"Sibéria", de Nikita Mikhalkov, é lançado em DVD

Com "Sibéria", antes conhecido por "O Barbeiro da Sibéria", o russo Nikita Mikhalkov faz um filme meio destrambelhado, mas não isento de encanto. Já está nas locadoras como vídeo, e logo estará também como DVD. Passado um certo incômodo inicial, ele deixa-se ver, flui, é engraçado, às vezes, terno, outras, comove aqui e ali. Isso porque é - também - uma obra que muda de direção, e não apenas uma vez. Passa da comédia ao melodrama com extrema facilidade. Quando parece que se instalou de vez no registro dramático, volta ao humor. Um humor bem russo, que deixa evidente a mão do aristocrático e patriótico Mikhalkov.O título indica alguma coisa, uma paráfrase da ópera de Rossini, não quanto ao tema proposto por Beaumarchais, mas ao tom adotado por Mikhalkov. Operístico, quer dizer, destemido quanto a eventuais concessões grandiloqüentes, pouco preocupado quanto à verossimilhança, no sentido realista do termo. Não interessa a ele fazer um retrato tão aproximado quanto o possível do real, mas interpretar esse real pelo filtro dos sentimentos. Deforma e amplifica para que se expressem melhor. É um recurso.O enredo - ou deveríamos dizer, o libreto? - de "Sibéria" traz primeiro uma mulher de meia-idade escrevendo uma carta ao filho, que está ingressando na carreira militar. O cadete vive em 1905, mora nos Estados Unidos, é um fanático por Mozart, mas a história começou muito longe dali, 20 anos atrás, na velha Rússia czarista. Como se verá, a vida do cadete está estreitamente ligada à de Jane Callahan (Julia Ormond), que viaja a Moscou em companhia do pai, Douglas (Richard Harris), em 1885.Douglas é um inventor e tenta desenvolver uma poderosa máquina de cortar árvores, que batizou de "barbeiro da sibéria". Daí o título. Jane conhece um jovem soldado russo, Andrei Tolstoi (Oleg Menshikov) e apaixona-se por ele. Mas não pode se entregar de corpo e alma a Andrei porque precisa seduzir um general influente que pode financiar a máquina do pai. Há muito de maracutaia envolvida nessa trama radicalmente artificial. Ninguém é exatamente o que parece ser (a começar por Jane), mas as surpresas do enredo nunca são tão grandes quanto o derramamento de tom usado quando a comédia desanda em drama.Para gostar do filme, é preciso tolerar essa alternância, que, às vezes, fica bem pouco equilibrada no registros. E ter olhos, e ouvidos, para apreciar as cenas que, realmente, contam e valem pelo resto. Por exemplo, a comovente devoção do recruta americano ao ídolo, Mozart, e a luta para o impor ao sargento grosseirão. Ou, quando Jane reencontra Andrei, que não via havia muitos anos, numa floresta perdida da Sibéria e constata, sem uma palavra, que o tempo passou, nada mais pode ser feito e é preciso se conformar. É triste, dá para chorar, e é assim que funcionam as óperas, no cinema ou no teatro.Não por acaso, Mikhalkov, de família aristocrática, ambienta o libreto na Rússia pré-revolucionária. Não que ele seja um fero anticomunista, mas é perceptível o carinho, e o rigor com que filma o fausto - principalmente, o rito militar, a elegância dos soberanos e da corte, a devoção dos soldados, a exaltação da amizade viril entre os companheiros em armas. Enfim todo um fabulário feliz, rol de virtudes de um imaginário fascinado pelo ancien régime.Não é o melhor Mikhalkov? Não. Mas "Sibéria" traz de volta pelo menos uma das preocupações centrais do artista, o choque de culturas. Em "Urga" - este, sim, o melhor filme dele -, mostrava a fricção entre os mongóis e a Rússia moderna; em "Barbeiro", é o Ocidente tentando, em vão, compreender os códigos da Rússia profunda. O Ocidente é Julia Ormond, risonha, instável, frívola, provocando reações que, depois, não saberá nem poderá controlar. A Rússia é o velho general apaixonado, que não bebe, mas, quando começa a beber, se embriaga, mortalmente.Ou o jovem cadete que, apaixonado, se mostra capaz de todos os desatinos. Uma certa leveza e frivolidade de um lado; a desmesura, o fogo e a paixão de outro. São estereótipos. Tudo muito bem, mas os estereótipos, como mitos, costumam ser ancorados na realidade. Funcionam apenas como amplificação - e, eventualmente, como simplificação - de entidades muito complexas e contraditórias.Não é intenção de Mikhalkov, pelo menos neste filme, enfrentar o complexo e o contraditório. Por isso, situa o melodrama numa fase mítica, pelo menos do imaginário dele. A Rússia pré-revolucionária funciona como uma espécie de reserva moral para o patriota Mikhalkov. Não por acaso, a história termina em 1905, ano da primeira tentativa revolucionária, que se tornaria vitoriosa em 1917. Foi o fim da aristocracia e o começo da experiência comunista, que terminou em 1991.Para muitos russos, foi também o fim de um país que lhes parece mergulhado de forma definitiva na criminalidade e na corrupção. Enfim, "Sibéria" é um filme pré-decadência, idealizador de um passado de grandeza e fausto. Não parece estranho que tudo isso soe como um conto de fadas e seja verossímil como uma história da carochinha. Por que não? A fantasia também tem lugar na arte e no coração dos homens.Serviço - "Sibéria". Rússia, França, Itália, 1999. Dir. de Nikita Mikhalkov, com Julia Ormond, Oleg Menshikov, Richard Harris. Em vídeo, pela Imagem Filmes.

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.