"Sinbad" navega entre diferentes tecnologias

Rodrigo Santoro entra mudo e sai calado de As Panteras Detonam. Thiago Lacerda fala muito, mas em compensação não aparece, já que é só dublador de Sinbad e a Lenda dos Sete Mares. A nova animação da DreamWorks, que estréia hoje, não é concorrente para o esplêndido Procurando Nemo, da Disney-Pixar. Não é páreo nem para Shrek, da própria DreamWorks, o estúdio criado por Steve Spielberg e pelos produtores Jeffrey Katzenberg e David Geffen e que, por isso mesmo, leva as iniciais dos três: é DreamWorks SKG.Sinbad pode ter seus defeitos, mas não pode nem deve ser desqualificado como fantasia capaz de agradar a adultos e crianças. Talvez agrade mais aos adultos, se tiverem sido leitores da antiga Coleção Terramarear, da Editora Melhoramentos.Vamos logo dizendo que o desenho, lançado pela empresa United International Pictures só em cópias dubladas, tem justamente na dublagem um de seus maiores problemas. Thiago Lacerda até que não se sai mal ao emprestar a voz para Sinbad, mas a linda Giovana Antonelli, de O Clone, é tatibitate e não consegue transmitir um mínimo de emoção à empresa, ao interpretar, com os recursos da dicção, a princesa Marina. No original, Brad Pitt e Catherine Zeta-Jones emprestam a voz aos personagens românticos e o filme ainda tem Michelle Pfeiffer como a vilã Eris e Joseph Fiennes, de Shakespeare Apaixonado, como Proteus.Feita a ressalva negativa da dublagem, é bom ir logo ao que o desenho de Tim Johnson e Patrick Gilmore tem de bom. O cinema contou muitas vezes a história do marinheiro Sinbad, personagem das 1001 Noites. Aqui, ele começa como um sujeito ambivalente, do ponto de vista moral, mas termina vestindo a carapuça do herói, a ponto de arriscar a própria vida em defesa da amizade de Proteus, o príncipe que também oferece o pescoço ao fio do machado do carrasco, substituindo o amigo acusado de roubar o livro da paz. Na verdade, é tudo uma tramóia da vilã para afastar Sinbad de Proteus e matar esse último, mas ela não conta com a coragem e a dignidade inesperadas que resgastam o fanfarrão Sinbad de sua vida anterior, oferecendo-lhe a segunda chance, esse tema tão americano...Sinbad também não conta reencontrar a princesa por quem se apaixonou, mas de quem se afastou por achar que ela está prometida para Proteus. Por isso mesmo, ele vaga pelos sete mares, levando essa vida de aventureiro atraído pelo perigo que ajuda a preencher o vazio que lhe dilacera o peito. É um herói em crise, portanto, e confrontado com os temas do amor e da amizade.Essa figura, o herói que se sacrifica, é recorrente no cinema de aventuras. Aqui, há dois heróis que se sacrificam, Sinbad e Proteus, mas, no desfecho, quando as luzes da paz triunfam sobre a escuridão do caos, um deles (você sabe qual) fica com a bela princesa.Com seu herói tradicional, Sinbad e a Lenda dos Sete Mares difere bastante de Procurando Nemo e não apenas porque a história do segundo é mais centrada no drama familiar e, no fundo, humano, por mais que os personagens sejam peixes - um peixe covarde que precisa afirmar sua coragem para merecer o amor do filho. Há outro aspecto que também amplia o poço entre as duas animações. Nemo é produto da associação Disney-Pixar, recorrendo à tecnologia de ponta, gerada em computadores, para contar sua história. Não é que fosse impossível reproduzir a beleza e complexidade da vida submarina de outra maneira, mas o produtor John Lasseter e o diretor Andrew Duncan são os primeiros a garantir que seria muito mais difícil.Sinbad propõe um mix de diferentes tecnologias. Os personagens humanos são desenhados à mão, segundo o método artesanal tradicional. Tudo o mais - mares e monstros - é produzido no computador. O produtor Katzenberg diz que, desta maneira, um filme como Sinbad recolhe de diferentes fontes o que de melhor existe para criar sua fantasia. O resultado é apreciável, mas Nemo é muito melhor. Isso já se refletiu na bilheteria, nos EUA, onde o desenho da Disney-Pixar deu um banho no da DreamWorks SKG.

Agencia Estado,

14 de julho de 2003 | 16h03

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