Shakespeare recebe homenagem do gênio Orson Welles

Versátil homenageia o centenário do grande ator e diretor com caixa formada só de adaptações que ele fez de peças do bardo inglês

Luiz Carlos Merten, O Estado de S.Paulo

12 de dezembro de 2015 | 16h00

No ano que se encerra, comemora-se o centenário de nascimento de Orson Welles. Ator, diretor, roteirista, polemista, entertainer. Welles foi múltiplo e fazia piada disso. Conta a lenda que, certa vez, chamado a fazer uma palestra, ele teria se visto frente a uma plateia reduzida. Não deixou por menos. “Estamos em desigualdade. Vocês são poucos, eu sou muitos.” Podia ser arrogância, mas no livro com a série de entrevistas que deu a Henry Jaglom (My Diners with Orson), Welles confessa que muitas vezes a arrogância foi uma máscara para enfrentar as incompreensões – no plural – de que foi vítima.

Diretor do filme que, por décadas, dividiu com O Encouraçado Potemkin, de Sergei M. Eisenstein, o primeiro posto na lista de melhores de todos os tempos – Cidadão Kane, de 1941 –, ele enfrentou sempre a desconfiança de uma parte da crítica, que dizia que o verdadeiro ‘autor’, o gênio, seria o roteirista Herman Mankiewicz, vencedor do Oscar da categoria. Muito se escreveu que Welles, depois de Kane, não fez nenhum filme tão grande – mas, como se superar, se o filme em questão é o melhor já feito? Era – na mais recente votação, Kane e Potemkin foram derrotados por Um Corpo Que Cai, de Alfred Hitchcock.

No ano de seu centenário, Welles recebeu muitas homenagens pelo mundo afora. A Versátil lançou duas caixas de DVDs, O Cinema de Orson Welles (seis filmes, incluindo Soberba e A Dama de Shangai) e a que talvez seja mais preciosa, Shakespeare por Welles, que reúne três clássicos em dois discos. Othello, de 1952, e Falstaff – O Toque da Meia-Noite, de 1965, ocupam o primeiro e Macbeth, de 1948, o segundo (acrescido de duas horas de extras).

Antes de revolucionar o cinema, estabelecendo, com Kane, o verdadeiro bê-á-bá da linguagem, Welles revolucionou o rádio e o teatro. Seu Mercury Theatre fez sensação, nos anos 1930, com encenações de Shakespeare que fugiam ao cânone. Foi assim que ele fez um Macbeth só com atores negros. Mas, em Othello, Welles se reserva o papel do mouro de Veneza, mantendo o tom sofocleano – tragédia da dúvida – da peça. O detalhe curioso – a trívia – é que o filme venceu o Festival de Cannes sob a bandeira do Marrocos. Macbeth, pouco antes, foi feito tão sem recursos que os críticos dizem que o filme exagera na bruma não por fidelidade ao texto (as feiticeiras), mas para disfarçar a indigência dos cenários. Falstaff é sobre o companheiro de orgias do futuro rei Henrique IV. Welles, como ator, nunca foi mais shakespeariano. E o acompanham Jeanne Moreau, Margaret Rutherford e John Gielgud.

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