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Será surpresa se 'Retrato', longa de Céline Sciamma não for indicado ao Oscar

Retrato é sobre uma pintora contratada para fazer o retrato de uma jovem que deixou o convento para substituir a irmã, que se matou, num casamento arranjado

Luiz Carlos Merten, O Estado de S.Paulo

13 de janeiro de 2020 | 08h00

Desde o Festival de Cannes do ano passado, em que recebeu o prêmio de roteiro e a Palme Queer – para o melhor filme de temática LGBQ+ –, Retrato de Uma Jovem em Chamas tem sido um favorito de plateias defensoras da diversidade. No Brasil, abriu o Mix Brasil, em novembro.

Concorreu ao Globo de Ouro e, muito provavelmente, estará entre os cinco indicados para disputar o Oscar de melhor filme internacional, no anúncio que a Academia de Hollywood faz nesta segunda-feira, 13 – às 10h do Brasil. É o quarto filme de Céline Sciamma, que, a par de ser diretora, roteirista – autora –, é também ativista em defesa dos gêneros.

Retrato é sobre uma pintora contratada para fazer o retrato de uma jovem que deixou o convento para substituir a irmã, que se matou, num casamento arranjado. Ela não quer se deixar pintar para o retrato que será ofertado ao futuro marido. Noémie Merlant faz a pintora, Marianne. Logo no começo do filme está desembarcando na costa da Bretanha, na França de 1770, portanto, pré-revolucionária. Héloïse é interpretada por Adèle Haenel.

Marianne finge estar ali por outro motivo. Aproxima-se de Héloïse sem revelar sua intenção. Observa-a o tempo todo e, depois, reproduz o que vê. Criadora, e criatura. Assim como a aproximação é furtiva, a relação também o será. Desejo oculto, repressão. Como mulher, a questão é mais íntima. Liberar o fogo da paixão que a ambas consome. Existem referências até um tanto óbvias no processo, e não se pode negligenciar que se trata de um filme de época. Ecos de Emily Brontë, O Morro dos Ventos Uivantes, claro. E de Jane Campion, O Piano, que venceu a Palma de Ouro de 1993 (dividida com Adeus, Minha Concubina, de Chen Kaige). Jane permanece como a única mulher vencedora do prêmio maior de Cannes. Céline, só para esclarecer, também foi a primeira e até agora única vencedora da Palma gay.

São influências que ajudam a esclarecer um mal-entendido de que o filme está sendo vítima. Tem gente – críticos – que acham que o filme começa ruim e melhora um pouco. O filme é habilmente construído para refletir sobre a relação pessoal das duas. O problema de Retrato é uma certa frieza que Céline só se permite subverter em poucas cenas. Pode ser um tanto de pudor.

No Cahiers de outubro, em que a capa é Jean-Luc Godard – por Le Livre d’Image/Imagem e Palavra –, o mais controverso autor da nouvelle vague discute muito as questões da linguagem e da língua. Isso o leva a defender a supremacia do cinema mudo – puro? – sobre o sonoro. Godard cita um filme de Ernst Lubitsch, que Otto Preminger refilmou – O Leque de Lady Windermere –, para uma afirmação ousada. Diz que o Lubitsch pode ser entendido sem o reforço de intertítulos, enquanto o Preminger seria incompreensível sem as legendas.

Mas o que Godard faz é um grande elogio a uma atriz mítica do período silencioso, Rose Hobart. Há 90 anos, ela foi a protagonista de Liliom, a versão de Frank Borzage. Qual era o segredo dessa mulher que faz dela, até hoje, uma atriz tão moderna? Mas o que isso tem a ver com Retrato? Godard busca o que seria o equivalente de uma atriz contemporânea para tentar iluminar o mistério, e a permanência, de Rose Hobart. Compara-a a Adèle Haenel, mas com a ressalva de que ela é maior que seus filmes. Isso significa desconsiderar dois filmes de muito prestígio interpretados por Adèle – A Garota Desconhecida, dos irmãos Dardenne, e 120 Batimentos por Segundo, de Robin Campillo. 

Seria, de qualquer maneira, estranho ver um Godard elogiando filmes como esses, fundados no naturalismo. Mas o que ele afirma vale – você não precisa amar Retrato para sentir a entrega das atrizes. No plural – Adèle e Noémie são excepcionais.

 

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