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Simples e sofisticado

Diretor comenta o desafio de se filmar um road movie estrelado por um bebê

Flavia Guerra, O Estado de S.Paulo

06 Setembro 2013 | 08h57

Las Acacias. Um filme simples, em que pouco se fala, mas muito se observa. Em que é na contenção das palavras, nos olhares e nos pequenos gestos que reside a genialidade. Nesta história, a dificuldade de se comunicar revela o quão árduo é para um homem, solitário e refugiado em sua carcaça durona, a tarefa de se relacionar. A ação se passa praticamente toda na boleia de um caminhão. Em sequências e planos simples, a relação de Rubén, o motorista, com uma mulher e um bebê vai se descortinando.

Mas o que parece minimalista na tela esconde, nos bastidores, a complexidade de rodar esta história. Da lista de fatores que tornam uma filmagem complicada, Las Acacias preenchia vários itens. Filme de baixo orçamento, totalmente rodado na estrada, à mercê do clima, da movimentação do tráfego, cujo elenco contava com uma atriz amadora que contracenava com um ator profissional e um bebê. Ou melhor, três bebês.

Só mesmo a teimosia, ou a confiança, do diretor argentino Pablo Giorgelli para fazer com que o que se vê na tela seja o despojamento sofisticado de um dos melhores filmes latinos dos últimos tempos. “Foi muito difícil de ser feito. A concepção foi muito simples, mas conseguir a simplicidade foi complicado. Filmar em movimento já é difícil. E com dois bebês, um boneco, cachorros, clima... Por outro lado, eu estava tranquilo. Foi uma mescla de inocência, por não saber onde estava me metendo e, também, de confiança. Sempre senti que podia realizá-lo e não tive muitas dúvidas. Confiava que as coisas dariam certo”, contou o diretor ao Estado nesta semana.

Para não contar só com a confiança e a sorte, Giorgelli e equipe bolaram um esquema de engenharia curioso, mas funcional. “Construímos um set móvel. Um caminhão falso era rebocado por outro caminhão. E, em cima desse set móvel, que era um trailer, íamos nós da equipe e do elenco filmando. Enquanto isso, o time de apoio nos seguia, com os bebês reservas, as mães, equipamentos, profissionais etc. E havia carros que cuidavam da logística da estrada.”

Em meio a tantos aspectos, um fator era decisivo para o sucesso do filme: o bebê. Na trama de Las Acacias, o solitário e endurecido caminhoneiro Rubén (Germán de Silva), a pedido de seu chefe, dá carona a Jacinta (Hebe Duarte), mas descobre que ela, ao entrar no caminhão, traz um bebê, a pequena Anahy. É de Anahy o mérito de dar ao filme os momentos mais encantadores da história. Ou melhor, da pequena Nayra Calle Mamani, que tinha apenas quatro meses quando foi descoberta pela produção, que buscava originalmente gêmeas ou até trigêmeas. “Mas ela, Nayra, é tão especial, tem uma energia incrível e se comunica tão bem com o olhar que soube desde então que seria ela. Nós a encontramos apenas um mês antes de começar a filmar”, conta Giorgelli. “E ela é tão tranquila. Ao contrário do terceiro bebê, que chorava quase o tempo todo e que quase não entrou em cena, ela estava sempre de bom humor. Tem uma capacidade de se conectar muito bem com as pessoas.”

Mesmo sendo Nayra um bebê tranquilo, seu tempo e suas vontades foram determinantes para a dinâmica do trabalho no set. “Em questão de estratégia, a melhor coisa que fizemos foi planejar toda a filmagem em função do bebê. Ela era nosso Norte. Se ela queria parar, parávamos. Se ela queria seguir, seguíamos, sem apressá-la, sem incomodá-la, mas aproveitando sempre o que ela queria fazer”, explica o diretor, que ainda não era pai quando filmou, há alguns anos, seu primeiro filme. “Se ela queria parar, filmávamos com um boneco ou fazíamos cenas em que ela não estava.”

Hoje, pai de uma menina de 11 meses, ele se diz bem preparado para entender e lidar com uma criança. “Veja, tive ta

mbém uma menina. E aprendi que crianças não atuam. Crianças são. Esta foi uma grande lição que tirei do filme e que levo para minha vida de pai. Dei-me conta de que, às vezes, não podemos fazer nada. A única opção é observar e esperar seus momentos. E confiar que Nayra fosse fazer o que o roteiro fazia. E confio que minha filha vai ser uma menina feliz.”

 

 

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