Sete passos para entrar de vez no clima da Mostra

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23 de outubro de 2009 | 17h04

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PESQUISAR PARA NÃO ERRAR

Bastardos Inglórios comprovou o fetiche por pés do diretor Quentin Tarantino. Abraços Partidos é o longa mais complexo de Almodóvar. Uma vez na fila da Mostra, esteja preparado para conviver com experts em todo tipo de filme. Mas não se desespere quando o pessoal logo atrás de você desandar a comentar em detalhes a última grande produção iraniana a que assistiu. Um dos segredinhos de quem se propõe a virar enciclopédia de fila de cinema é visitar o site IMDB (www.imdb.com), onde é possível consultar qualquer título com detalhes. Lá, dá para pesquisar curiosidades de cada produção, e até saber sobre atores que eram cotados para o elenco, se eles se entenderam, ou quem deu piti. No site oficial da Mostra (www.mostra.org), há a opção de fazer busca em ordem alfabética pelo nome do filme ou do diretor. Além disso, quase todos os longas selecionados têm o trailer à disposição. Também vale navegar pelos sites de cinema para saber ao menos a sinopse básica da atração que você terá pela frente, mas tente não se deixar influenciar pelas opiniões alheias. "Todo ano há um site bacana, O fino da Mostra (www.ofinosdamostra.com), que destaca coisas interessantes da Mostra e só funciona durante o evento, anualmente", fala uma das diretoras, Renata de Almeida. Se o plano falhar, lembre-se daquele amigo que adora cinema e não hesite em chamá-lo para fazer companhia na fila. Vai dar conversa.

 

DIRETOR SENSAÇÃO

Se nos blockbusters são galãs e musas que chamam bilheteria, na Mostra, a estrela do filme é o diretor. Portanto, vale estar atento aos ‘nomões’ que integram a programação. O badalado espanhol Pedro Almodóvar traz seu novo Abraços Partidos, mas vale pensar em outros para fugir do óbvio. "Almodóvar já virou carne de vaca, é muito comercial", ensina o auxiliar administrativo Fábio Rodrigues, 30 anos, aficionado por cinema. A dica do cinéfilo é A Batalha dos Três Reinos, do chinês John Woo. "Deve causar muito frisson, porque é o primeiro filme dele depois de sair de Hollywood e voltar ao Oriente. Há muita expectativa e é uma boa pedida para o espectador mostrar que está por dentro." Radicado nos EUA, John Woo assinou produções como Outra Face e Missão Impossível 2. Outro nome forte é Ang Lee, de O Segredo de Brokeback Mountain e Desejo e Perigo, vencedores do Leão de Ouro em Veneza. Lee está na Mostra com Aconteceu em Woodstock. E há o premiado sérvio Emir Kusturica, do documentário Maradona.

 

SILÊNCIO NA SALA É TUDO

Nunca é tarde para lembrar que a Mostra reúne um povo que leva o cinema – e a si mesmo – muito a sério. Para quem está acostumado a isso, as horas de estresse gastas em longas filas são muito bem recompensadas com um filme europeu. Então, a regra é simples: começou o filme, nada de barulho. O espectador é muito mais exigente e menos tolerante com conversas paralelas, mesmo que seja baixinho. Evite. Na hora de abrir aquele pacotinho de balas, prepare-se para ouvir uma vigorosa onda de ‘Shhhhhh’, mas não desanime nem fique constrangido com os olhares de reprovação. Não raro, tagarelas são alvo de palavrões e as discussões podem acabar em brigas e gente expulsa da sessão. Então o melhor é tentar evitar conflitos, como não entrar na sala quando a projeção já tiver começado, outro caso clássico de irritação. Não se intimide se, ao ingressar no cinema, você for o único com aquele sacão de pipoca. É comum: os cinéfilos não estão ali se divertindo, mas analisando minuciosamente cada cena. Tente entender que, na visão deles, você está atrapalhando uma première. "Por mais que muitos dos filmes da Mostra venham a estrear no circuito comercial, várias outras produções não vão reaparecer por aqui tão cedo", justifica a designer cinéfila Angélica Belmonte, 29 anos. Após a sessão, o clima descontrai. Vale choro e até palmas – mas para prevenir vexames, resista a ser o primeiro a puxar a salva.

 

DIVAGAÇÕES SOBRE A TAL FOTOGRAFIA

Um dos tópicos preferidos dos cinéfilos é a bendita fotografia. Uma boa divagação sobre ângulos, recortes, distorções e contrastes usados pelo diretor valem horas de conversa, meio furada às vezes, mas até nesse caso há um caminho a seguir. Um dos grandes nomes nessa área é o diretor francês Michel Gondry, que assina com outros dois diretores Tokyo!. Gondry é um nome que será recorrente entre os amantes da fotografia, já que seu filme abusa de cores vibrantes. O que menos importa aqui é o roteiro, mas não custa nada dizer que são três histórias – a de Gondry é de uma menina que se transforma em uma cadeira. Antes de torcer o nariz, lembre-se de que o francês em questão é o nome por trás de Brilho Eterno de uma Mente sem Lembranças, um verdadeiro hit entre cinéfilos. Entre os títulos nacionais da Mostra, Insolação, dos diretores Felipe Hirsch e Daniela Thomas, é quase um videoarte, e um bom exemplo de produção em que o roteiro se perde em meio a uma difusão de cores. Se quiser mergulhar no tema, uma boa fila deve aguardar pelo novo filme do austríaco Michael Haneke, cineasta que ficou conhecido no Brasil por A professora de Piano e Caché. O seu A Fita Branca foi premiado com a Palma de Ouro em Cannes, mas prepare-se para um grande filme- cabeça: a história se passa em um vilarejo na Alemanha às vésperas da Primeira Guerra Mundial. Ou seja, todinho em preto e branco e narrado em alemão.

 

FORA DA MOSTRA

A Mostra em si é um universo à parte, mas isso não quer dizer que não é preciso saber sobre o que está agitando o mundo do cinema e, logo, dos cinéfilos. Assunto velho, mas que deve pipocar nas conversas, é a indicação de Salve Geral, de Sérgio Rezende, para candidato brasileiro ao Oscar. "A discussão aqui não é o filme em si, mas a curiosidade e, em alguns casos, a reprovação pela indicação", diz o professor e cinéfilo Vanderson dos Santos, 27 anos. Boas produções recentes podem ser lembradas. Algumas dicas para fugir do manjado, mas indispensável, Bastardos Inglórios, de Quentin Tarantino, é o elogiado longa nacional Apenas o Fim, do estreante Mateus Souza. Ainda na tentativa de escapar do óbvio e mostrar conhecimento de causa, aproveite que vampiros estão na moda e mencione o terror sueco Deixe Ela Entrar, também bem recebido entre os entendidos. Vale citar despretensiosamente o thriller psicológico Anticristo, de Lars Von Trier. Só não caia na cilada de admitir que chorou horrores na animação Up – mesmo que seja verdade.

 

TESOUROS ‘ESCONDIDOS’ DO EVENTO

Para quem se aventura pela primeira vez, é compreensível o desejo de fazer escolhas seguras no evento. São elas os badalados Nova York Eu te amo, de uma seleção primorosa de diretores (entre eles, Woody Allen), e O Mundo Imaginário do Dr. Parnassus, de Terry Gilliam, último filme do ator Heath Ledger, morto por abuso de remédios em 2008. Mas fica a sugestão da diretora, Renata de Almeida: "A gente recebe muitos DVDs e sempre acaba se surpreendendo. Acho que na Mostra tem que se arriscar". Para ela, "o melhor jeito de aproveitar é ver o que atrai e ir escolhendo pessoalmente, sem seguir à risca a sugestão dos outros". E por onde começar, em uma lista de 387 produções? Um dos destaques deste ano é a Suécia, que tem filmes para todo tipo de público. Outra aposta certeira é a França, que, na palavra da diretora, "sempre tem filmes bons". Vale olhar Patrik, idade 1,5, que fala de um casal gay que decide adotar um filho, e o divertido Os Infelizes, da Bélgica, sobre um garoto que sofre ao ver a rotina de sexo e álcool do pai e do avô.

 

FILMES QUE SÃO MÚSICA PARA OS OUVIDOS

Dos quase 400 títulos da Mostra, há o filão que atrai quem vai ao cinema para ouvir boa música. Dessa safra, vale assistir a A Todo volume, de David Guggenheim, que discute a adoração da guitarra com uma trilha sonora bombada por U2, Led Zeppelin e White Stripes. La Cantante de Tango (em tradução livre, ‘A Cantora de Tango’), produção conjunta entre Argentina, Bélgica, França e Holanda, de Diego Vignatti, conta a história de Helena, um talento em ascensão no tango. No alemão Atalhos para Hollywood, três amigos de uma boyband têm uma brilhante ideia para ficarem famosos mundialmente. Também da Alemanha vêm o divertido Dorfpunk, sobre a descoberta da música punk por um jovem que mora em uma região montanhosa do país, e Música de Dormir, que narra a história de um trompetista. Entre os brasileiros, está na Mostra o documentário Mamonas, o filme, do diretor Cláudio Kahns, que conta bastidores do escrachado grupo musical que virou mania nacional e acabou em um drástico acidente aéreo nos anos 90.

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