Bruno Charoy
Bruno Charoy

Série traz as ideias lúcidas de Tzvetan Todorov

Palavra do pensador morto este ano é destaque em 'Incertezas Críticas'

Luiz Zanin OricchioLuiz Zanin Oricchio, O Estado de S.Paulo

21 de junho de 2017 | 19h25

É muito bom reviver o pensamento lúcido de Tzvetan Todorov (1939-2017) na entrevista que vai ao ar no canal por assinatura Curta!, hoje, às 23h30. O programa faz parte da série Incertezas Críticas, que já trouxe pensadores como o linguista norte-americano Noam Chomsky e a psicanalista francesa Elizabeth Roudinesco. 

Todorov é de origem búlgara e estabeleceu-se na França desde o início dos anos 1960. No início de carreira, ficou conhecido por seus estudos sobre literatura e é com essa pergunta que começa a entrevista comandada pelo cineasta Daniel Augusto. 

Como ele se tornou um historiador das ideias e valores? Todorov diz que, no tempo em que vivia na Bulgária, o estudo de valores e ideias não era livre, pois havia um Estado totalitário sempre pronto a impor suas próprias verdades. Daí ter começado pelo estudo estrutural da literatura, das obras em si.

 

Ao emigrar para a França, não havia mais essa restrição inicial. Pôde então dedicar-se “ao enorme universo das ideias e dos valores” e tornar-se um historiador das ideias. Percebeu que ideias têm origens remotas e, sem percebê-lo, damos continuidade a debates que datam de séculos, como se estivéssemos discutindo coisas novas e originais. Refazer essas etapas de antigas polêmicas, que se prolongam no tempo, é a melhor maneira para compreender o presente, diz o pensador. 

Para ele, que vinha de um país do Leste, saído da opressão stalinista, uma das grandes novidades do final do século 20 foi a queda do Muro de Berlim, em 1989. “Tinha a impressão de entrar num mundo novo.” 

Mas a decepção veio cedo. A esperança em uma democracia universal logo desapareceu ao perceber que a própria democracia tinha seus inimigos internos, seus “filhos ilegítimos”, como ele diz. Curiosamente, alguns desses filhos bastardos provêm dos valores maiores da democracia, entre eles a ideia básica de liberdade. “A liberdade não pode ser dada como ilimitada, senão ela se impõe acima das leis e torna-se a liberdade do mais forte contra o mais fraco.” É a “liberdade” do ultraliberalismo, que acaba sendo contra a democracia e a esvazia de sua substância. 

O mesmo se aplica à ideia de progresso, fundamental, mas cuja face autoritária pode se disfarçar sob o manto do messianismo. O mais forte sente-se imbuído da missão de levar o progresso aos outros, mesmo contra a vontade. “Usa-se a força para impor o ‘bem’ aos outros”. Soa familiar?

Todorov fala também sobre literatura, e de como a obra literária se torna preciosa revelação sobre a interioridade do Outro. “Só dispomos da experiência da nossa própria interioridade, e através da literatura podemos aceder ao impensável, por exemplo, à mente de um assassino como Raskolnikov (de Crime e Castigo, de Dostoievski), por exemplo.”

A literatura, e as artes em geral, nos dão essa compreensão ampliada do humano, para além das nossas fronteiras pessoais. Foi o que, em pintura, fez Francisco de Goya (1746-1828), por exemplo. Ele mostrou os horrores da guerra, “mas também pintou o mundo invisível dos nossos desejos inconscientes, nossos pensamentos sombrios e inconfessáveis”. Nesse trabalho entre o visível e o invisível, Goya, segundo Todorov, abriu caminho para toda a pintura contemporânea. E para a compreensão do humano em sua forma ampliada. Melhor definição de cultura não há.

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