - Sessão: 601 (Quinta)

ESPAÇO ITAÚ DE CINEMA - FREI CANECA 3 |30/10/19 - 15:00 - Sessão: 1078 (Quarta)

Veja o trailer de Tecnhoboss

TECHNOBOSS TLR PT from O SOM E A FÚRIA on Vimeo.

 

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