Sérgio Machado leva "Tristão e Isolda" às telas

Há seis meses Sérgio Machadotrabalha no roteiro de seu novo filme. Volta e meia tem deparar. Foi aos EUA para fazer ajustes nas cópias de AbrilDespedaçado. Está eufórico com a indicação do filme de WalterSalles para concorrer ao Globo de Ouro e não só por ser amigo dodiretor. Machado foi roteirista, assistente de direção e locaçãoda obra que Salles adaptou do romance de Ismail Kadaré e oBrasil escolheu para disputar uma indicação ao Oscar 2002. Aindicação para o Globo de Ouro fortalece as chances de AbrilDespedaçado no prêmio da Academia de Hollywood. Além de amigoe colaborador de Waltinho, Machado também é diretor de Onde aTerra Acaba, documentário sobre Mário Peixoto premiado noFestival do Rio BR 2001 e na Mostra BR de Cinema - MostraInternacional de Cinema. Ele escreve agora o que será seupróximo filme, Noites de Temporal.É uma adaptação livre do mito de Tristão e Isolda. Odiretor termina o primeiro tratamento do roteiro. Escrevesozinho. Espera filmar logo. A produção da Videofilmes, empresade Walter Salles, já está com metade do orçamento -aproximadamente, R$ 3 milhões - garantida. A parceira de Machadoé a Brasil Telecom, por meio das leis de incentivo.O baiano Sérgio Machado, de 30 anos, pode ser jovem mastem histórias para contar. Seu primeiro filme foi o último dolendário Grande Otelo, o ator cuja arte encantou Orson Welles,quando o gênio de Cidadão Kane veio rodar no Brasil oinacabado It´s All True, nos anos 40. É tudo verdade.Machado ainda era estudante de cinema. Fazia seu trabalho deconclusão de curso. Fez, com pouquíssimo dinheiro, o vídeo comGrande Otelo e Léa Garcia. Troca de Cabeça quase nãocirculou, mas virou cult na Bahia. O filho de Jorge Amado viu ovídeo, pediu uma cópia para mostrar ao pai. Machado quase nãoacreditou quando um dia recebeu um telefonema do amado Jorgeconvidando-o para jantar com Zélia Gattai na Casa do RioVermelho.Chapa-branca - "Tinha 23 anos e aquilo não pareciaverdade", lembra Machado. Houve mais surpresas: sem que elesoubesse, Jorge Amado encaminhou o vídeo para Walter Salles, quegostou tanto do que viu que chamou Machado para trabalhar comele. Desde Central do Brasil Machado tem integrado a equipeque assessora Waltinho. Foi assistente de direção, fez o castinge as locações de Central do Brasil e O Primeiro Dia. E,em Abril Despedaçado, co-assina o roteiro com o próprioSalles e Karim Ainouz, o diretor de Madame Satã (que já estápronto e Machado afirma ser maravilhoso).Ele aceita a principal crítica que se pode fazer aOnde a Terra Acaba. Seu filme sobre Mário Peixoto, o criadordo mítico Limite, apresenta um material riquíssimo, mas é oque se pode chamar de documentário chapa-branca, reverentedemais em relação ao polêmico personagem que retrata. Peixoto éum caso na história do cinema brasileiro. Criador de um dosfilmes mais cultuados da história do País, virou personagem desi mesmo. "É um filme de fã", Machado admite. Poderia e atédeveria ser mais crítico, pois, se o que ele mostra é rico efascinante, o que silencia poderia esclarecer muito mais osmistérios em torno do autor. "É o que o João (o documentaristaJoão Moreira Salles, irmão de Walter Salles) também diz",confessa Machado.Depois de Troca de Cabeça e Onde a Terra Acaba,ele se lança agora ao projeto ficcional de Noites deTemporal. "É uma ficção jorjamadiana", ele define."Passa-se no cais do porto de Salvador, nos anos 50; temprostituta, malandro." Era para ser a sua versão de Tristão eIsolda, mas as referências foram ficando cada vez mais vagas.Persistem no triângulo amoroso, dois homens que amam a mesmamulher, um homem e uma mulher que recriam, ao sul do Equador,uma das mais belas histórias de amor legadas pela Idade Média. Asaga de Tristão, filho do rei de Leonis, e de Isolda atravessouos séculos como símbolo da paixão impossível, que rompebarreiras e despreza a honra para se manter acesa.Baianidade - Os mitos de Tristão e Isolda fornecerama base para Noites de Temporal, mas sobre ela Machadoconstruiu uma trama que expõe todos os signos da sua baianidade.As figuras míticas de Jorge Amado, as músicas de Dorival Caymmi(uma delas dá título ao filme). Ele conta que a história começoua mudar em sua cabeça quando teve acesso ao acervo de 10 milfotos de Pierre Verger, que lhe revelaram uma Salvador que elenão conhecia. Verger será uma referência forte no filme. Essematerial visual era tão belo, tão impressionante, queimpulsionou Machado a radicalizar uma tendência que Waltinho,Karim Ainouz e ele haviam estabelecido no roteiro de AbrilDespedaçado. Machado cria agora um roteiro essencialmentevisual. Isso tem a ver com seu amor pelos clássicos do cinemasilencioso. Ama Eisenstein, Dovjenko, Carl Theodor Dreyer e KingVidor. Seus clássicos do coração são: O Encouraçado Potemkin, Terra, A Paixão de Joana D´Arc e The Crowd, aosquais se soma A Linha Geral.Influenciado por eles (e por Verger), começou adesenvolver o roteiro todo desenhado, mas que não se confundecom um storyboard. Machado pensa o filme em termos de imagens,mesmo que, dramaturgicamente, reconheça a importância daspalavras e não pretenda desistir delas em Noites deTemporal. Ele está entusiasmado com o material. Pensa numelenco predominantemente de atores negros. E aí,inconscientemente, termina antecipando quem talvez estará nofilme.Machado não quer citar nomes, mas de repente começa afalar em Lázaro Ramos, o ator baiano que faz o Madame Satã deKarin Ainouz (cujo filme mostra o personagem justamente na faseanterior ao mito). "Lázaro possui grande força cênica e física;é maravilhoso; representa uma nova geração de atores, cheia devigor e talento." Com tanto entusiasmo do diretor, não será deadmirar se o talentoso Lázaro Ramos for integrado às noites detemporal de Sérgio Machado.

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