Seqüência de "Missão Impossível" recupera emoção

Esqueça tudo o que você conhece sobre o seriado Missão Impossível. Neste Missão Impossível 2, não há tanto trabalho em grupo. Apenas um agente realmente põe a cara para bater, Ethan Hunt (Tom Cruise). Esqueça também o primeiro e frio Missão Impossível, de 1996, dirigido burocraticamente por Brian De Palma. Neste segundo, John Woo faz a tela ferver.É fácil entender por que Tom Cruise desvirtua o seriado em favor de seu personagem. Sendo ele o maior astro de Hollywood na atualidade, dividir as ações com outros atores seria diminuir a si próprio, em um filme que ele mesmo produziu. Mas como Tom conquista facilmente a platéia, mas não os críticos, ainda é possível vê-lo dividindo a tela, como em Magnolia, de Paul Thomas Anderson, pelo qual concorreu ao Oscar de melhor ator coadjuvante.Também é fácil entender por que esta segunda edição é tão superior à primeira. Tom Cruise havia acabado de abrir sua produtora, a Cruise/Wagner, especialmente para produzir o Missão Impossível. Brian De Palma já provou há muito tempo ser um excelente diretor, basta lembrar Dublê de Corpo, de 1984, ou o mais recente Pagamento Final, de 1993. Cruise e De Palma, na primeira versão, divergiram em muitos pontos durante as filmagens. A conclusão foi um filme irregular.Para a continuação, o diretor John Woo recebeu carta branca do já escolado produtor. Por ser um estrangeiro em Hollywood, ele tem de provar todo seu talento a cada filme, apesar do sucesso de A Outra Face, de 1997. Desta vez, exagerou.Nos anos setenta, Sam Peckinpah nos mostrou como as cenas de violência no cinema poderiam ser sangrentas e sujas. Hoje, John Woo nos mostra como elas podem ser belas, leves e - por que não? - oníricas. Tamanha é a leveza, a precisão dos golpes e da coreografia que a comparação com um balé é inevitável. E tudo isso é elevado ao quadrado quando Woo liga sua câmera lenta.Alfred Hicthcock e Akira Kurosawa provavelmente teriam ataques ao ver o quanto Woo se utiliza de câmeras lentas. Este recurso era abominado por ambos, por explicitar a presença de uma manipulação nas imagens. Mas nas fabulosas cenas de ação criadas por Woo, a manipulação fica tão óbvia que o fato de as imagens estarem mais lentas acaba se tornando um mero detalhe.Outros detalhes que são marcas de Woo nas telas também não faltam: pombas que voam durante as lutas, pessoas segurando uma arma em cada mão e atirando, parques coloridos em momentos felizes, roupas escuras que sempre têm algo tremulando com o vento e personagens apaixonados.O roteiro é o ponto fraco do filme. A trama fala sobre um poderoso vírus de gripe criado em laboratório por uma inescrupulosa empresa farmacêutica, que quer ganhar dinheiro com o antídoto que já criou. Mas, se o enredo não ajuda, quando começam as explosões, o fator Woo entra em ação.Ainda é cedo para comparar Ethan Hunt com James Bond. Tom Cruise ainda procura o tom (sem trocadilhos) para interpretar o seu agente, enquanto Sean Connery já sabia o que fazer desde a primeira cena. E embora o nome de Cruise esteja escrito em letras garrafais no cartaz publicitário e apareça duas vezes nos créditos iniciais (como ator e como produtor), não se engane: o filme é mesmo de John Woo.

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