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‘Sieranevada’ é um drama poderoso

Cenas de família, no filme do diretor romeno Cristi Puiu

Luiz Carlos Merten, O Estado de S.Paulo

14 Dezembro 2016 | 21h04

Foi em 2005 que Cristi Puiu fez história em Cannes, ganhando o prêmio da mostra Un Certain Regard e colocando o cinema romeno no mapa com o sucesso de A Morte do Sr. Lazarescu. Depois disso, a nova onda romena tem marcado presença na Croisette. Em 2007, Cristian Mungiu ganhou a Palma de Ouro por 4 Meses, 3 Semanas e 2 Dias e, em 2012, Mungiu, de novo, venceu o prêmio de roteiro por Além das Montanhas. Em 2008, Corneliu Poromboiu levou a Caméra d’Or com A Leste de Bucareste.Neste ano, em maio, havia forte presença romena na competição, com os novos filmes justamente de Mungiu e Puiu.

Na premiação , o júri presidido por George Miller fez sua escolha e privilegiou Mungiu, que recebeu o troféu da direção por Bacalauréat, dividido com o Olivier Assayas de Personal Shopper. Talvez devesse ter premiado Cristi Puiu por Sieranevada, que estreia nesta quinta, 15. O filme constrói-se em torno de uma mesa, mas não é nenhuma Festa de Família, como a de Tomas Vinterberg. A matriarca convoca todo mundo para uma celebração. São 40 dias da morte do patriarca. Cada um chega com seus problemas. Um dos casais tem de comprar uma fantasia da Disney para uma festa na escola da filha. Outra filha traz uma amiga que bebeu demais. Explodem velhos ressentimentos contra uma tia que serviu ao partido, durante o comunismo. E até uma teoria conspiratória sobre o 11 de setembro acirra os conflitos.

Todo cinema de Cristi Puiu coloca sempre uma questão do tempo. A Morte do Sr. Lazarescu se passava (quase) todo em tempo real, como forma de refletir sobre a ineficiência do sistema de saúde como herança do comunismo na Romênia. E Aurora, de 2010, também apresentado em Cannes, é sobre um dia na vida de um homem – um dia ‘normal’ que inclui dois (dois!) assassinatos. A grande originalidade de Sieranevada talvez não venha do diálogo brilhante nem do que ocorre enquanto as pessoas esperam. Há muita comida, está todo mundo ao redor da mesa, mas a matriarca insiste que se espere pelo religioso que vem oficiar a liturgia, pois também é de religião que se trata.

O tempo da espera. A vida num apartamento – e, mais que isso, num corredor. A força do filme vem dos longos planos-sequência e da peculiar posição da câmera, parada num ponto de onde se abrem várias portas – sala, cozinha, banheiro. Muitas vezes, a ação se passa fora do quadro, ouvida mais que vista e isso acentua o caráter claustrofóbico de que se revestem essas cenas de família. O filme dura cerca de três horas, mas antes que você duvide se vai valer a pena – sim, vale muito a pena. Sieranevada é muito bem escrito, dirigido, interpretado. Pode não ser ‘agradável’ ou ‘divertido’, mas aí é o problema da vida em família, em sociedade. A Romênia, por décadas submetida à ditadura da família Ceausescu, certamente não era e continua não sendo um paraíso no pós-comunismo.

Muita coisa é vista pelo ângulo do casal Lary/Laura e, quando o filme sai da casa, é para acompanhá-los numa disputa no estacionamento do bloco de apartamentos. Uma sociedade que, por tanto tempo privilegiou uma casta – os altos funcionários do regime –, não se moderniza impunemente. Em Cannes, Puiu explicou que ensaiou muito com os atores e filmou logo após o ataque ao Charlie Hébdo, em janeiro do ano passado. Há até uma referência no rádio, mas em romeno. Ele estava se sentindo muito para baixo. “Em geral, a posição da câmera é fundamental, porque expressa o ponto de vista do autor. Dizia a meu diretor de fotografia que não olhasse para os personagens, mas para os atores que um dia vão morrer. Não é um filme sobre a morte nem era Sr. Lazarescu. Filmo sempre para captar a vida. O mundo é que ficou um lugar cada vez mais sombrio e mortal.”

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