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'Sicario' reabre o front da guerra contra o tráfico

Longa de Denis Villeneuve com Emily Blunt está sendo apontado como provável candidato ao Oscar

Luiz Carlos Merten, O Estado de S.Paulo

09 de novembro de 2015 | 20h00

Há muito tempo não se via na produção de Hollywood um thriller tão intenso quanto Sicario – Terra de Ninguém. O longa de Dennis Villeneuve concorreu em Cannes, em maio. Sicario (Hitman, assassino de aluguel) é melhor que boa parte dos filmes premiados pelo júri dos irmãos Coen – parte deles esteve visível na Mostra (Dheepan, Chronic, etc.). Do júri de Cannes participava o ator Jake Gyllenhaal, que trabalhou em alguns filmes anteriores de Villeneuve. Pode ser que o júri tenha ignorado Sicario por isso, para não parecer que houve comprometimento. Bom para a integridade dos jurados, ruim para o filme.

Sicario começa de forma explosiva, com uma das cenas de ação mais excitantes já filmadas. Fotografia (de Roger Deakins) e música (a trilha eletrônica de Jóhann Jóhansson), direção e interpretação (Emily Blunt, mas também Benicio Del Toro) terão de estar no Oscar, se a Academia de Hollywood quiser fazer a coisa certa. O próprio filme credencia-se a ser finalista para o prêmio. Sicario reabre a vertente da fronteira mexicana para um novo capítulo da guerra contra o narcotráfico. Vale lembrar que há 15 anos, em Traffic, Steven Soderbergh também situou parte de sua ação numa geografia parecida, senão a mesma. De comum, os dois filmes também têm o ator Benicio Del Toro, que ganhou o Oscar de coadjuvante pelo Soderbergh.

Da ação inicial, no Arizona, Emily salta, como voluntária, para uma operação contra o cartel de Albuquerque. Durante boa parte, ela pergunta – “What’s going on?”, O que está acontecendo? Emily, que se chama Kate Macer, está ali porque o grupo especial integrado por Josh Brolin e Del Toro, necessita do aval da Swat para sua operação ‘encoberta’. Por mais durona que seja, é aqui que ela terá seu batismo de sangue. A ação é forte, mas não é o que mais interessa ao diretor. Villeneuve coloca questões éticas. É sempre assim em seu cinema. Emily vive pelas regras e isso se torna um incômodo para Brolin e o misterioso Del Toro. Aos poucos, são desvendados os motivos profundos do ódio visceral do segundo pelo mandante do cartel. Foi-se a ternura. Del Toro, que já foi o Che – e ganhou o prêmio de interpretação em Cannes –, endureceu-se brutalmente. Virou uma máquina de matar. Há uma cena dele numa mesa de refeição que pode chocar pela frieza. A vingança é um sentimento visceral. Kate resiste, não quer perder sua humanidade. E tudo se passa no entardecer, ou à noite, o que não apenas cria uma espécie de metáfora visual, como outra ação decisiva ocorre no sombrio túnel que atravessa a fronteira.

 

De cara, logo após a explosão inicial de violência, Kate é submetida a um interrogatório. Casada? Não. Filhos? Não. O único personagem que tem uma vida familiar é o policial mexicano. Há um duplo motivo para isso. Cria uma fissura dramática na blindagem de eficiência dos ‘heróis’ gringos, até porque não são heróis, e termina promovendo uma conversa parecida com a de Operações Especiais, o longa do brasileiro Tomas Portela que não obteve nas salas o retorno esperado pelo diretor. O próprio Sicario, que estreou em 23 de outubro – há pouco mais de duas semanas, em plena Mostra –, fez apenas 50 mil espectadores, pouco para o vulto da produção e o número de salas. Estreou com 45, o circuito ampliou-se para 77. De novo, como em Operações Especiais, a mulher adentra o universo viril. Há, em Sicario, a mesma dificuldade de ser policial honesto num meio violento e corrompido. Ter a arma na mão opera alguma coisa na cabeça das pessoas. É o tema de Villeneuve.

Cineasta canadense nascido em Trois-Rivières, há 48 anos, Villeneuve cursou a Universidade de Quebec, em Montreal, a mesma em que se formou Wajdi Mouawad. Seus primeiros créditos como diretor foram em episódios de séries documentárias na TV canadense. A base documentária alimenta seu trabalho e é forte em Sicario. Em 2010, realizou a adaptação de Incêndios e concorreu ao Oscar de filme estrangeiro. O sucesso internacional do filme ajudou a projetar ainda mais o dramaturgo que, como ator e diretor, se apresentou durante apenas três noites na semana passada, em São Paulo, com seu belo espetáculo Solos. Na entrevista que deu ao Estado, Mouawad, mesmo reconhecendo a importância do filme para a própria trajetória, fez severas restrições à adaptação. No limite, ele acha que o filme, mesmo bem feito, trai seu texto e a natureza da personagem.

Com Jake Gyllenhaal, Villeneuve fez Os Suspeitos e O Homem Duplicado, outra adaptação – de José Saramago. Na imprensa dos EUA, muita gente aposta que ele será indicado para o próximo Oscar por Sicario. As previsões o colocam como forte candidato com o Ridley Scott de Perdido em Marte. Por coincidência ou não, Villeneuve está em pré-produção do próximo projeto, ainda sem título, mas inspirado no cultuado Blade Runner de Scott. Será um remake, uma continuação? Untitled Blade Runner Project é daqueles filmes que estão sendo preparados a sete chaves, mas do qual, com certeza, você ainda ouvirá falar muito.

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