Sérgio Bianchi ganha retrospectiva em NY

Nos últimos anos, apenas dois ou três cineastas representaram o cinema brasileiro nas telas americanas, graças à distribuição de seus filmes por minimajors de Hollywood. Mas fazia tempo que a comunidade cinematográfica nova-iorquina não mostrava uma certa afeição e respeito pela obra de um maldito nacional, um cineasta com chances bastante remotas de ter seus filmes distribuídos no mercado americano. O escolhido da vez é o paranaense Sérgio Bianchi, autor de uma das obras mais radicais do cinema brasileiro. Entre amanhã e o dia 7, o prestigioso departamento de cinema do Lincoln Center apresenta a mostra Taking no Prisoners: The Films of Sergio Bianchi.Trata-se da primeira retrospectiva internacional do trabalho de Bianchi e incluirá os longas Cronicamente Inviável (de 2000), A Causa Secreta (de 1994) e Romance (1987), além dos curtas Divina Previdência (83), Mato Eles? (82) e A Segunda Besta (77). Dos seus longas, apenas Maldita Coincidência, seu primeiro, lançado em 1970, vai ficar fora da mostra, pois não teve sua legendagem em inglês pronta a tempo para o evento.O cinema de Bianchi chamou a atenção dos programadores de Nova York em 1989, quando Romance foi exibido na mostra New Directors, New Films, organizada pelo Museu de Arte de Moderna (MoMA). Em 1995, Richard Peña, diretor do Festival de Cinema de Nova York, encantou-se com A Causa Secreta, mas acabou não selecionando o filme para o evento. O erro foi reparado na 37.ª edição do NYFF, quando Cronicamente Inviável foi convidado a fazer parte da seleção oficial do festival.Críticas - Saudado como um filme "orgulhosamente agitprop" e com uma "exploração brechtiana do social", Cronicamente foi um título bastante badalado no festival. Em sua crítica no jornal New York Times, o cronista Elvis Mitchell chamou o longa de um "embotado e mordaz soco nas costelas da classe média brasileira", um trabalho "próximo do espírito dos ataques de Luis Buñuel à burguesia".No texto de apresentação da retrospectiva de Bianchi, o paranaense é reverenciado como um cineasta que "lembra e avança a notável tradição do cinema político do Brasil e da América do Sul", além de ser "o mais claro descendente contemporâneo do Cinema Novo". "Acho que meu cinema pode ser classificado de político, sim, uma vez que me recuso a fazer um trabalho colonizado", explica Bianchi, em entrevista ao Estado, de seu escritório em São Paulo."Minha procura é refletir as contradições do Brasil, fazer um bizarro diferenciado. Sinto em alguns outros cineastas um compromisso comercial estrangeiro. Os filmes dessa moçada são muito bons, mas visam à exportação e têm linguagem que reproduz filmes de um hollywoodianismo meio capenga."Ao mostrar de maneira provocativa o abismo de diferença entre as classe sociais no Brasil, Bianchi encontrou com Cronicamente Inviável um sucesso comercial inesperado. Seu último filme permaneceu em cartaz por mais de um ano e meio num cinema de São Paulo e em outro do Rio, e promoveu uma incessante discussão na imprensa. "O filme me deu muito prestígio, mas também uma irritação profunda. Centenas de artigos foram escritos sobre o filme e chegou ao ponto de eu entrar num restaurante e, no outro dia, ter uma nota no jornal dizendo que estive lá. Por desgostar dessas coisas, decidi me afastar um pouco da imprensa. O que vale são meus filmes, não minha pessoa pública."Bianchi agora não deixa de refletir sobre a imagem que São Paulo vem ganhando no cenário internacional: a da capital mundial dos seqüestros. "Enquanto algumas classes sociais mais altas vivem uma felicidade financeira, é claro que as mais baixas criam uma forma de redistribuição de renda, que vem a ser por meio dos seqüestros. É um clima muito ruim. Tudo o que se vê neste país é fruto de 30 anos sem colégio. Eu fiz colégio, pois sou da geração rock-n´-roll, mas se você pegar estes 30 últimos anos, em que não houve lazer, esportes, arte..."Preço dos pobres - Em seu próximo filme, Quanto Vale ou É por Quilo?, que pretende começar a rodar em abril, Bianchi diz que vai analisar o "preço dos pobres". "Trata-se de um enredo sobre o valor do ser humano em dois tempos: na época da escravatura e na contemporânea", explica o diretor. O cineasta também teve assessoria de Mirelli Cavalcanti, que compilou crônicas da época de escravatura.Bianchi vai contar a história da legislação trabalhista do Brasil Império, quando, segundo ele, os pobres tinham mais valor. "Naquela época, o cuidado com a matéria-prima era melhor. Todo mundo era bem alimentado e tinha boa saúde. Você também podia processar o dono de um escravo, comprar seu filho de volta ou até viver da terceirização, o que rendeu grandes qüiproquós em termos de processos trabalhistas."Para a época atual, Bianchi transportará um conto de Machado de Assis, Pai contra Mãe, sobre um caçador de escravos foragidos que tenta capturar uma escrava grávida. Além disso, segundo Bianchi, o longa vai mostrar que o preço do pobre moderno é tabelado pelo marketing social da empresas, da captação de recursos da classe média para atender moradores de rua.Bianchi terá um orçamento de R$ 2 milhões e contará com a ajuda da Secretaria de Cultura do Governo do Paraná. Ele filma nas cidades de Curitiba, Paranaguá e São Paulo e o elenco, que começará a ser decidido nas próximas semanas, terá 70% de atores negros.

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