Signos ocultos, a força das palavras e as obsessões de Stanley Kubrick em 'O Iluminado'

Filme que reestreia nos cinemas em cópia restaurada é considerado o melhor terror de todos os tempos

Luiz Carlos Merten, O Estado de S. Paulo

27 de fevereiro de 2014 | 19h35

Conta a lenda que Stanley Kubrick, famoso por seu perfeccionismo, precisou de apenas três tomadas na cena em que o sangue jorra do elevador em O Iluminado. Outras cenas tiveram de ser filmadas mais de 100 vezes, mas naquela ele se deu por satisfeito rapidamente. Detalhe – a tomada havia sido planejada durante quase um ano. Para que seu elenco tivesse noção do clima que pretendia alcançar, Kubrick fez com que os atores assistissem, inúmeras vezes, a três filmes – O Bebê de Rosemary, de Roman Polanski; O Exorcista, de William Friedkin; e Eraserhead, de David Lynch.

Após a retrospectiva de seus filmes na Mostra e o sucesso da exposição no Museu da Imagem e do Som, reestreia o longa que Kubrick adaptou do livro de Stephen King. O cineasta assediou o escritor durante longo tempo, até conseguir os direitos. Todo mundo sabe que o sonho de Kubrick – sua ambição –sempre foi fazer o filme definitivo de cada gênero. O Iluminado deveria ser o melhor terror de todos os tempos. Muitos críticos concordam que é. O próprio King nunca teve apreço pela versão de Kubrick, e chegou a adaptar o próprio livro.

Dizia que Kubrick não havia entendido nada. O mais provável – o certo – é que Kubrick tenha querido fazer outra coisa. No livro, a casa é a entidade do mal, que impulsiona o pai (Jack) a perseguir o filho (o iluminado), para que Danny fique, para todo o sempre, incorporado a suas paredes. King detestava, especialmente, a atuação de Jack Nicholson – achava que ele já começa o filme insano. O que queria era surpreender o leitor/espectador. Com aquele sorriso, Nicholson entrega o ouro rapidinho.

Cada vez mais especialistas – de semiótica, mas não apenas dela – investigam o cinema de Kubrick a partir de 2001, Uma Odisseia no Espaço, de 1968, para tentar identificar e expor os signos maçônicos com que o grande diretor recheou sua obra. Por que a obsessão pela maçonaria? Existe até uma teoria da conspiração segundo a qual Kubrick encenou para a Nasa a descida do homem na Lua – aquilo nunca teria ocorrido – e, depois, forçado a silenciar, não fez outra coisa senão distribuir evidências pelos filmes que foi fazendo.

Tudo isso parece absurdamente delirante, mas faz parte dos mitos de Kubrick – de O Iluminado e De Olhos Bem Fechados. Teorias conspiratórias à parte, a subida pela estrada até o hotel no Colorado é esplendidamente filmada, como também são as cenas nos corredores do hotel deserto, quando Danny começa a explorar o local. Jack (Nicholson) é um escritor que aceita o posto de cuidar do hotel deserto, fora da estação. Ele leva a mulher e o filho, aparentemente com o plano de usar o tempo ocioso para escrever um livro. Mas Jack enlouquece, e o livro todo, páginas e páginas, se resume a uma frase truncada.

Dois elementos, dois espaços – como os corredores –, são essenciais. A adega, que remete à cave em que Norman Bates esconde a mãe em Psicose, de Alfred Hitchcock, e o labirinto em que Danny, como Teseu na mitologia, tem de vencer o Minotauro. Algumas imagens fazem gelar até a alma – as gêmeas que atormentam Danny. Kubrick não acreditava em fantasmas. Seria a confirmação da vida após a morte. Não acreditava em Deus. Mas acreditava na dissolução da palavra como elo que une os homens. O filme é sobre isso.

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