ALEX SILVA/ESTADÃO
ALEX SILVA/ESTADÃO

Sergei Loznitsa: 'É insano que milhões de pessoas tenham lamentado a morte de um tirano'

Cineasta ucraniano fala ao 'Estado' sobre 'State Funeral', documentário sobre o ditador Josef Stalin que será lançado sexta, 21, pela plataforma MUBI

Luiz Carlos Merten , ESPECIAL PARA O ESTADÃO

19 de maio de 2021 | 05h00
Atualizado 19 de maio de 2021 | 15h12

Há uma nova geração de grandes autores do cinema russo. Nenhum talvez seja maior que Sergei Loznitsa. Graduado em Matemática Aplicada, foi cientista no Instituto de Cibernética de Kiev, especializando-se em inteligência artificial. Em 1997, deu uma guinada para o cinema e formou-se, em Moscou, no VGIK, Instituto de Cinematografia da Rússia. Desde então, fez quatro longas de ficção, incluindo o deslumbrante Minha Felicidade, e 21 documentários, dos quais o mais recente, State Funeral será lançado no Brasil, pela MUBI, na sexta, 21.

O funeral do título é o de Josef Stalin (1878-1953), o ditador que governou a URSS com mão de ferro, utilizando a interpretação leninista do comunismo como base para a sua governança, que ficou conhecida como stalinismo. Loznitsa não vê muita diferença entre trabalhar com documentário e ficção, com material de arquivo ou filmado por ele. “Cada filme tem seu estilo, sua linguagem, sua estrutura.” E, se ele se dedicou ao documentário no último ano e meio, foi por causa da pandemia, que provocou o isolamento social e o impede de iniciar a próxima ficção, que será filmada na Ucrânia, onde nasceu, há 56 anos. Será um complexo filme de natureza histórica, com milhares de extras. Seu planejamento e pré-produção dependem de um eventual retorno à normalidade que, atualmente, segue difícil, na Rússia e no mundo. 

Em Cannes, você disse que a teimosia era o principal atributo dos ucranianos. Atualmente, acompanhamos a perseguição de Vladimir Putin a seu opositor, Navalny. Para ser crítico na Rússia pós-soviética é preciso ser teimoso? 

Não creio que seja uma questão de teimosia, mas de inteligência e senso comum. Qualquer pessoa que tenha esse senso das coisas e o mínimo de inteligência percebe que as ações do Estado russo são destrutivas, desonestas e muito perigosas. Digo isso pensando não apenas em nós, russos, mas no mundo todo. Não existe oposição política neste país e a sociedade civil é tão fraca que se pode dizer que não existe consciência de cidadania. Vemos todo tipo de fake news, de simulações e manipulações vindas de Moscou, mas, no geral, não existe uma força coerente na Rússia, neste momento, capaz de oferecer qualquer alternativa positiva ao regime.

O material que você usa em State Funeral é impressionante. Stalin foi, durante muito tempo, um assunto tabu na antiga URSS. Como surgiu o documentário? 

Cheguei a este material quando estava trabalhando na montagem de meu filme anterior, O Processo, justamente sobre os processos do stalinismo, nos anos 1930. Em conversa com o diretor do Arquivo Nacional da Rússia, ouvi dele que no acervo havia cerca de 250 horas de material filmado somente sobre o funeral de Stalin, em 1953. Fiquei muito interessado e, ao ter acesso às imagens, imediatamente me dei conta de que teria de fazer um filme sobre aquilo. Logo após a morte de Stalin, seu nome foi apagado do discurso público e, por muitas décadas, ele se tornou quase uma persona non grata na URSS. O filme O Grande Adeus, feito apenas alguns meses após sua morte, foi mostrado apenas uma vez ao Comitê Central do Partido Comunista e logo em seguida foi arquivado. Só foi redescoberto nos anos 1990. O mesmo ocorreu com o restante do material sobre o funeral de Estado. Foi por isso que ao começar a desencavar aquelas centenas de horas de filme com meu editor, nossa impressão foi a de que havíamos descoberto um tesouro. Hoje em dia, a percepção em relação a Stalin mudou na Rússia. Ele é exaltado pelas autoridades como administrador eficiente e vencedor da 2ª Guerra Mundial. Monumentos são erigidos em sua homenagem em quase todas as cidades através da Rússia e o que não faltam são livros sobre ele nas livrarias.

 


O que mais chama atenção é a pompa e a circunstância desse material original. Foi filmado por anônimos ou havia algum diretor importante para estabelecer um conceito? 

Isso foi colhido por profissionais que trabalhavam filmando material documentário em toda a URSS. Listamos cerca de 200 nomes de cinegrafistas nos créditos, incluindo o maior nome do Departamento de Documentário e Propaganda da época, Roman Carmen. Havia um sistema de documentação pela imagem muito organizado em todas as repúblicas e, no momento em que a morte de Stalin foi anunciada, essas centenas de profissionais foram a campo para filmar as reações das pessoas e o passo a passo do funeral, propriamente dito. Quatro grandes diretores – Aleksandrov, Gerasimov, Chiaureli e Kopalin – foram encarregados de fazer o filme oficial, O Grande Adeus, mas como já disse, ele foi exibido apenas uma vez e desapareceu por um longo período.

Em um filme do grego Theo Angelopoulos, o anúncio da morte de Stalin provoca uma histeria. As pessoas choram e desesperam-se nas ruas. Sentem-se órfãs. Era resultado da eficiência da máquina de propaganda do regime. Ao cavoucar nesse material, qual foi sua intenção: fazer uma crítica da época, ou usá-lo para refletir sobre a Rússia de Putin? 

Antes de mais nada, é importante que essas imagens sejam vistas. Na Rússia, ouvimos muito sobre Stalin e o culto à sua personalidade, mas nenhum de nós – das novas gerações – vivenciou nada disso. Temos um ditado: “É melhor ver uma coisa pelo menos uma vez do que ficar ouvindo sobre ela centenas de vezes”. O cinema nos oferece a oportunidade única de reviver tudo o que parecia enterrado. A histeria, o culto. Minha intenção foi fazer o espectador atual ser parte daquele cerimonial, conduzi-lo através daquela encenação como se estivesse ocorrendo aqui e agora. É insano, praticamente incompreensível, que milhões de pessoas tenham lamentado a morte de um tirano que destruiu suas vidas, que torturou e matou. Mas esse é o poder do culto, da ilusão que a propaganda pode criar. Claro que se trata de uma ferramenta, mas não creio que exista isso que você chama de Rússia pós-URSS. O país mudou de nome e o regime soviético não mais se chama assim. Na verdade, ele morreu com Stalin, e só sobreviveu a ele por algumas décadas por pura inércia. A mentalidade, o cerne da sociedade, seu centro, não mudaram. É claro para quem observa o que se passa hoje na Rússia. Então, digamos que o filme pode ser uma ferramenta útil para quem quiser entender a Rússia.

Você não faz entrevistas nem se utiliza de narrador, mas a estrutura consegue ser, mesmo assim, bastante sólida. Em que momento você percebeu que este seria seu caminho? 

Nunca uso narração nem comentários em meus filmes. Não creio que seja necessário. Com relação ao uso do som, decidi que seria a música tocada no próprio funeral, para marcar o clima e o ritmo da narrativa. Mas devo dizer que fomos muito afortunados ao descobrir as gravações da cobertura de rádio pelo país inteiro naqueles dias. Usamos trechos daquelas gravações, e tenho de confessar que, muitas vezes, me pareciam mais surreais que as próprias imagens.

Como foi o processo de edição? Foi preciso pagar direitos para utilizar o material? 

Trabalhei com um editor e um pesquisador. Algumas cenas eu editei sozinho, mas quase sempre foi em dupla com ele. A montagem durou cerca de três meses e foi muito intensa, porque tínhamos muito material para selecionar. Todas as imagens vieram do Arquivo Nacional Russo de Fotos e Filmes, que se localiza em Krasnokorsk, perto de Moscou. Claro que precisamos adquirir uma licença de uso destes arquivos. Os negativos foram escaneados em 2 K, e aí minha equipe de restauro trabalhou mais cerca de um mês e meio, limpando e restaurando as imagens. Depois disso, consumimos mais quatro dias para devolver o brilho às cores. Todo esse cuidado técnico com a qualidade do filme foi essencial porque, desde o início, ficou claro que o filme teria de passar nos cinemas. O mais curioso é que tudo começou com arquivos de baixa qualidade, em preto e branco. Quando o material chegou do laboratório foi que descobri que 70% do que eu achava que era PB, era em cores. Isso ocorreu faltando poucas semanas para a première em Veneza. Decidi manter o material como era, sem colorizar o que havia de preto e branco. Fiquei muito satisfeito com o resultado, mas, em Veneza, os críticos quiseram saber qual era a minha filosofia, misturando preto e branco e cores. Não tinha filosofia nenhuma, foi um acidente! 

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