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Sete musas para Daniel Day-Lewis em 'Nine'

E essa constelação elogia, e muito, este irlandês que vive um italiano no filme de Rob Marshall

Flávia Guerra, de O Estado de S. Paulo,

20 de janeiro de 2010 | 06h00

Ser um diretor famoso implica viver entre belas atrizes, glamour, dinheiro e, claro, muitas entrevistas. Em uma das cenas de Nine, musical dirigido por Rob Marshall que chega dia 29 aos cinemas brasileiros, o diretor Guido Contini, personagem vivido por Daniel Day-Lewis, tem de encarar uma horda de jornalistas famintos por novidades sobre seu novo filme, do qual ele não faz ideia porque está enfrentando um bloqueio criativo.

 

Ao fim da entrevista, a derradeira questão: "Guido, qual é a sua massa preferida?" "Até que enfim uma pergunta séria!", ironiza o diretor. Em cenário em que a vida imita a arte, não se sabe onde ator e personagem se separam. Nine, o filme, é baseado no musical homônimo que, nos anos 80, levou para a Broadway a homenagem ao clássico 8 e 1/2. O filme, por sua vez, é inspirado na vida de seu próprio diretor, Federico Fellini.

 

Daniel Day-Lewis entre Penélope Cruz e Marion Cotillard em cena do musical Nine. Foto: Divulgação

 

Nos anos 60, para viver seu alter ego, Fellini escalou Marcello Mastroianni. Hoje, Day-Lewis é a personificação destes dois grandes mitos do cinema. Os três cercados por belas musas, atormentados pela busca de um novo tema para o filme e fugindo de jornalistas como o diabo foge da cruz.

 

Em certo ponto do filme, Guido pergunta à jornalista da Vogue (vivida por Kate Hudson): "O que ainda não mostrei nos filmes que você ainda quer saber?" Se a pergunta fosse feita por Day-Lewis ao Estado, a resposta seria uma lista imensa de dúvidas por vezes deixadas no ar e por outras respondidas em um tom tímido, de cabeça e olhos baixos.

 

Ele pertence à classe de atores para quem quanto menos falar de si, melhor. O que se sabe deste irlandês é que já venceu dois Oscars (Meu Pé Esquerdo, 1989, e Sangue Negro, 2007) e já levou outras tantas indicações (para o Oscar por Em Nome do Pai,1993, e Gangues de Nova York, 2002, e para o Globo de Ouro de melhor ator em comédia em Nine, entregue no domingo para Robert Downey Jr.). Além disso, coleciona musas do cinema em sua agenda sentimental e diversifica suas atividades extra-set como aprendiz de sapateiro e carpinteiro.

 

"Adoro construir coisas", explica ele, que é famoso por chegar a adoecer enquanto ‘mergulha’ em um personagem. Verdade que sua veia obsessiva aflorou novamente em Guido? E que ‘sair do personagem’ foi difícil ao fim das filmagens? "Sim. Demorei para aceitar o papel. Congelei de medo ao saber que deveria cantar, mas Marshall, com seu jeito de fazer com que tudo pareça tão natural, me convenceu. E, uma vez que entrei, adorei ser o Guido. Foi difícil deixá-lo. Aliás, não sou eu quem deixa. Meus personagens é que me dispensam. Não é um exorcismo, mas é difícil esquecer a vida de alguém como Guido", explicou um contido Lewis em conversa com a imprensa em dezembro, no luxuoso Mandarin Hotel.

 

Do hotel às conversas, passando pelo tom das perguntas e pela nítida vontade de Day-Lewis em sair correndo dos jornalistas, tudo ali parecia um pastiche da própria ficção. Como observou o ‘colega’ do Guardian, não seria o lançamento de Nine um verdadeiro simulacro do próprio cinema? E mais: Day-Lewis/Guido encarna o arquétipo do diretor em crise, de Fellini ou do próprio homem italiano? Evocando Claudia, o personagem de Claudia Cardinale em 8 e 1/2, Guido é um homem dividido entre suas musas, incapaz de amar e de fazer escolhas, que acaba tomando sempre uma estrada diferente porque tem medo de perder a certa. "Guido é um gênio que sofre um bloqueio criativo. Já eu sou um ator. E confesso que morri de medo de cair no ridículo. Ao contrário dele, não sou genial. Escondo muito bem minhas crises. Nem sou um Don Juan", rebate Day-Lewis.

 

A julgar pela rasgação de seda das sete musas com quem o ator divide a cena em Nine, o sucesso com o público feminino é outro ponto em comum com o personagem. "Sophia Loren é minha mãe. Judi Dench é minha figurinista e amiga. É quem me diz a verdade. Kate Hudson é uma jornalista. Marion Cotillard é minha mulher. Penélope Cruz é minha amante. Stacy Ferguson é a prostituta da minha juventude. Nicole Kidman é a musa em quem eu busco a inspiração que me escapa."

 

Sentiu-se intimidado ao ter diante de si tamanha constelação? "Claro. Qualquer homem se sentiria." Mas, como canta Fergie ‘Saraghina’ ao ‘ensinar’ o garoto Guido sobre o amor, "se você quer fazer uma mulher feliz, seja italiano". Troque o ‘italiano’ por ‘seja Daniel Day Lewis’ e a fórmula se mantém. "Foi maravilhoso atuar com alguém tão apaixonado pelo seu ofício e, ao mesmo tempo, tão dedicado à família", defendeu Nicole. E para elas? Não seria intimidante contracenar com tamanho mito? Para Sophia, sim. "Ele tem uma segurança tão sólida que chega a dar arrepios", disse La Loren (ironicamente, o único grande nome do elenco que de fato é italiano em um filme que homenageia o cinema italiano).

 

Day-Lewis seria então este homem meio Guido, o homem que todas, de uma maneira ou de outra, querem ter? "Nem tanto. É horrível ter um homem que vive um dilema entre a Madonna e a prostituta, que não sabe se quer a mamma ou uma mulher real. Você pode até amar o gênio, mas não quer namorá-lo", sentencia Fergie.

 

Já Penélope vem em socorro: "As pessoas não sabem, por que ele parece ser tímido e muito sério, mas Daniel é um dos caras mais engraçados que já conheci." Marion encerra: "Ele é um gênio. Faz tudo perfeito."

 

O próprio discorda: "Não sou não. Estava com medo do desconhecido. Mas foi uma combinação de medo e excitação que me moveu. No fim das contas mergulhar no desconhecido é recompensador." E foi recompensador viver Fellini nas telas? "Sem dúvida. Adoro seus filmes, adoro a Itália, onde vivi por vários anos. Para mim, é um dos maiores. Sempre tive uma ligação forte com ele."

 

Por fim, a pergunta séria: Qual é sua massa preferida então? "Nhoque, claro", responde, desta vez sem timidez.

 

 

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