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Show de marketing

Sem falar, Lars von Trier consegue, em Berlim, promover 'Ninfomaníaca' com provocações e ajuda dos atores

Luiz Carlos Merten, Enviado Especial a Berlim - O Estado de S.Paulo

10 de fevereiro de 2014 | 02h07

Na recente Mostra de Tiradentes, mercado e marketing foram demonizados como inimigos do cinema de autor. Mas se esqueceram de avisar a Lars von Trier. Um dos mais radicais autores do cinema na atualidade - o mais?, Lars também é um marqueteiro de primeira.

Confirmou-o mais uma vez. Pegando carona no escândalo que produziu em Cannes, há um par de anos, ao atacar Israel e dizer que entendia Hitler, durante a entrevista coletiva de Melancolia, ele manteve sua decisão de não mais dar entrevistas em festivais, mas veio à Berlinale para assistir à versão longa - a sua versão - de Ninfomaníaca Volume 1. E mais, deixou-se fotografar com sua produtora Louise Vesth e seu elenco usando uma camiseta preta provocativa. Sob o emblema da Palma de Ouro (de Cannes), uma frase - Persona Non Grata.

Lars von Trier não é nenhuma unanimidade e ainda bem. Nelson Rodrigues dizia que toda unanimidade é burra. Em Cahiers du Cinéma de fevereiro, para elogiar Lilith, de Robert Rossen - outra história de ninfomaníaca, dos anos 1960, Florent Guézengar refere-se, pejorativamente, à última vacherie de Von Trier. O primeiro volume de Ninfomaníaca - o segundo já estreou na Europa e chega ao Brasil em março - ganhou mais 25 minutos. O que muda na tela? Na ausência do diretor, sua produtora explicou. "As cenas de sexo não apenas ficaram mais longas, como estão mais bem contextualizadas. Com isso, o filme adquire novo tom."

A entrevista teve lances curiosos. A atriz Stacy Martin, que faz a protagonista - Charlotte Gainsbourg - quando jovem, disse que estrear no cinema com um papel desses supera a expectativa de qualquer atriz. Ela leu o roteiro, achou ousado, ficou assustada, mas tendo visto os demais filmes de Von Trier - e sendo sua admiradora - não hesitou. Indagado sobre as cenas de sexo, Shia LaBeouf irritou-se. Certamente inspirado na metáfora da pescaria do filme, disse que quem está acostumado a sardinha em lata não tem paladar para outros peixes. E se levantou da mesa da coletiva e foi embora.

O elenco que permaneceu (Stellan Skarsgard, Uma Thurman, Christian Slater e a bela Stacy) foi unânime. Lars von Trier é tão gentil e cria uma relação de confiança tão grande com os atores que eles fazem tudo o que diretor lhes pede. "Não se recusa nada a um diretor como Lars", disse Christian Slater. E Uma: "Tive a melhor experiência de minha vida. E olhem que decorar aquele texto de sete páginas, resumindo a fúria de uma mulher ultrajada, não foi nada fácil". O Palast lotou na hora da sessão de imprensa e, na coletiva, nem que a sala tivesse o dobro de lugares conseguiria acomodar todo mundo. Interrogada sobre as concessões que Lars é obrigado a fazer - alô, Tiradentes -, disse que ele não faz concessão nenhuma. Faz os filmes que quer, como quer. Tem sido assim e ela espera que continue por muitos anos. Financiadores não faltam para as diatribes do autor dinamarquês. E - sim - a partir da cena de Uma Thurman e, depois, a agonia do pai e o Bach (Cantus Primus) do desfecho, o filme ficou melhor ainda (como se fosse possível).

Foi um fim de semana interessante aqui na Berlinale. No sábado, George Clooney e sua equipe (Matt Damon, John Goodman, Jean Dujardin, etc.) vieram mostrar The Monuments Men fora de concurso (como Ninfomaníaca). Em toda a história do Festival de Berlim, nunca houve nada parecido.

Na sessão de imprensa, ao meio-dia, um jornalista sofreu um ataque do coração e a sessão foi interrompida por meia hora, até que ele fosse transladado para o hospital (onde passa bem, informa a organização). À noite, a sessão oficial também atrasou meia hora, mas aí o motivo foi outro. Apesar do frio da noite - durante o dia, com sol, a temperatura se mantém nos 10ºC, havia muita gente reunida na frente do Palast e o elenco teve de evoluir entre mãos estendidas com todo tipo de papel para recolher autógrafos.

A luta para resgatar obras de arte roubadas pelos nazistas não é novidade no cinema. Nos anos 1960, houve O Trem, com Burt Lancaster e Jeanne Moreau, que Arthur Penn iniciou e John Frankenheimer finalizou, depois que o diretor original se desentendeu com o astro.

Para um ator e cineasta que tem sido crítico em relação ao poder conservador nos EUA, The Monuments Men decepciona pelo tom ufanista e excesso de bandeiras norte-americanas, ao exaltar o papel do Exército em defesa da arte e da cultura. O filme antigo dava mais crédito à Resistência francesa, mas os tempos eram outros. A sessão de gala foi, de qualquer maneira, marcante. Seis ministros de Estado, do gabinete de Angela Merkel, assistiram impassíveis a todo tipo de piada contra Hitler e os alemães. O último dos monuments men, que ainda está vivo, foi aplaudido de pé. A apoteose foi tão grande que é difícil não ser pelo menos indulgente com o filme de Clooney.

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