"Shrek" revoluciona animação

Você era capaz de jurar que Toy Story (1 e 2) era o máximo de revolução tecnológica aplicada à animação cinematográfica. Bem, você errou. Acaba de surgir Shrek e o extraordinário desenho da Dreamworks, que estréia nessa sexta-feira, é a grande pedida das férias. A Disney que se cuide. Atlantis, o Reino Perdido pode ter suas qualidades - principalmente para nostálgicos do velho 20 Mil Léguas Submarinas, de Richard Fleischer, nos anos 50, que foi seu modelo declarado -, mas não dá nem para a saída perto de Shrek. Criativo como é, o desenho dirigido por Andrew Adamson e Vicky Jenson tem o seu calcanhar de Aquiles. Talvez seja mais atraente para adultos que para crianças. Desde O Rei Leão, da Disney, e Toy Story, da Disney associada à Pixar, não se via nada tão novo no reino da animação.Pode ser que Shrek seja um ato de vingança do produtor Jerry Katzenberg. Com Steven Spielberg e David Geffen, ele fundou a DreamsWorks, depois de sair - brigado - da Disney. A empresa já deu suas investidas pela animação, mas O Príncipe do Egito, apesar da impressionante travessia do Mar Vermelho, não era lá essas coisas. Formiguinhaz era melhor, mas não muito, e A Fuga das Galinhas era legal. Em Shrek, Katzenberg, responsável pelo projeto na DreamWorks, deita e rola fazendo piadas com os desenhos da Disney. Cinderela, é o alvo preferido. Briga a tapas com Branca de Neve, mata com seus trinados um pássaro que se pendura no seu galho. As crianças vão divertir-se, mas os adultos talvez usufruam melhor as tiradas humorísticas de Shrek, principalmente se souberem algo das intrigas de bastidores de Katzenberg na Disney.Enfim, um desenho politicamente incorreto. O protagonista, Shrek, é um ogro, ser que a Disney, quando muito, colocaria como figura secundária, associada a seus heróis e heroínas corretos. Shrek é irresistível - ainda mais na voz de Bussunda, que faz a dublagem -, mas se você pensar bem vai ver que ele também é repulsivo e não apenas por ser feio. Shrek poderia ser feio e limpinho. Não é. Come todo tipo de porcaria, faz velas com a cera que tira do ouvido. Arrrggghhh... Vai ser nojento assim no reino da fantasia.Até para metaforizar sua briga com a Disney, Katzenberg imaginou a história de um vilão, o sinistro Lorde Farquaad, que expulsa todos os seres encantados da terra da fantasia. Esse homem do mal quer ser sacralizado como rei. Para isso, precisa casar-se com uma princesa de verdade. A princesa por quem se interessa é mantida prisioneira no alto de uma torre guardada por um dragão voador que expele fogo pelas ventas à menor investida contra seus domínios. Na verdade, não é um dragão, mas uma fêmea de dragão (dragoa?) Calma, estamos nos antecipando muito.Eddie Murphy no original - O vilão consegue investir Shrek da missão de salvar a bela princesa. O ogro ganha um parceiro inestimável no Burro, outro personagem delicioso e que, ao contrário do nome, é mais inteligente que o herói. O Burro, aliás, merece destaque. Cada vez mais, o público dos desenhos, seja da Disney ou de outras empresas, prefere ver as animações em versões dubladas. A United International Pictures, que distribui Shrek, segue uma lição da Disney do Brasil e promove uma versão dublada que ostenta poderosos atrativos - a presença de Bussunda à frente dos dubladores, por exemplo. O mago do Casseta & Planeta adorou a experiência. Fã dos desenhos da Disney (e de Toy Story), Bussunda ficou encantado com a criatividade e irreverência de Shrek. E explica que não forçou a barra, escrachando o personagem - de acordo com o figurino do Casseta -, porque achou o low profile mais adequado ao personagem. Toda força à versão dublada de Shrek, mas há atrativos de sobra para arriscar uma olhada também na versão original. Eddie Murphy emprestando sua voz ao Burro e Cameron Diaz à princesa? O que mais você precisa para correr ao cinema mais próximo que exibe a versão com legendas?Por mais prodigiosa que seja a técnica - e é, tendo sido criado um programa especial para dotar os personagens de músculos (em número de 900!), de forma a garantir a diversidade da expressão facial -, o que encanta em Shrek é a história e a brincadeira com os contos de fadas. A bela princesa é um achado, lutando artes marciais em cenas que incorporam Matrix à trama. Mas o melhor é a maldição que pesa sobre a bela princesa. Ela leva a uma revolucionária, em termos de desenho, solução final que subverte A Bela e a Fera. Katzenberg, realmente, fez gato e sapato da Disney.

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