Simples e despojado, longa 'Amorosa Soledad' é muito eficaz

Filme terno e sutil, parte ínfima da vigorosa produção do país vizinho que consegue chegar ao Brasil, vale o ingresso; veja o trailer

Luiz Zanin Oricchio, O Estado de S.Paulo

09 Março 2015 | 02h06

Soledad (Inés Efron) é uma graça de pessoa. Mignon, magrinha, emotiva, belos olhos assustadiços, um tanto hipocondríaca. Ela é a heroína da comédia romântica argentina Amorosa Soledad, de Victoria Galardi e Martín Carranza. A dupla joga com o significado do nome da protagonista. Soledad (solidão, em espanhol) ficou sozinha depois de ter sido abandonada pelo namorado, músico. Ao telefone, ela desabafa com uma amiga e diz que o ex-companheiro simplesmente alegou que não era momento de manter um relacionamento, etc. E ela, por sua parte, havia decidido tirar um ou dois anos de período sabático do amor. Queria estar só, agora por vontade própria, para, digamos assim, reencontrar-se.

A primeira coisa a notar é que este é um produto dos hermanos que dificilmente chega ao Brasil. Aliás, aporta por aqui parte ínfima da produção argentina, que supera os cem longas-metragens ao ano. Os nossos filmes também pouco atravessam a fronteira em sentido contrário, de modo que a ideia de uma espécie de Mercosul audiovisual ainda não passa de utopia. Os raros argentinos que aqui se apresentam são aqueles de prestígio intelectual, mas que mantêm diálogo com o público, ainda que segmentado. Filmes como os de Juan José Campanella ou Daniel Burman, por exemplo. Ou qualquer um que tenha Ricardo Darín no elenco, os chamados Darín's movies, um gênero à parte.

Bem, Amorosa Soledad pode ser vendido (e tem sido) como tendo Darín no elenco. Ninguém deve se iludir. Ele de fato está lá, mas numa rapidíssima participação especial. Faz o pai da protagonista, e a encontra às pressas na rua, apenas para dar a Soledad um pouco de dinheiro, um beijinho no rosto e a promessa de que precisam se encontrar um dia desses para colocar os assuntos pendentes em dia. Desse modo, ficamos sabendo que Soledad é filha de casal separado, que papai Darín já encontrou outra, bem mais moça que a anterior, e a anterior, mãe de Soledad, resolveu colocar silicone nos seios para dar um up não apenas nos próprios, mas na autoestima.

Soledad é sócia de um casal gay numa loja de decoração e, logo depois dos votos de celibato, ali conhece Nicolás (Fabián Vena), um arquiteto que se interessa por um espelho, mas, em especial, pela vendedora. Por acaso, ele tem o mesmo nome do outro Nicolás (Nicolás Pauls), o músico que a abandonou, para dar um tempo na relação.

O filme é isso e pouco mais. Não se trata de comédia para arrancar gargalhadas, mas para provocar um riso calmo e talvez uma sutil ternura na plateia. Há, nesse registro discreto, um quê do minimalismo platense, mais associado talvez ao cinema uruguaio que ao argentino. Mas são clichês. O argentino também gosta dessas "bromas", desses chistes em chave baixa, no modo de ironia, em especial vindos de um personagem autodepreciado como Soledad. Na verdade, ela é uma personagem paradoxal. Todo mundo gosta de Soledad - dos sócios aos vizinhos, das crianças aos adultos, mas ela mesma não se tem em alta conta.

Essa comédia poderia remeter a outras questões mais amplas, como a solidão urbana, a inadequação, as expectativas excessivas colocadas sobre os ombros das pessoas, etc. Mas evita generalizações. Tudo isso é contato através da trajetória minimalista de Soledad, neste filme incrivelmente simples e despojado e, por isso mesmo, muito eficaz. Diz muito, parecendo dizer pouco, ou quase nada.

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