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'Severina', segundo longa dirigido por Felipe Hirsch, estará no festival de Locarno

Carla Quevedo e Javier Drolas formam um misterioso casal

Ubiratan Brasil, O Estado de S.Paulo

13 de julho de 2017 | 06h00

O delicado segundo filme dirigido pelo encenador Felipe Hirsch, Severina, iniciou oficialmente ontem sua carreira internacional, ao ser anunciado na programação do Locarno Film Festival, mostra conhecida pela veia independente, que acontece na cidade suíça entre 2 e 12 de agosto. Também participarão os longas As Boas Maneiras, terror de Juliana Rojas e Marcos Dutra, e Era Uma Vez Brasília, de Adirley Queiróz.

Severina deverá participar ainda de outros festivais - como o do Rio e a Mostra de São Paulo -, antes de estrear no cinema brasileiro, no início de 2018. “Trata-se de um dos mais sensíveis filmes que já produzi”, atesta Rodrigo Teixeira, da RT Features, produtora responsável pelo trabalho e que vai participar do próximo trabalho de Brad Pitt (leia abaixo). “Felipe cumpriu à risca o planejamento de filmagem e entregou um longa precioso.”

De fato, o Estado assistiu, em primeira mão, a uma exibição do filme. Inspirado em um conto do escritor guatemalteco Rodrigo Rey Rosa (admirado por Roberto Bolaño e Paul Bowles), Severina trata de um amor obsessivo - R., o dono de uma livraria, fica intrigado com uma moça que começa a frequentar sua loja. Logo, ele se descobre em um emaranhado que encobre Ana, moça que rouba volumes de livrarias para ler e compartilhar com um suposto avô. Aos poucos, o desorientado homem descobre que a fronteira entre o racional e o irreal é fina demais.

“Fazia sete anos que eu não rodava um filme, desde Insolação, e eu vinha pensando no filme que não faria”, conta Felipe Hirsch que, desde 2013, começou a refletir no palco sobre a realidade latino-americana (e a brasileira, em particular). Para isso, devorou diversos textos escritos no continente ao longo dos últimos séculos, garimpando verdadeiras joias, que lhe renderam duas peças, uma série escrita conjuntamente com 20 autores latinos e ainda a ideia para o filme, cujo roteiro começou a desenvolver naquele 2013, na Alemanha, onde participou da Feira do Livro de Frankfurt.

Severina, o conto, traduz com perfeição o argumento buscado pelo encenador - escrito durante um período marcado pela dor da separação, o texto trata de amor e perdão. “Rey Rosa o define como um delírio amoroso, uma metáfora sofre a situação que marcou sua vida e sobre o poder libertador do perdão”, conta o cineasta, que rodou o longa inteiramente em Montevidéu, no Uruguai, o que contribuiu enormemente para conferir o clima misterioso da trama. “E porque também o Brasil não se encaixa com perfeição na realidade da América Latina.”

Isso refletiu na produção - Severina é um mergulho cinematográfico no pensamento de vários autores do continente, o que se torna mais acentuado pela eclética formação do elenco: uruguaios, argentinos, brasileiros, chilenos, guatemaltecos e até portugueses. Hirsch promove singelas homenagens, marcadas pela presença de Daniel Hendler (destaque em filmes do cineasta argentino Daniel Burman) e Alfredo Arturo Castro Gómez, veterano ator chileno, cuja participação é pequena, mas decisiva. “Ele vive o suposto avô de Ana/Severina e, em uma determinada cena, Alfredo permaneceu imóvel durante um longo tempo, o que contribuiu perfeitamente para o clima da situação.”

O casal protagonista é formado pelos argentinos Carla Quevedo e Javier Drolas, cuja atuação é impecável. Como R., Drolas é convincente como o livreiro com aspiração a ser escritor e que prefere viver um enredo delirante a descrevê-lo no papel. E Carla, dona de uma aparente fragilidade, revela-se perfeita no papel da moça misteriosa que, na avidez por livros roubados, se revela uma moderna Sherazade, eficaz em moldar o mundo ao redor segundo seus desejos.

“É um filme sobre destinos, sobre como um livreiro se transforma em um livreiro velho, e sobre os cadáveres que ocupam nossos sofás durante os relacionamentos amorosos, familiares”, observa Hirsch. “Também sobre como temos que aceitar, tratar, nos livrar e, com o tempo, nos transformar neles. Primeiro como noivos (namorados); depois, como padres (pais). Por fim, é um filme sobre o verdadeiro e o apócrifo, e sobre os valores que damos às coisas.”

Em seu cuidado técnico, Hirsch trabalhou com profissionais com sensibilidade lapidada, o músico Arthur de Faria, responsável pela trilha sonora original. “As canções ajudam a mostrar como o filme começa racional e vai se tornando sentimental dentro de uma camada sensorial”, observa o diretor, que dedica o filme a Hector Babenco, morto há exatamente um ano. “Era um importante interlocutor. Sem ele, não existe mais uma São Paulo”, lamenta-se Hirsch que, com o filme, reflete também sobre uma América Latina que, aos poucos, deixa de existir.

Chile na MIT

No fim do ano, Felipe Hirsch vai ao Chile, onde dirige um elenco local para o Festival Santiago a Mil, em janeiro. Deverá ser um texto de Roberto Bolaño - a peça deverá vir para a MIT, em março.

Rodrigo Teixeira produz ficção com Brad Pitt

O produtor brasileiro Rodrigo Teixeira prepara-se para iniciar seu projeto mais arrojado: rodar o longa Ad Astra, ficção científica que será protagonizado e coproduzido por Brad Pitt. “O roteiro caminhava devagar até chegar às mãos de Pitt, que se interessou. Imediatamente, os telefones não pararam de tocar”, diverte-se ele.

Ad Astra (expressão em latim que significa “para as estrelas”) conta a história do engenheiro espacial Roy McBride (Pitt), que sai em busca do pai (a ser vivido por Tommy Lee Jones) que, 20 anos antes, partiu em missão para Netuno, em busca de sinais de inteligência extraterrestre. O roteiro, com uma leve pitada de Coração das Trevas, foi escrito por James Gray, que também vai ser o diretor.

“Provavelmente, haverá um personagem com nome latino e que vive na Lua, uma homenagem que Gray pretende me fazer”, diverte-se Teixeira, um dos mais arrojados produtores cinematográficos brasileiros. Afinal, em pouco mais de dez anos na área, ele tanto viabilizou projetos nacionais inovadores, como O Cheiro do Ralo, Heleno e Tim Maia, como se aventurou em coproduções internacionais, em longas marcados por um frescor na linguagem, como Frances Ha e A Bruxa. 

Um de seus segredos é o de saber se antecipar ao que pode se transformar logo em sucesso: quando descobre, por exemplo, que determinado escritor começa um novo romance, ele compra antecipadamente os direitos, antes mesmo de a obra ser editada, confiando em seu destino afortunado.

“Admiro cineastas como Martin Scorsese e Brian De Palma que, apesar da idade, estão sempre antenados com o que acontece de novo. É uma lição para todos."

RODRIGO REY ROSA - ESCRITOR GUATEMALTECO

Nascido na Cidade da Guatemala, em 1958, participou de oficina literária de Paul Bowles, em Tânger, no Marrocos. Criou-se ali uma profunda amizade, a ponto de Bowles traduzir para o inglês suas primeiras obras. Autor de contos e romances (como Os Surdos e O Material Humano, publicados no Brasil), Rey Rosa também dirigiu o filme Lo Que Soñó Sebastián, em 2004, baseado em seu romance.

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