Silvio de Abreu volta ao cinema com noir

A publicação do texto integral de uma minissérie feita para televisão há 14 anos pode suscitar dúvidas sobre os motivos que deram origem ao projeto: excentricidade editorial ou guia para novos dramaturgos? Boca do Lixo, de Silvio de Abreu, vai além das duas possíveis respostas. Pioneira no tratamento de temas considerados "fortes" para a televisão, a minissérie, escrita em 1989 e produzida um ano depois pela Globo, só agora é conhecida em seu texto integral, antes da tesoura que cortou partes dos seus dez capítulos. A publicação antecipa o filme que vai trazer o autor de volta à direção após um hiato de 23 anos (seu último filme foi Mulher Objeto).Ajuste de contas sobre as relações promíscuas entre capital e sexo, Boca do Lixo (Panda Books, 432 páginas, R$ 42,90) é mais que uma curiosidade antropológica: representou um passo importante para a televisão brasileira, na época ainda tímida no tratamento de transas interclassistas fora do casamento e relações amorosas entre pessoas do mesmo sexo. "Como no cinema noir, ninguém prestava na minissérie", brinca Abreu, entusiasmado com a perspectiva de voltar ao cinema.A minissérie lançou como atriz a modelo Sílvia Pfeiffer que, sete anos depois, escandalizaria o Brasil como parceira sexual de Christiane Torloni na novela Torre de Babel. Em Boca do Lixo, ela representou uma atriz do cinema erótico que, no ocaso da carreira, participa de peças de teatro ainda mais decadentes. Como nos filmes "trash" de Mark Robson (Vale das Bonecas), a atriz Cláudia (Sílvia Pfeiffer) conhece um ricaço (Reginaldo Faria) que a salva da miséria, casa-se com ele e tudo corre bem até a descoberta do "terrível" segredo do empresário. Foi justamente aí que a tesoura da Globo entrou em ação, cortando dois dos dez capítulos da minissérie.O primeiro capítulo termina com a mulher do industrial invadindo o escritório do marido e descobrindo fotos comprometedoras do "machão" interiorano ao lado do amante, além de revistas gay. A cena passou como um cometa, quase tão rapidamente como as tomadas das estripulias sexuais de Sílvia Pfeiffer com seu amante Tomás, um empreiteiro rústico (Alexandre Frota). Nas longas noites passadas em motéis vagabundos de São Paulo, o casal trama a morte do industrial que, por sua vez, tem um plano diabólico para fugir com o dinheiro do sócio industrial.A trama é folhetinesca, mas quem acompanha o noticiário político certamente vai identificar semelhanças com casos rumorosos que terminaram em tragédia. A referência, porém, ainda é o cinema hollywoodiano. Mais especificamente, o modelo é a novela americana dos anos 50 do século passado, algo como Peyton Place, de Grace Metalious, filmada pelo já citado Robson em 1961. Boca do Lixo elege igualmente uma cidade interiorana, revelando a podridão e a hipocrisia de uma sociedade intolerante e falsamente moralista. Abreu não produziu, contudo, um arremedo de Metalious. Mostrou como a sociedade brasileira foi assimilando o pior da cultura de provincianos americanos, fenômeno verificado principalmente no interior dos Estados mais ricos como São Paulo.A esse respeito, o crítico Luiz Carlos Merten, do Estado, que assina o prefácio da primeira edição de Boca do Lixo, observa que também as chanchadas da Atlântida consagraram uma estética da paródia "para exaltar/destruir o cinemão" que os americanos faziam nos anos 50. Abreu não torceu o nariz para esse olhar paródico. Ao contrário. Cruzou a "screwball comedy" (comédia maluca americana) com a chanchada em novelas como Guerra dos Sexos e A Rainha da Sucata. O resultado das duas novelas foi um espelho em que o público médio se viu refletido, sucateado, esvaziado. Colonizados riam da própria miséria.O próprio título da minissérie Boca do Lixo evoca um território de resistência à pasteurização da cultura brasileira pelo cinema americano. Assim era chamado um quarteirão nos Campos Elísios, próximo ao centro de São Paulo, há 30 anos, época em que atores de pornochanchadas cruzavam com prostitutas e rufiões na Rua do Triunfo, templo de produção de filmes baratos. Silvio de Abreu dirigiu um filme lá, em 1981, Mulher Objeto, sobre uma dona de casa insatisfeita que descobre o orgasmo sem a ajuda do marido. Desnecessário dizer que ela é o modelo da perversa Cláudia de Boca do Lixo, que erotiza toda uma cidade interiorana nesse cruzamento híbrido entre filme "noir" americano dos anos 40 e suspense-erótico dos anos 80 (Corpos Ardentes, de Lawrence Kasdan, é outro modelo). Com a volta de Abreu à tela grande, pode-se esperar uma atualização da minissérie à realidade brasileira, considerando que as pequenas cidades do interior hoje concorrem em sexo, crime e drogas com as metrópoles.

Agencia Estado,

30 de dezembro de 2003 | 12h11

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