Sesc exibe clássico do cinema brasileiro restaurado

Dos nove longas que o pioneiro italiano Vittorio Capellaro realizou no Brasil, incluindo as primeiras adaptações para o cinema da literatura nacional (Inocência, do Visconde de Taunay, em 1915; O Garimpeiro, de Bernardo Guimarães, em 1920, duas versões de O Guarany, de José de Alencar), apenas O Caçador de Diamantes sobreviveu ao tempo e ao descaso. Restaurado, telecinado e com duas cópias novas, o filme terá hoje uma rara sessão em São Paulo, no Sesc Ipiranga, pelo projeto Cinema 35mm.Inspirado na saga dos bandeirantes, O Caçador de Diamantes foi filmado entre 1932 e 33. É o primeiro título no Brasil com trilha sonora própria. Mas os antigos discos de cera que acompanhavam a projeção não tiveram a mesma sorte da película, e se perderam. O pianista e pesquisador Carlos Eduardo Pereira tratou, porém, de compor uma nova trilha para o filme e fará hoje no Sesc, ao vivo, o acompanhamento musical.A sobrevivência e exibição de O Caçador de Diamantes são resultado dos esforços conjuntos da Cinemateca Brasileira e do Centro de Pesquisadores do Cinema Brasileiro (CPCB), que contaram com patrocínio da BR Distribuidora. Antes da projeção, haverá um bate-papo com Patrícia De Fillipi, coordenadora do Laboratório de Restauração da Cinemateca Brasileira, e Myrna e Carlos Brandão, do CPCB. Falarão das dificuldades enfrentadas para recuperar e preservar o cinema e a memória nacional.Injustiça - Fundado em 1969, o CPCB passou nos últimos anos a atuar com mais força na área de restauro. O ritmo, até aqui, tem sido de um filme por ano. Em 2000, resgataram Aviso aos Navegantes, de 1950, uma das principais chanchadas da Atlântida. O projeto foi orçado em cerca de R$ 80 mil, aprovado pelo Ministério da Cultura e bancado pela mesma BR Distribuidora. Sua exibição foi um dos momentos mais emocionantes do Festival do Rio BR daquele ano.O sucesso de Aviso aos Navegantes - que já chegou ao DVD - inspirou novo projeto, de cerca de R$ 300 mil, que também passou pelo MinC e também sensibilizou a BR Distribuidora. São três filmes: o cult Tudo Azul, de Moacir Fenelon,de 1951, recuperado e exibido no ano passado; a obra-prima de Walter Lima Jr. Menino do Engenho, de 1964, que atualmente ocupa a os trabalhos do CPCB; e, para o ano que vem, o seminal Carnaval no Fogo, de 1949, que lançou as bases da chanchada.O trabalho de restauro é complicado, conforme exemplifica Carlos Brandão. Para recompor Aviso aos Navegantes, foi necessário recorrer a 13 cópias e fragmentos de cópias, nos mais diversos suportes. Já Tudo Azul teve problemas na recomposição do som. Trechos do áudio haviam-se perdido. Uma equipe de três surdos-mudos foi então convocada para transcrever alguns diálogos a partir da leitura labial. Atores do filme atenderam ao chamado, refizeram as vozes, e a produção foi salva. Carnaval no Fogo traz um novo desafio: não se encontraram - ainda - registros dos 15 minutos iniciais."O descaso prevaleceu por muito tempo", lamenta Brandão. "Não havia controle sobre a distribuição das cópias." Com Capellaro não foi diferente. E a injustiça à sua obra se soma à injustiça sofrida em vida. Seu profundo interesse pelo País, sua gente e literatura, e suas contribuições à fase heróica do cinema brasileiro não evitaram que fosse perseguido durante a Segunda Guerra Mundial, quando o País, depois de muita hesitação, se alinhou contra Itália, Alemanha e Japão. Em setembro de 1942, no Rio, ao saudar em italiano um conterrâneo que avistou no bonde, foi detido. A temporada na prisão deixou seqüelas. No mês seguinte, sofreu um derrame. Menos de um ano depois, em agosto de 1943, morreu.O Caçador de Diamantes - Às 19h30, encontro com Myrna e Carlos Brandão e Patrícia Del Fillipi. Às 20 horas, sessão com acompanhamento musical ao vivo. Sesc Ipiranga - Rua Bom Pastor, 822, Ipiranga, tel. (11) 3340.2000

Agencia Estado,

15 de maio de 2002 | 14h59

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